Superprodução do herói é um exemplar marcante das adaptações desse tipo na década

O início do século XX para a indústria de quadrinhos foi o momento mais propício para o surgimento de propriedades que, na falta de clássicos prévios (com a provável exceção de Tintim), posicionaram muitas das regras e personagens que são marcantes até hoje. Além de nomes consagrados como Superman, Batman, Mulher Maravilha, Shazam há um outro no qual muito pouco vinha se falando.

Flash Gordon fez sua estreia em 1934 como uma resposta comercial ao sucesso do também herói de ficção científica Buck Rogers, cujas histórias eram publicadas desde 1928 na revista Amazing Stories. Visando o sucesso da concorrência, a editora King Feature Syndicate começou a desenvolver sua própria versão de Buck Rogers, confiando a Alex Raymond a responsabilidade de criar uma nova propriedade.

De início o material fonte a que Raymond mais se debruçou foi o livro When Worlds Collide, obra de ficção cientifica lançada em 1933 por Philip Wylie e Edwin Balmer. Duas semelhanças entre ambas as histórias são inegáveis: um terráqueo que se vê em meio a uma ameaça à Terra envolvendo mundos alheios e a presença da parceira entre o elenco de apoio. Para a mitologia de Flash Gordon essas também se tornaram características importantes.



Buck Rogers foi uma inspiração para Flash Gordon.

A trama que nasceu daí foi a saga do homônimo jovem jogador de polo que, alertado por seu amigo Dr. Zarkov, descobre que um planeta batizado de Mongo está em rota de colisão com a Terra. O cientista então sequestra Flash e o também estudante Dale para partirem junto com ele em um foguete rumo ao planeta Mongo e tentar descobrir uma forma de impedir a destruição.

É ali que Flash conhece seu nêmesis, o maligno imperador Ming, O Impiedoso. Entre 1934 e 1992 as edições de Flash Gordon eram publicadas diariamente, apresentando novas aventuras do herói e seus amigos em diferentes localidades do planeta Mongo. As primeiras tentativas de adaptar essas histórias para um formato live-action aconteceram ainda nos anos 30, mais especificamente em sua reta final, e em formato serializado.

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Esses tipos de produção eram muito comuns nos cinemas na primeira metade do século XX; por um determinado preço o público tinha acesso não só à sessão principal mas a um curta que antecedia ao filme. Geralmente essas produções eram animações (os estúdios Fleischer, por exemplo, construíram a fama de competidor da Disney com essas exibições) mas com Flash Gordon houveram três seriados episódicos entre 1936 e 1940.

Flash Gordon foi um dos primeiros heróis dos quadrinhos.

Vieram então os anos 80 e com eles a ascensão de um dos produtores mais prolíficos da década: Dino De Laurentiis. Um dos responsáveis pela maior visibilidade do cinema italiano no cenário internacional a partir da segunda metade do século, o produtor detinha os direitos de uma adaptação de Flash Gordon desde os anos 60. Um então jovem George Lucas abordou De Laurentiis com o interesse de dirigir o filme, uma vez que os curtas mencionados do personagem tiveram grande influência na infância do cineasta.



No entanto, o produtor recusou a proposta. Isso se deveu à sua vontade de contratar um nome mais estabelecido e conceituado como o de Federico Fellini. Àquela altura o diretor já era um dos expoentes do novo cinema italiano e sua contratação seria essencial para uma maior consolidação desse segmento junto a um público norte-americano mais abrangente.

O primeiro contratempo da produção surgiu quando Fellini teve que abandonar o projeto, forçando o produtor a ir atrás do diretor britânico Nicolas Roeg (um dos seus filmes mais famosos até então havia sido O Homem que Caiu na Terra estrelado por David Bowie em 1976). A parceria teve início promissor, com o cineasta confirmando ser um fã de longa data dos quadrinhos de Flash Gordon e elaborando uma primeira versão de roteiro para o longa.

Porém, após De Laurentiis recusar essa abordagem inicial, Roeg também abandonou o projeto. Sem maiores opções ele recorreu à Mike Hodges, famoso até então pelo thriller Carter – O Vingador, estrelado por Michael Caine, de 1971. Para o papel principal foi escolhido o novato Sam J. Jones, tendo aqui sua primeira grande oportunidade; no papel antagonista de Ming, O Impiedoso foi escalado o lendário Max von Sydow; Timothy Dalton, em um período antes de assumir o manto de 007, como príncipe Barin.

Sam J. Jones contracena com Max von Sydow na adaptação dos anos 80.

A trilha sonora foi composta pela banda Queen, seguindo sob um certo ponto de vista o planejamento do cancelado Duna de Alejandro Jodorowsky anos antes, em que bandas de rock estariam responsáveis por compor a trilha sonora ao invés do modelo tradicional de confiar a um único compositor essa tarefa. Ainda se mantendo nesse tópico, anos após o lançamento de Flash Gordon tornou-se cada vez mais comum a discussão sobre o quão inspirado, em termos técnicos pelo menos, ele foi por Duna.

Isso porque os figurinos do núcleo de habitantes do planeta Mongo costumeiramente é associado com aqueles elaborados pelo quadrinista Jean Giraud para a mencionada ficção científica jamais realizada. É inclusive o visual chamativo (tanto no design quanto no uso de cores vivas como o vermelho) de Flash Gordon que tornam o filme um produto marcante e bem inserido no contexto de outras produções de fantasia que pautaram os anos 80 (Conan e Mestres do Universo por exemplo).

Tendo um orçamento em US$ 27 milhões, que eventualmente acabou em determinado momento da produção, o filme arrecadou o mesmo valor na bilheteria doméstica, o que foi considerado um fracasso. Ainda assim, criticamente ele foi elogiado pelo diretor entender que tinha a sua disposição um material com forte tendência à galhofa e, mesmo assim, não tendo medo de pender a narrativa para esse caminho quando necessário.

Desde então a franquia Flash Gordon permaneceu dormente, quando apenas recentemente o diretor Taika Waititi surgiu com a ideia de produzir uma animação sobre a saga. Porém, ele mudou o planejamento para um novo live-action; ainda sem maiores detalhes.



 

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