A volta de Sam Raimi aos filmes com super-heróis em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura vem junto da comemoração dos 20 anos de seu primeiro filme no gênero, Homem-Aranha.


 Sucesso inquestionável, tanto de crítica quanto de público, a história do adolescente excluído que vê sua vida mudar ao ser picado por uma aranha radioativa fez com competência ímpar o trabalho de adaptação para os cinemas e soube também dar a personalidade do diretor para o projeto.

E isso é algo incrível, porque a escolha de Sam Raimi para a direção aparentemente não tinha muito a ver com o herói em questão. Famoso pelos filmes de terror, o diretor conseguiu superar as expectativas ao dar um equilíbrio perfeito entre aventura, humor e o terror da ficção científica em um filme para todas as idades.

Essa questão do horror da ficção, inclusive, dialoga diretamente com as origens do próprio Homem-Aranha nos quadrinhos. Criado nos anos 60, na famosa Era de Prata das HQs, o herói veio em uma leva de personagens cujas origens eram derivadas dos grandes sucessos da ficção. E como na época a radiação era o grande mistério tecnológico, a aranha irradiada picando o Peter Parker já nasceu clássica.


Paralelamente à origem clássica das HQs, Sam Raimi também se inspirou fortemente no Universo Ultimate, que revigorou as histórias de origem dos principais ícones da Marvel no início dos anos 2000, sendo um universo alternativo, cujo principal representante era justamente o Homem-Aranha. Dessa forma, a equipe criativa do longa soube misturar o melhor dos dois mundos, juntando elementos clássicos do 616 e do Ultimate, às ideias mais estranhas de Raimi, como a controversa Teia Orgânica.

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Tudo isso somado à inexperiência de Tobey Maguire, que apesar de não ser um expoente da atuação, soube trazer a inocência e arrogância necessárias para um bom Peter Parker, que servia justamente como contraponto a um dos melhores vilões de todos: o Duende Verde, interpretado magistralmente por Willem Dafoe.

É maravilhoso ver os dois em cena, porque enquanto um é inocente e tende a acreditar no melhor das pessoas, o outro já foi corrompido por sua própria ganância – e pela Globulina Verde – e acredita que todos também são assim, que só precisam de um incentivo para demonstrar suas verdadeiras faces corruptas e gananciosas.

O Duende é um vilão tão arrogante, tão convencido de sua crença torpe, que ele negocia diretamente com o herói em duas cenas do filme, mas nada demonstra melhor isso do que a cena em que o povo de Nova York começa a xingar e jogar coisas no vilão momentos após ele fazer um discurso sobre o povo odiar o herói.


E por mais diferente que seja a roupa do vilão de sua versão nos quadrinhos, essa armadura funciona nas telonas. Os olhos amarelos do capacete passavam medo e abriam para revelar as expressões faciais do ator, que empregava um olhar psicótico fantástico para causar medo no público. A presença de Dafoe nesse filme, inclusive, permite que cenas aparentemente ridículas de quadrinhos funcionassem apenas por ser ele fazendo. Quer um exemplo? Se fosse QUALQUER outro ator se passando por uma velhinha em perigo dentro de um prédio em chamas enquanto usava uma armadura, ninguém levaria a sério. Seria um momento muito criticado por aí e vida que segue. Mas a presença e loucura  que a atuação de Dafoe passa é tão convincente, é tão perfeita, que até esse momento caricato pra caramba fica aceitável.

Já o núcleo do protagonista consegue misturar os dramas adolescentes com dramas adultos, fazendo do Homem-Aranha um herói trágico. Esqueça aquele negócio do herói que gosta de ser herói. Peter tem uma dádiva, mas também tem uma maldição.

Os momentos em que o garoto tenta usar suas habilidades em prol de seu bem próprio ou diversão, coisas horríveis acontecem, porque ao negar suas obrigações, seu amadurecimento, ele se aproxima cada vez mais de um vilão do que de um herói.

Tem quem não curta esse moralismo pesado, característica tão marcante da origem do personagem, mas não tinha como ser diferente se tratando de um herói que é sinônimo de responsabilidade.


O garoto percebe que precisa abrir mão de suas molecagens para evitar que outras pessoas sofram por sua irresponsabilidade, assim como ele sofreu ao perder o tio. E não há nada mais heroico do que abrir mão de sua própria diversão pelo bem maior. Afinal, parte do amadurecimento na vida é escolher que tipo de pessoa você quer ser. Peter escolhe o caminho mais difícil, mas também o mais justo. Não é fácil, não é agradável, mas faz parte. Não dá para fazer tudo que se quer o tempo todo.

Na parte técnica e narrativa, o filme trouxe uma trama clássica da jornada do herói e soube usar os efeitos especiais com perfeição. Isso passou duas mensagens: o público quer ver mais desses heróis humanizados, identificáveis, e a inovação visual é mais do que bem-vinda.

Essa mensagem começou a ser passada com o primeiro X-Men, mas foi consolidada mesmo com o fenômeno que Homem-Aranha se tornou. O sucesso que o longa fez marcou gerações e influenciou nas escolhas de Marvel e DC na década de 2000, apostando mais em heróis humanos para as telonas.

Assim, não é absurdo dizer que “Homem-Aranha” andou para que a indústria atual, marcada pelas superproduções baseadas em quadrinhos, pudesse correr pelas salas de cinema de todo mundo. A ideia de ver mitos das HQs ganhando as telonas com valorização de seus protagonistas e efeitos especiais fantásticos deixou de ser algo bobo voltado para crianças e acabou virando um desejo dos executivos, que viram o excelente retorno da Sony e passaram a investir mais no gênero.

Homem-Aranha está disponível na Netflix, no HBO Max e no Globoplay.


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