Batman (The Batman, 2022) já estreou nos cinemas pelo mundo e vem se tornando um dos grandes sucessos deste ano – tanto de crítica quanto de público. Com novos atores, uma nova abordagem (mais voltada a um teor investigativo e de suspense), o longa conta os primeiros anos de Bruce Wayne como o herói mascarado, vigilante de Gotham. Se formos contar, o novo filme é o oitavo longa solo do Homem-Morcego nos cinemas (sem contar as participações com a Liga da Justiça ou dividindo o título com o Superman). Em homenagem à ótima nova produção, nossa proposta aqui é revisitar onde tudo começou: a primeira superprodução de Batman, lançada lá em 1989.

Batman, de Tim Burton, um dos primeiros filmes de super-heróis de todos os tempos, teve seu lançamento em 1989 (no dia 19 de junho mais precisamente). Em 2019, o filme completou 30 anos de lançamento, e uma produção tão importante para o entretenimento quanto essa, obviamente ganhou diversas homenagens. Aqui no Brasil a rede Cinemark trouxe de volta este clássico para as telonas por duas noites, e o CinePOP esteve presente para relembrar toda a glória da obra. Este foi o primeiro filme americano que este amigo que vos fala assistiu no cinema. Confira abaixo a trajetória do Homem-Morcego das tirinhas de quadrinhos e da série de TV para as telonas em grande estilo.

Hoje em dia, filmes de super-heróis são tão comuns que se tornaram a fonte mais rentável e bem sucedida da Hollywood atual. Mas se formos voltar ao passado e olhar mais de 30 anos atrás, esta realidade era bem diferente. Foi em 1989 que a Warner tirou do papel o primeiro filme do icônico personagem criado pelo artista Bob Kane em 1939, ou seja, em seu aniversário de 50 anos. Antes disso, a imagem mais popular que se tinha do personagem era a interpretada por Adam West no seriado camp da década de 1960 – aquele do “Pow”, “Soc”, “Wham”. Essa versão do personagem era mais voltada ao humor, dono de um tom extremamente farsesco e caricato. Também gerou um longa-metragem em 1966, que nada mais era do que uma extensão do programa de TV.


Desta forma, Batman (1989) foi a primeira vez que o personagem de fato ganhou um tratamento diferenciado e cinematográfico – no melhor sentido da palavra. Não havia muito precedente, já que na época histórias em quadrinhos ainda eram consideradas coisa de criança e todo estúdio que se prezava via o material como um tremendo risco. A não ser a própria Warner, que em 1978 tirou do papel, recebeu inúmeros elogios e lucrou com outro famoso herói: o Superman. Essa foi a primeira vez que um filme tratou tais obras com seriedade, apelando tanto aos adultos quanto às crianças. Richard Donner, o diretor, fez com que todos acreditassem que um homem podia voar – esse era inclusive o slogan da produção. No elenco, grandes astros da época davam o respaldo necessário, trazendo credibilidade ao projeto. Marlon Brando – o maior ator da época – viveu o pai alienígena do herói, e Gene Hackman (o ator tinha duas indicações e uma vitória no Oscar na época) deu vida ao vilão Lex Luthor.

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Com Batman, o desejo do estúdio era por uma proposta similar: uma obra calcada no realismo, sem esquecer se tratar de uma história de quadrinhos. Essa mescla de fantasia com sobriedade, e elementos adultos, fazia toda a diferença. Mas nem sempre foi assim, o filme quase seguiu os moldes zombeteiros do seriado de TV, e por pouco não teve Bill Murray como o Homem Morcego e Eddie Murphy como Robin. Já imaginou? Nesta época, o diretor Ivan Reitman (Os Caça-Fantasmas) era cotado para comandar a produção.


Mas a opção da Warner e dos produtores Peter Guber e Jon Peters (os homens que fizeram este motor girar) foi mesmo por um tom mais sério, maduro, intenso e sombrio. Depois de muitos diretores serem considerados, o comando do filme terminou nas mãos de Tim Burton, então um cineasta novato de 30 anos de idade, vindo do setor de animação da Disney, com apenas dois longas no currículo – o infantil As Grandes Aventuras de Pee-Wee (1985) e Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice, 1998). Foi inclusive o sucesso do segundo, lançado pela própria Warner, que fez os produtores escolherem Burton de vez – o diretor teve assim mais de um ano para o lançamento Batman, já que Beetlejuice estreou no início de 1988.

De Burton, que depois adotaria de vez o estilo sombrio e o visual gótico, saído do expressionismo alemão, partiu a ideia para a criação daquele universo particular – que englobou a construção de Gotham City e sua direção de arte, o visual dos personagens (como o uniforme do herói – uma armadura negra), a trilha sonora imponente de Danny Elfman, e os demais elementos. O visual de Batman mistura elementos típicos do cinema noir, com uma criminalidade pulsante (bem similar a filmes de gângsteres dos anos 1930, o filme inclusive parece passado em tal década), com o visual fantástico, de sombras e cenários de angulações distorcidas, do expressionismo do cinema alemão, vide F.W. Murnau.


