O cinema não deixa de ser um reunião, um grande elo, de pessoas que amam entender os sentimentos que caminham pelo universo que vivemos. Pensando em entender melhor as origens do amado gosto pela sétima arte, esse humilde cinéfilo que vos escreve resolveu de maneira espontânea mandar um questionário de perguntas para uma incrível seleção de cinéfilos brasileiros com o objetivo de trocar experiências sobre tudo que já viveram nesses anos de amor ao cinema.

Nossa convidada de hoje é uma das pessoas que mais assistem a filmes por ano no Estado do Rio de Janeiro. Com uma memória de dar inveja a qualquer cinéfilo, sempre simpática e receptiva nas saídas das sessões para conversar sobre o filme visto, Kathia Pompeu é woodyalleana, jornalista, editora-chefe de uma revista de design e arte, diretora de projetos da Agência Ângulo, amante dos filmes, gamada por jazz, colecionadora de HQ, fã do Batman, disneymaníaca e apaixonada por NY.

1) Na sua cidade, qual sua sala de cinema preferida em relação a programação? Detalhe o porquê da escolha.

Eu gosto muito do circuito em Botafogo, que concentra inúmeras opções de salas e programações, como o Estação (que frequento desde a inauguração), que aguçam meu olhar cinéfilo.

2) Qual o primeiro filme que você lembra de ter visto e pensado: cinema é um lugar diferente?

Essa pergunta tem a ver com a minha existência, considerando que minha mãe entrou em trabalho de parto num daqueles antigos cinemas da Cinelândia durante a exibição de Belo Antonio, de Mauro Bolognini, com Mastroianni no papel-título. Acho que foi nesse momento que tudo começou. Nasci cinéfila!



Elipse, uns dez anos depois, me lembro do meu tio (por parte de pai) me levar para assistir Quando o Carnaval Chegar, do Cacá Diegues, no Odeon – também na Cinelândia. Fiquei fascinada por aquele espaço glamoroso, aquela tela enorme dominando meu olhar. Tudo parecia mágico, e é!

 

3) Qual seu diretor favorito e seu filme favorito dele?

Aproveite para assistir:



Woody Allen, por tudo! Amo de formas diferentes cada um de seus muitos filmes, mas vou escolher aqui Annie Hall, por ter sido o primeiro dele que assisti, numa tarde dos anos 80, no Cine Joia, em Copacabana. Foi amor à primeira vista.



4) Qual seu filme nacional favorito e por quê?

Um dos grandes amores do início da minha vida cinéfila foi Glauber Rocha, e tive o privilégio de assistir Deus e o Diabo na terra do Sol, no Rian – um cinemaço que ficava à beira mar de Copacabana. Era uma época que a grande maioria dos cinemas só tinha uma sala, exibindo o mesmo filme em todas as sessões, e podíamos ficar na sala, se quiséssemos, para rever o filme. Então, fui eu lá ver o sagrado-profano de Glauber, por acaso, na primeira sessão… e aquele barroco visual, a fotografia em preto e branco espetacular de Waldemar Lima, as Bachianas brasileiras n.5 de Villas Lobo, a saga de Rosa e Manuel no sertão baiano, o cangaço de uma câmera quase sempre na mão e muitas ideias na cabeça glauberiana me acachaparam. Vi e revi em sequência hipnótica. Quando sai do Rian já era noite, e eu completamente fascinada por aquela obra-prima do cinema brasileiro.

5) O que é ser cinéfilo para você?

Sabe a Cecília, de Rosa Púrpura do Cairo, personagem criada pelo Sr. Allen e magistralmente interpretada por Mia? Sou eu. O cinema é meu refúgio, minha janela para o mundo, meu divã de terapia, minha conexão com outras culturas, linguagens e, de uma maneira bem especial, um lugar de fazer amigos. Não à toa, a maior parte dos meus best friends conheci e convivo nas salas de cinemas.

6) Você acredita que os cinemas que você conhece possuem programação feitas por pessoas que entendem de cinema?



Não. Sem juízo de valor, acho que algumas redes de cinema são programadas visando uma relação comercial bem sucedida, atingir grandes plateias e bilheteria. Existe um público significativo que quer isso e é atendido. Por essa razão, acho fundamental a resistência de salas dedicadas e que abram espaços para filmes, mostras e festivais com curadoria de pessoas com uma visão ampla do universo do cinema, e que o lucro venha como consequência de uma programação tão variada quanto atraente a diferentes públicos.

7)  Algum dia as salas de cinema vão acabar?

