Antes de alcançar o lendário status que tem hoje, Kylie Minogue começou sua carreira como atriz na popular soap opera australiana ‘Neighbours’, que a catapultou ao sucesso no país e cujas gravações vieram acompanhadas de suas primeiras investidas no mundo da música. Após regravar a clássica “The Loco-motion” sob o nome de “Locomotion”, marcando, dessa forma, seu début oficial no cenário fonográfico, Minogue assinou contrato com a Mushroom Records para o então lançamento de seu primeiro álbum de estúdio – ‘Kylie’, que chegou às prateleiras de todas as lojas em 1988 e que permaneceu nada menos que seis semanas no topo das paradas britânicas.
À época, a produção dividiu a crítica especializada, que comentou sobre os vocais da artista e da formulaica produção que se inspirava fortemente nas tendências imortalizadas por Madonna, Ace of Base e até mesmo Michael Jackson – ainda que tenha caído no gosto do público e se tornado o quinto disco mais vendido da década no Reino Unido. Porém, revisitando o projeto, podemos perceber que a jovem, então com vinte anos, começava a trilhar seus próprios passos para se transformar em um dos ícones da cultura pop e em um dos nomes mais celebrados da música até hoje – e que, apenas recentemente, regravou um remix de “Love Sensation” com ninguém menos que a rainha do pop.
Apesar de ter feito sua estreia como “Locomotion”, o lead single oficial de ‘Kylie’ foi a clássica “I Should Be So Lucky” – e seria acompanhada por nada menos que outras cinco faixas promocionais no período de quase um ano. A track, assinada, produzida e arranjada pelo famoso trio formado por Mike Stock, Matt Aitken e Pete Waterman (também conhecido como Stock Aitken Waterman), já demonstra um apreço significativo e gritante pelo bubblegum pop, pelo dance-pop e pelo disco-pop, bebendo do significativo impacto deixado pela era das discotecas nos anos 1980 e ajudando a firmar a apaixonante persona de Minogue.
Estendendo-se por breves 35 minutos de duração, o compilado é uma divertida e despojada aventura romântica que reflete a mentalidade de uma garota ainda procurando sua identidade no mundo e que, apesar de replicar convencionalismos constantes do show business, oferecem uma honestidade para um nome que todos viriam a conhecer. Não é surpresa que singles similares como “Got to Be Certain”, que narra sobre a necessidade de ter certeza na índole de alguém para construir um possível relacionamento afetivo, ou “Je ne sais pas pourquoi”, que discorre sobre a natureza inexplicável do amor, partam de uma construção muito similar que ultrapassa a ideia de coesão e que beira a repetição – por mais que algumas inflexões ousem sair um pouco do compasso.
De qualquer maneira, o brilho da obra existe por seu caráter nostálgico e inspirador, navegando pelos altos e baixos da paixão de maneira universal e que inclui “Love at First Sight” (que não deve ser confundida com o single de 2001, do álbum ‘Fever’) e a ótima “It’s No Secret” – esta talvez sendo a mais inesperada por narrar sobre uma traição que todos à volta da narradora ficaram sabendo antes dela e que a fez enxergar o relacionamento que tinha com olhos mais maduros. Novamente, é possível traçar um fio condutor entre cada uma das tracks, cortesia do conciso trabalho de Stock, Aitken e Waterman, que não traz nada de novo, mas compensa pelo magnetismo e pelo charme de Minogue.
Mesmo com erros bastante óbvios em sua arquitetura, o álbum carrega um peso inestimável na carreira artística de Minogue – e o sucesso da produção foi caracterizado como provindo de sua popularidade como atriz, como apontaram os jornalistas da época. Em meio a uma arriscada transição para o cenário fonográfico, que ampliou sua fama para a Europa e que, pouco depois, a tornaria um nome bastante conhecido nos Estados Unidos e em outros grandes mercados internacionais, o disco emerge como um produto humilde e prático (e não utilizo esses termos para diminuí-lo, muito pelo contrário).
Há quase quatro décadas, Kylie Minogue dava início a um dos capítulos mais importantes de sua vida profissional com o lançamento de seu debute epônimo, firmando uma imagem que, a princípio taxada como manufaturada e passível de comparações com vários nomes da indústria, encontraria uma voz única e que continua a colher frutos ao redor do planeta.


