Ilda Santiago defende festivais voltados ao PÚBLICO e diz que cinema precisa apostar em novas histórias

Diretora do Festival do Rio falou sobre a diversidade da programação, a circulação do cinema brasileiro e o desafio de atrair espectadores às salas

Para Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio, um festival de cinema precisa olhar para além de seus próprios curadores. A programação deve conversar com diferentes públicos, abrir espaço para filmes de vários países e ajudar a aproximar o público brasileiro do cinema nacional.

Em entrevista ao CinePOP, ela também falou sobre o desafio de convencer as pessoas a sair de casa para assistir a histórias novas, em um cenário no qual franquias conhecidas costumam oferecer uma escolha mais segura.

Ao explicar o que diferencia o evento, Ilda destacou a relação com a cidade e o espaço reservado ao cinema brasileiro. A Premiere Brasil, segundo ela, faz parte dessa proposta desde o início: colocar produções nacionais em destaque, com direito a tapete vermelho e sessões de gala ao lado de grandes títulos internacionais.

“O grande diferencial é que acontece no Rio de Janeiro, que é uma cidade realmente maravilhosa e tem uma atração bastante grande. Mas o Festival do Rio também é feito pensando na cidade. A Premiere Brasil é um motivo de orgulho para nós, um lugar em que fazemos um tapete vermelho como deve ser para o cinema brasileiro, com uma janela muito grande para tudo o que está sendo produzido no país. Isso está no pensamento do festival desde o início: ter o cinema brasileiro em um tapete vermelho dentro de um festival internacional.”

Essa atenção à diversidade também aparece na escolha dos filmes. Ilda diz que não quer uma programação restrita ao público cinéfilo, mas voltada a todos os que gostam de cinema, incluindo quem procura animações, terror, filmes infantis, documentários, comédias e produções mais reflexivas.

“Eu quero ter uma programação que atenda aos amantes do cinema, que são muito mais numerosos. Quero ter jovens, gente que gosta de animação, de terror, filmes infantis, documentários, os filmes que chamamos de ‘mais de cabeça’ e também aqueles que todo mundo está esperando. Quero ter muito filme latino. Ainda temos uma dificuldade grande, como América Latina, para fazer nossos filmes circularem, apesar de nossas histórias serem muito parecidas.”

Para a diretora, essa variedade é essencial também quando o assunto é o próprio cinema brasileiro. Ela ressalta que não existe um único tipo de filme nacional e que a resistência de parte do público pode vir, em alguns casos, da falta de contato com a variedade de gêneros e histórias produzidos no país.

“Quando alguém diz ‘eu não vou ver um filme brasileiro’, eu digo: ‘Peraí, que filme brasileiro você não vai ver?’. Posso querer assistir a uma animação, a um terror, a um drama ou a uma comédia. São coisas totalmente diferentes, e tudo isso é cinema brasileiro. Acho que o Festival do Rio tenta promover e aprofundar a relação dos públicos brasileiros com o cinema. Os públicos são muitos e não gostam das mesmas coisas, assim como o cinema brasileiro não é um só.”

Renato Marafon e Ilda Santiago
Renato Marafon e Ilda Santiago

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O desafio de levar o público de volta às salas

Questionada sobre a preferência por franquias, refilmagens e histórias já conhecidas, Ilda avaliou que o mercado ainda tenta entender o que faz as pessoas escolherem uma sessão de cinema em vez de assistir a filmes e séries em casa. Na opinião dela, o público precisa sentir que o ingresso e o tempo dedicados à experiência valerão a pena.

“Depois do fenômeno da pandemia, o mercado e a indústria como um todo estão procurando entender o que faz o público sair de casa. O que existe de especial em um filme capaz de tirar você de dentro de casa? O público quer sair para alguma coisa em que tenha confiança, para sentir que o dinheiro e o tempo serão bem gastos. Hoje, ele tem acesso a um volume enorme de filmes e séries em casa. Então, para sair, precisa ser algo especial pelo que vai ver ou pela experiência que vai ter.”

