Fever | Álbum que eternizou Kylie Minogue como emblema do pop e do nu-disco completa 25 anos

Kylie Minogue tem tido uma carreira bastante interessante no cenário fonográfico. Desde sua estreia oficial em 1988 com o lançamento de seu álbum homônimo – uma produção que chamaria a atenção da mídia de forma tanto positiva quanto negativa -, a princesa australiana do pop viria a encontrar espaço de sobra para angariar uma legião significativa de fãs ao redor do mundo. Não é surpresa que, ao longo das décadas, ela tenha se firmado como uma das lendas do gênero, encontrando, inclusive, um merecido reconhecimento planetário com o lançamento de ‘Tension’ em 2023 – que lhe rendeu sua segunda estatueta do Grammy pelo popular single “Padam Padam”.

E, levando em consideração que o principal mercado da música continua sendo os Estados Unidos, a reafirmação de seu inegável status alguns anos atrás é apenas mais uma adição a uma versatilidade artística invejável e aplaudível. Todavia, essas investidas não começaram nesta década; pelo contrário, as constantes reinvenções de Minogue no show business sempre foram bastante contundentes e marcantes – ora, não precisamos ir muito longe para nos lembrarmos de incursões como ‘Aphrodite’, ‘Golden’ e ‘Disco’. E nada disso seria possível sem o que caracterizamos como a melhor entrada de sua carreira: o lendário disco ‘Fever’.

Completando duas décadas e meia no dia de hoje, 1º de outubro,, o compilado de originais é um lembrete do magnânimo poder da artista em conquistar o público. Tudo teve início quando Minogue encerrou seu contrato com a Deconstruction em 1998, após o fracasso comercial do subestimado ‘Impossible Princess’ – o que a fez firmar parceria com a Parlophone para uma espécie de “renascimento primário” com ‘Light Years’ (um projeto pautado no dance-pop e no disco que recebeu críticas bastante positivas e teve um desempenho considerável nas principais paradas). Não demorou muito até que a produtora se reunisse com a performer para um oitavo álbum de estúdio que ganharia o nome de ‘Fever’, ajudando a reiterar a persona de Kylie como a grande superestrela do pop como a conhecemos.

Vendendo mais de seis milhões de cópias desde seu lançamento em 2001, o compilado de originais é um dos lembretes mais palpáveis de que um enorme talento às vezes se esconde em meio aos constantes bombardeios do cenário mainstream. Ao procurar uma sonoridade que se mantivesse fiel às pulsões da época e, ao mesmo tempo, soasse original, Minogue esquadrinhou um território que lhe rendeu não apenas o single mais bem-sucedido de sua carreira, “Can’t Get You Out Of My Head”, mas uma merecida estatueta do Grammy por “Come Into My World”, rompendo as barreiras comerciais dos Estados Unidos e tornando-a uma das queridinhas dos ouvintes.

À época, nomes bastante conhecidos dominavam o escopo fonográfico feminino, incluindo Madonna com o recente lançamento da vibrante infusão de eletrônica e dance de ‘Music’ (2000), e a ascensão de Britney Spears e Christina Aguilera como emblemas do teen pop – apresentando uma sonoridade diferente ao público mais jovem. Logo, Minogue tinha um trabalho árduo de se manter viva nos estandartes da cultura pop e se aliou a nomes como Steve Anderson, Rob Davis e Greg Fitzgerald para uma celebração atemporal do dance-pop e do nu-disco. Ao unir elementos dos anos 1970 e 1990, as doze faixas da versão padrão de ‘Fever’ apoiam-se na defesa do hedonismo, do amor e do escape musical para nos chamar às pistas de dança em uma noite interminável de prazer e de alegria.

O álbum serve não apenas como um convite irrecusável ao deleite da vida e do que ela nos guarda, mas uma declamação pungente sobre a importância da música pop – que ainda era vista como uma mercadoria manufaturada por parte dos especialistas musicais. E, considerando que mesmo Kylie foi alvo desses inexplicáveis comentários, nada mais justo que ela se apropriar das tendências da época para construir uma jornada à seu bel-prazer – cujo carro-chefe, o já mencionado “Can’t Get You Out of My Head”, a permitiu explorar uma identidade mais sensual e ousada (tanto no âmbito fonográfico quanto no visual). Ora, como podemos esquecer da icônica coreografia performada pela artista no clipe oficial ou o fato de que a faixa vendeu mais de 12 milhões de cópias no planeta?

‘Fever’ é uma inebriante produção que, mesmo com ínfimos deslizes mais técnicos, não perdeu seu brilho e envelheceu como uma boa garrafa de vinho – e seu sucesso é também explicado não só pela persona em que Kylie se transformou nas décadas que antecederam o álbum, mas pela certeira visão mercadológica com que seu time trabalhou o disco. Desde as escolhas de vibrantes e narcóticas canções como singles promocionais (que incluem “In Your Eyes”, “Love at First Sight” e “Come Into My World”) até incursões que unem passado e presente em um mesmo lugar (como “Dancefloor”, “Give It To Me” e faixa-título), cada passo dado para promover a era funciona como uma grande aula de marketing que seria emulada por vários artistas.

A configuração do álbum é outro elemento a ser destacado – e justifica a clara comparação que existe entre ele e um outro clássico do gênero, ‘Confessions on a Dance Floor’, lançado em 2005 pela eterna rainha do pop. Se a produção comandada por Madonna ganhou notoriedade por funcionar como um setlist de DJ, além de trazer de volta as efervescências dos anos 1970 e 1980 para o início do século XXI, o trabalho de Minogue é uma espécie de “pontapé inicial” para um saudosismo artístico que seria emulado nos anos seguintes – e que estenderia seu impacto dentro da carreira da própria performer até nomes como Dua Lipa, Jessie Ware e Lady Gaga.

Lembrando que ‘Fever’ está disponível nas principais plataformas de streaming.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.