Entrevista EXCLUSIVA com a diretora de ‘Aos Teus Olhos’, Carolina Jabor

O dramaAos Teus Olhos chegou aos cinemas carregando consigo reflexões sobre o poder da internet e como o linchamento virtual pode afetar a vida de uma pessoa.

Nosso redator e crítico Thiago Muniz esteve na sede da Conspiração Filmes, no Rio de Janeiro, para um bate-papo exclusivo com a diretora por trás dessa grande obra, Carolina Jabor, contando um pouco sobre como foi fazer o longa e o papel da mulher no cinema nacional.

Aos Teus Olhos’ é o seu segundo longa-metragem e seu tom é bem diferente do anterior [‘Boa Sorte’, de 2014]. Como foi trabalhar em um projeto tão denso e pesado como esse?

Jabor: É uma dureza! No início, achava que depois de pronto ele seria menos pesado. Durante a produção, todo momento que achávamos que ele deveria aliviar o tom, ele ficava menos bom… Para mim era importante que houvesse uma derrocada do personagem, que ele fosse “apanhando” ao longo que a trama evoluía. Tentei colocar o mínimo de alívio cômico na cena com a prostituta na delegacia, mas não tinha espaço [para comédia] nesse filme, ele foi feito para incomodar mesmo. O filme trata essa falta de comunicação, o que não é dito, o que é desencontrado… essa solidão é necessária e, eventualmente, séria. Não tinha como não ser pesado. Foi realmente interessante… Mas prometo que no próximo filme faço um musical alegre para aliviar o clima.

O Daniel de Oliveira foi um acerto triunfal, ao meu ver, como o protagonista Rubens. Seu charme e seu olhar maligno fazem o equilíbrio perfeito. Como foi o processo de escalação dele para o filme? Estava em mente desde o início?

Jabor: Olha, eu li a peça e na mesma hora liguei para o Daniel. Disse que tinha um projeto perfeito para ele. Quando recebi sinal verde para fazer o filme, mandei para ele todos os detalhes e ele me perguntou ‘quando você pretende filmar?’. Ele sempre foi minha primeira opção e minha segunda também. Ele faz o bom moço carismático e faz o diabo, tudo em um mesmo personagem… essa ambiguidade era o que estávamos precisando.

Estamos na era da “fake news” e o filme trata esse assunto de certa forma. Você acredita que um boato falso ou mesmo uma notícia falsa pode realmente destruir a vida de uma pessoa para sempre?

Jabor: Uma difamação pública de um inocente, como aconteceu com o artista Wagner Schwartz, que foi atacado por realizar uma performance nu próximo a crianças, foi algo grande. Procurei ele quando estávamos começando o projeto para saber como se sentia e descobri que ele havia sofrido mais de 150 ameaças de morte. Ele está até hoje se virando, não havia nenhuma possibilidade de culpa, é um artista fazendo seu espetáculo. Algo assim deixa marcas profundas dentro de uma pessoa, é muito complicado, mas acredito que existem muitas maneiras de provar sua inocência e deixar que o tempo vá encobrindo essas marcas. Já as notícias falsas são algo talvez até mais sério, pois faz com que as pessoas achem que se aquilo de fato é uma informação relevante, merece ser passada para frente e se torna quase impossível de contornar… é por coisas assim que o povo acaba elegendo o Trump!

O linchamento virtual é a alma do filme. Como você lida com a internet? Acha que as redes sociais são o mal do século?

Jabor: Não, realmente não. Eu acho que as redes sociais são ferramentas poderosas que podem ser utilizadas para o bem, como esse novo movimento feminista que está surgindo mundialmente com o uso de hashtags, afinal se fossem apenas ruins, já teriam acabado. Se comunicar se tornou algo inovador, é incrível, uma novidade que consequentemente muda toda a nossa vida e altera os pilares de um sistema e de uma sociedade. Eu admiro muito isso, gosto e até uso bastante, mas acredito que estamos em um momento de reflexão sobre as redes sociais… Agora que enxergamos a dimensão da eleição do Trump e como a internet teve forte influência nisso… vemos como foi o mecanismo, sem fazer analogia ao seriado da Netflix, uma polêmica para outra hora… Enfim, é algo profundo, eles estão influenciando a sua mente, seu imaginário e seu pensamento, é disso que precisamos tomar cuidado. É uma situação de alerta.