As franquias e os blockbusters, reconhece a diretora, oferecem uma espécie de garantia para parte dos espectadores. Mas, para ela, essa segurança não pode ser a única estratégia da indústria. Apostar em novas histórias e formatos também é necessário para manter o cinema vivo a longo prazo.

“As franquias e os blockbusters são, para esse público, uma garantia. Pode até ser que a pessoa não goste do filme, mas existe essa garantia. Só que as franquias não podem ser as únicas. Todo mundo precisa testar e arriscar coisas. Se você não se arrisca, não aumenta a capacidade de o seu negócio durar. O que garante que esse negócio vai existir daqui a dez ou vinte anos? O cinema vai existir, mas não são apenas as franquias que vão garantir isso.”

Nesse cenário, Ilda vê os festivais como uma oportunidade para apresentar obras que talvez não fossem a primeira escolha do espectador. O contato com um filme diferente pode despertar curiosidade para outras produções e ajudar o público a se aventurar por cinematografias que conhece menos.

“Os festivais precisam pensar no público. Eu penso no filme, mas também em como o público vai ter acesso a produções que provavelmente não seriam sua primeira escolha. Depois que a pessoa vê um filme de um país diferente e gosta, quando começar a olhar as opções daqui a três meses, pode pensar: ‘Eu já vi um filme desse país e foi legal. Vou conferir esse’. É um pouco incitar o público a essa aventura. O público é muito curioso e muito mais corajoso nas escolhas do que aquilo que às vezes é apresentado para ele.”

Ilda também contou que a equipe do festival pensa em como comunicar o valor de filmes menos conhecidos e aproximá-los dos espectadores. A diretora citou sessões com entrada gratuita como uma das formas de ampliar o acesso, especialmente para produções que poderiam atrair menos público por serem pouco familiares.

“Às vezes temos um filme maravilhoso, de um país desconhecido, e sabemos que ele é ótimo. A pergunta é: como a gente vende isso? Quais instrumentos temos para comunicar a qualidade desse filme? Temos sistemas de gratuidade e, quando sabemos que algumas sessões podem ficar mais vazias porque os filmes são menos conhecidos, oferecemos ingressos. As pessoas querem ir, as pessoas vão. Em geral, são jovens.”

Para ela, atrair a juventude depende de oferecer mais do que a exibição de um filme. O encontro com amigos, a conversa depois da sessão e toda a experiência de uma saída também contam na construção do hábito de frequentar o cinema.

“O jovem não quer só ver o filme. Quer sair com os amigos, se encontrar, namorar, ter uma experiência completa. Eu quero sair, ir ao cinema, depois jantar e conversar sobre o filme. Os jovens são grandes aliados para manter o cinema vivo. A gente precisa criar hábitos e dar acesso ao cinema.”

Festival como ponte entre filmes e distribuição

Além de levar espectadores às salas, Ilda considera importante que os filmes encontrem caminhos para chegar a mais pessoas depois do festival. Ela diz conversar diretamente com distribuidoras e defender produções que acredita que merecem alcançar o público, mesmo quando não foram feitas para atrair grandes bilheterias.

“Para mim, o melhor festival que posso fazer é aquele em que todos os filmes encontram distribuição. O Brasil é enorme e precisamos ganhar público. Se o público é capaz de ditar a regra, vai dizer ao distribuidor: ‘Eu quero ver esse filme’. E isso é maravilhoso. Eu falo com as distribuidoras: ‘Você já viu esse filme? Ele é ótimo’. Nem todo filme é feito para fazer um milhão de espectadores. Tem filme para fazer 50 mil, e os investimentos também são diferentes.”

A resposta do público durante o evento pode ajudar os distribuidores a entender o interesse por cada produção. Para Ilda, essa troca é uma das funções importantes do Festival do Rio: criar um espaço em que o mercado possa observar a reação dos espectadores e descobrir o que eles querem ver.

“Cada vez mais, os distribuidores vêm ao Festival do Rio para entender a reação do público a um filme ou a outro. É isso que faz o festival funcionar: a capacidade de falar para o mercado e mostrar o que o público quer ver.” 

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