Animação cyberpunk foi um divisor de águas para a indústria dos animes no cinema e para o próprio gênero de futuro distópico

“Em um futuro próximo conglomerados chegam às estrelas…”

Em 1995, o cenário de animes, mais especificamente do gênero de ficção científica, sofreu uma mudança irreversível, esta representada no lançamento de dois produtos. O primeiro foi Neon Genesis Evangelion, um anime do gênero mecha (aqueles que envolvem histórias com robôs gigantes geralmente comandados por humanos) que trazia uma combinação estonteante de trilha sonora impecável, design de personagens marcantes pelas mãos de Yoshiyuki Sadamoto (que foi responsável pelo mangá) e questionamentos filosóficos acerca da alma humana.

O segundo foi Ghost in the Shell, conhecido no Brasil como O Fantasma do Futuro, a adaptação audiovisual do mangá de 1989 assinada por Mamoru Oshii. Diferente de seu colega citado acima, GITS (abreviação para Ghost in the Shell) foi um projeto que já possuía um material fonte e que, desde sua concepção, foi pensado para ser um filme e não uma obra episódica. Dessa forma sua estrutura narrativa teve que achar uma maneira de desenvolver uma tonelada de temas reflexivos, personagens e estabelecer aquele contexto futurístico em pouco mais de uma hora.



Questionamentos existenciais eternizaram o filme

A premissa do enredo de GITS foca na investigação conduzida pela major Motoko Kusanagi, membro do Setor 9 (divisão do governo japonês voltada para ações de contraterrorismo cibernético), em identificar e deter o hacker conhecido como “Mestre dos Fantoches”, que vem roubando importantes segredos de estado através da invasão digital. 

Imediatamente a inspiração Tech Noir invoca uma comparação com Blade Runner (1982), não só pela estética de um futuro pessimista, mas pela forma como a investigação central da trama é conduzida. Ela move a trama mas não necessariamente está o tempo todo recebendo a atenção principal, há momentos específicos dedicados unicamente à protagonista Motoko Kusanagi.

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Motoko, apesar de mecanizada, possui questionamentos muito humanos

A própria Motoko, por sua vez, não é uma humana, mas sim um androide 100% produzido em laboratório e com toda a sequência de créditos de abertura destinada a mostrar sua montagem – da projeção neural até quando seu corpo está finalizado. Esse momento também funciona para demonstrar visualmente que ela não é humana, apesar do comportamento por vezes enganar, e que seus questionamentos sobre a própria existência são muito bem fundamentados.

Em entrevista concedida ao TIFF (o Festival de Toronto) vinte anos depois do lançamento, Oshii disse que simplificar o material fonte foi algo bastante difícil de realizar. “Eu já tinha lido antes dele (produtor da Bandai) ter me dado. Era interessante mas era um mangá muito difícil. Então depois de recebê-lo precisei reler mais algumas vezes. É um mangá muito complicado. Meu trabalho como diretor era transformar esse livro complicado em um filme simples”.



Ainda assim, a ambientação futurista e tecnológica presente em GITS combinou perfeitamente com a opinião que Oshii já havia demonstrado anteriormente sobre o lado benéfico dos avanços tecnológicos. No decorrer do filme é levantado diversas vezes o questionamento de que mesmo possuindo um alto preço a pagar (até mesmo porque a privacidade individual não mais existia), o aprimoramento orgânico por meio de implantes havia gerado uma evolução.

Tão importante para a obra quanto a sua história, a trilha sonora composta por Kenji Kawai tornou-se memorável pelas batidas de tambor combinadas a poderosos vocais de orquestra, trazendo assim uma sensação diferente para a história da mesma forma que Vangelis fez por Blade Runner em 1982.

A evolução tecnológica tem seu preço

Durante uma entrevista ao canal de televisão francês Toco Toco, Kenji Kawai explicou o processo criativo para o desenvolvimento da música de GITS. “Para Ghost in the Shell, a princípio, o diretor Mamoru Oshii disse que queria baterias. Porém, eu descobri que era muito difícil para mim retratar emoções apenas com baterias. Eu então me perguntei se não seria melhor adicionar vozes. Tinha essa cantora performando “Min’yo” (música folclórica japonesa) e depois de ouvir sua voz achei que poderíamos tentar algo interessante…”

Financeiramente o filme teve um desempenho positivo, tendo custado 600 milhões de ienes (algo equivalente a US$ 10 milhões) e gerado de lucro US$ 43 milhões. Criticamente ele recebeu grandes elogios de veículos ocidentais, que o colocaram como uma das grandes animações japonesas de todos os tempos – ao lado de Akira e as várias produções dos estúdios Ghibli.



A obra também gerou uma versão live action em 2017 comandada por Rupert Sanders e protagonizada por Scarlett Johansson, intitulada no Brasil A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell. Na indústria de animes ele teve uma sequência em 2004 (novamente dirigida por Oshii), uma versão remasterizada do filme original em 2008 (Ghost in the Shell 2.0), duas sequências em formato de anime episódico chamada Ghost in the Shell: Stand Alone Complex e Solid State Society, além de uma prequel mostrando a origem do Setor 9 intitulada Ghost in the Shell Arise.

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