Por falar nesta atmosfera, muitos acreditavam que o filme sequer era indicado para seu público-alvo. O crítico Gene Siskel na época chegou a dizer que Batman “não era um filme para crianças”. Já seu companheiro de programa, Roger Ebert, foi além e citou: “Não é apenas um filme sombrio ou noir, mas existe um grande nível de hostilidade e raiva neste filme, um grande nível de sentimentos ruins. É um filme extremamente perturbador”.

Quanto aos atores, depois de muita procura e ofertas – como é esperado num filme assim, de orçamento estimado na casa dos US$35 milhões (o que na época era um absurdo) -, a produção optou por Michael Keaton, um ator que vinha basicamente de comédias e não tinha o porte do personagem. A opção de Burton era por um homem comum, extremamente identificável, que deixava fluir seu lado sombrio e assustador devido a um grande trauma. A proposta de entregar algo completamente fora do padrão, do esperado e atuando contra o estereotipo se mostrou muito bem sucedida e Keaton ainda permanece como o Batman preferido de muitos. Mas obviamente, a batalha não foi ganha sem chiados e reclamações. Quando foi divulgado como o protagonista, Keaton sofreu uma onda de boicotes dos fãs – que não o viam como o personagem. Mais de 50 mil cartas foram enviadas para a Warner se manifestando contra a escolha do ator, numa era pré-internet.

Para acalmar os ânimos, a Warner divulgou imagens do ator dentro da armadura – os fãs imaginavam o collant típico dos heróis, como nos quadrinhos, na série de TV e o usado por Christopher Reeve em Superman (1978). A ideia da armadura foi revolucionária e coloca o herói, que não possui poderes sobre-humanos como os outros super-heróis, numa situação de vantagem, se tornando inclusive à prova de balas. Como não haviam pensado nisso? A roupa também dava todos os músculos que Keaton precisava para ser o herói. Recentemente, Shazam! usou a mesma estratégia com o ator Zachary Levi.


Quanto ao vilão Coringa, o astro Jack Nicholson só topou interpretá-lo quando a Warner armou uma “armadilha” para o ator. A fim de que o renomado artista aceitasse, chegou aos seus ouvidos que Robin Williams iria ficar com o papel – a quem o personagem havia realmente sido oferecido. Assim, Nicholson pulou na oferta, e Williams por outro lado não gostou nada de ter sido usado como isca. Nicholson fecharia ainda um contrato por uma porcentagem da bilheteria ao invés de um salário fixo pelo filme – já tendo a visão e plena confiança do sucesso da superprodução. Uma manobra arriscada se o filme se mostrasse um fracasso. Mas, visionário, Nicholson acabou embolsando cerca de US$60 milhões de dólares para viver o palhaço do crime – ainda hoje, um dos maiores pagamentos a um ator na história.

Kim Basinger, não topou de primeira viver a repórter Vicki Vale, sendo substituída pela atriz Sean Young (Blade Runner – O Caçador de Androides). Young chegou a gravar cenas como Vale, mas numa delas, na qual andava a cavalo, caiu e quebrou a clavícula, precisando se afastar por completo da produção. Assim, Basinger foi chamada às pressas e depois de reajustes na oferta salarial, topou o desafio. Além disso, Basinger insistiu para aumentar seu papel no filme. Na cena final em que o duelo ocorre entre Batman e Coringa na catedral de Gotham, Vale ficaria de fora lá embaixo. Basinger insistiu para que sua personagem estivesse no ato final, assim os roteiristas ao lado da atriz reescreveram o desfecho para incluí-la. Isso que é iniciativa.


Realmente talvez seja muito difícil para a geração de hoje, nascida numa era de filmes eventos e colossos semanais, entender o fenômeno cultural que foi Batman. Não existia precedentes para esta magnitude. Só em matéria de merchandising, por exemplo, os materiais promocionais de Batman (como cartazes e outdoors) começaram a ser veiculados um ano antes da estreia. Até mesmo no Brasil – lembro claramente na infância de ver o símbolo do herói espalhado pela cidade. Era como se viravam antes da internet. O filme lucrou mais de US$40 milhões em sua estreia, somando mais de US$250 milhões só nos EUA. Pelo mundo, Batman arrecadou mais de US$410 milhões – um verdadeiro arrasa-quarteirão para a época.

Era o início de uma nova era. E o que temos hoje no terreno de superproduções megalomaníacas se deve muito a este filme. Os blockbuters haviam dado seu start com Tubarão (1975) e depois disso, na década de 1980, abriam a porta como nunca antes para o cinema entretenimento. Mas é seguro dizer que Batman elevou o jogo a outro patamar. Como previu o astro Sylvester Stallone após o lançamento deste filme, o cinema comercial estava prestes a mudar, atores davam lugar a marcas, efeitos e personagens.


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