Para descontrair do clima sério que o filme nos faz entrar, existe alguma história curiosa ou divertida dos bastidores que deseja nos contar?

Jabor: Rapaz, apesar do clima pesado nas telas, nos bastidores todos nos divertíamos muito. O elenco foi muito unido e querido, o filme fazia parte de cada um, do Azul Serra, do Daniel [de Oliveira], do Lucas Paraizo… O cinema é algo coletivo. Tínhamos a missão de filmar em apenas 21 dias, o que foi pauleira, nesse meio tempo tive pneumonia, ou seja, foi tenso real, mas o Daniel é um menino muito descontraído e alegrava todo o ambiente. Nas cenas do clube, ele ficava o tempo inteiro dentro da piscina brincando com as crianças, mesmo depois que encerrávamos a cena… ele foi nossa descontração.

Atualmente, tem surgido muitos casos de denuncias de assédio sexual e psicológico em Hollywood. Mesmo sendo algo lá fora, acredito que afeta toda a indústria cinematográfica mundial. Além disso, a mulher também enfrenta, no geral, a diferença salarial no mercado de trabalho. Você passou por algumas dessas situações em sua carreira?

Jabor: Tenho 20 anos de cinema, é bastante tempo. Quando faço um retroativo de tudo que passei nesses anos, vejo que enfrentei muito machismo no meio do caminho, uns óbvios e outros não ditos, que hoje enxergo com mais clareza. Muitas oportunidades nem chegaram até mim na época, talvez por ser jovem, mulher e bonita, eu nem era considerada para alguns trabalhos que me sentia totalmente capacitada. Enfim, eu passei sim, mas também nunca liguei muito para isso, minha coragem de fazer, de aprender e ser diretora de cinema acima de tudo, mesmo com todas a dificuldade e inseguranças, se sobressaia e eu me jogava. Hoje por exemplo, acordei de manhã e pensei: ‘esse filme tão duro, tão atual, que entra na discussão da vida real… é preciso ter muita coragem para falar desse assunto tão polêmico, precisa ser meio louco’, e é nisso que acredito, fico pensado sempre ‘meu deus, fui corajosa’, mas agora o filho pariu e minha meta é pensar no próximo.

Muitos jovens cineastas estão por aí sonhando e se esforçando para fazer seu primeiro filme, ir para Festivais e fazer carreira no cinema. O que você diria para alguém que começou agora e tem medo de não conseguir realizar seus sonhos?

Jabor: Primeiramente, ter coragem. É o que nos move pra frente. Tentar não idealizar muito, ainda mais no cinema brasileiro, que ainda é meio precário. Ter clareza em escolher projetos viáveis e realistas. Produzir seus próprios filmes também é um diferencial. Porém, o principal é ter uma noção de produção, não adianta ser só artista, precisa saber como viabilizar suas ideias. No meu escritório tenho um cartaz escrito “não é sobre ideias, é sobre fazer suas ideias acontecerem”. Ler muitos livros e ver muitos filmes ajuda muito no processo de saber contar boas histórias.

 ‘Aos Teus Olhosjá está em exibição nos cinemas! Confira a nossa crítica: Aos Teus Olhos – Drama retrata o linchamento virtual com magnitude

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Thiago Muniz
Thiago Munizhttps://cinepop.com.br
Carioca, 26 anos, apaixonado por Cinema. Venho estudando e vivendo todas as partes da sétima arte à procura de conhecimento da área. Graduando no curso de Cinema e influenciador cinematográfico no Instagram.