Tomara que não. É uma experiência coletiva-tecnológica que pode evoluir para infinitas possibilidades – o que inclui conforto, qualidade de som, de imagem e sensações. Tenho um bom equipamento na minha casa, mas não compete, e muito menos exclui, o fascínio e a mágica daquela sala escura.

8) Indique um filme que você acha que muitos não viram mas é ótimo.

Nossa! Meus amigos veem tudo e muito. Tarefa difícil indicar algo pra essa moçada que explora produções inimagináveis.


9) Você acha que as salas de cinema deveriam reabrir antes de termos uma vacina contra a covid-19?

Não vou fazer média, é mega arriscado.

10) Como você enxerga a qualidade do cinema brasileiro atualmente?

Cada vez melhor. Uma nova geração de filmes com protagonismo de equipe de criação e artistas que transitam por todos os gêneros, propostas e públicos.

11) Diga o artista brasileiro que você não perde um filme.

A lista, ainda bem, é vasta, mas vou de Kleber Mendonça Filho, um fazedor de obras-primas que levam à reflexão de um Brasil com muitas camadas culturais-sociais. Um diretor intenso que, de filme em filme, constrói um acervo marcado por linguagem própria, reconhecível logo nos primeiros planos, que me emociona sempre. Cinema que dialoga comigo.

Outro nome que vou sublinhar aqui é o do meu irmão Hsu Chian, um diretor que combina proatividade, versatilidade e um longo histórico de participações nos bastidores do cinema nacional. Já até perdi a conta de quantos filmes ele colaborou, mas sei todos que ele roteirizou e dirigiu. Sou fã além da amizade. Vejo tudo que ele faz e, na enorme maioria das vezes, sentada ao lado dele na plateia.

 

12) Defina cinema com uma frase:

“There’s no place like home”, que nesse contexto são as salas de exibição de filmes. O lar dos cinéfilos.

13) Conte uma história inusitada que você presenciou numa sala de cinema.

Anos 90.  Eu e o meu marido, Marco, levamos nossa filhota, Nathalia, aos 11 meses, para assistir Aristogatas, numa sessão às 15h, no Star Copacabana. Sentamos na primeira fila, para ela ter uma visão mais livre da tela. Enquanto o filme rolava, percebemos um intenso movimento na plateia, notadamente masculina. Era um vai e vem, uma andança pelos corredores, um senta-levanta… até que entendemos que rolava uma pegação na sala. O interesse daquele público não era exatamente pela animação da Disney. O espaço já era manjado para encontros descompromissados. Só eu e Marco não sabíamos… e muito menos a Nath, amarradona no jazz da pesada dos gatinhos que rolava na tela. Já a nossa volta, no escurinho do cinema, uma rapaziada animada se divertia ao som de “Todo mundo quer a vida que um gato tem”.

14) Defina ‘Cinderela Baiana’ em poucas palavras…

Um clássico involuntário.

15) Você é uma cinéfila assídua dos inúmeras sessões de cinema anualmente nos cinemas do RJ. O que você acha que os cinemas precisam melhorar para serem cada vez mais lotados de cinéfilos?

Cinéfilo é um termo genérico, então apostaria na variedade de filmes, sempre… em origem, gênero, linguagem, proposta. Quanto mais diversidade maior amplitude de alcance.

 

16) Qual o pior filme que você viu na vida?

Vou te decepcionar e não dizer nenhum do Nicolas Cage, (risos). Mas já assisti muita bomba por aí, só que tenho a vantagem de ter memória seletiva.

 

17) Indique filmes para a nova geração que gostaria de ser cinéfilo e conhecer um pouco dos grandes clássicos do cinema.

Os filmes fundamentais do cinema estão em todas as listas possíveis. Prefiro dizer que pra ser cinéfilo assista a muitos filmes, muitos, para poder formar um olhar embasado. Mais adiante, é até legal filtrar as preferências. Quando eu comecei a me aprofundar no universo dos filmes, me entusiasmei primeiro por diretores, especialmente os europeus. Depois passei a me ligar em movimentos de linguagem, como Nouvelle Vague, Neorrealismo, Cinema novo, entre os óbvios-essenciais, passando pelos títulos alternativos, experimentais, undergrounds e independentes. E por aí foi… ciclos sem fronteiras.

Hoje sou uma cinéfila que continua curiosa, mas estou mais exigente na minha grade de interesses. E quando digo exigente não tem nenhum pedantismo no termo, é só mesmo uma segurança maior na escolha do que me faz feliz em assistir no cinema.

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