Na última quinta-feira, 20 de agosto, foi dado o start oficial na programação de um dos mais queridos festivais de cinema de nosso país, o Kinoforum. Totalmente ligado ao universo dos curtas-metragens, o evento paulistano, conhecido pela fantástica curadoria, vai ocupar, ao longo de pouco mais de uma semana, diversos espaços culturais pela cidade de São Paulo.
Neste ano, esse que vos escreve foi convidado para ser júri de um dos prêmios do evento, o Prêmio Revelação, e ainda participar de uma mesa de debates sobre crítica de curtas-metragens. Óbvio que aceitei. Como sou jurado, não posso escrever sobre os filmes que estão entre os selecionáveis ao Prêmio Revelação. Em relação aos demais filmes, posso escrever à vontade.

Assim, peguei um avião no aeroporto Santos Dumont, em um dia lindo na minha cidade maravilhosa, e parti para uma viagem curtinha até o aeroporto de congonhas, em São Paulo. Chegando lá, fui levado até o hotel, localizado em uma região fantástica da cidade. Depois, almocei com dois amigos e profissionais que adoro e parti para a Cinemateca Brasileira, um lugar mágico que todo mundo que ama cinema deve um dia conhecer. Me credenciei e fui correndo assistir meu primeiro bloco de filmes, na sala Grande Otelo.

Foram quatro curtas-metragens que conversavam sobre questões que circularam a memória e o espaço de forma bem intimista. Todos inseridos na Mostra Brasil 1 – Álbuns Incandescentes. São eles: O Mapa em que estão meus pés, de Luciano Pedro Jr. ; Onde eu Começo?, de Mayana Neiva; Vivo o Tempo, de Antônio Fargoni; e Kakxop Pahok: As Crianças Cegas, de Cassiano Maxakali e Charles Bicalho.
Em relação ao primeiro, o encantador curta-metragem alagoano O Mapa em que estão meus Pés, é uma obra que estica a corda das possibilidades ao utilizar, com muita delicadeza e eficiência, a linguagem cinematográfica, transformando detalhes de uma saudade em fortes significados que vão de encontro a uma história familiar do diretor desta obra, Luciano Pedro Jr. Leia a crítica completa deste filme aqui.

Já o segundo, Onde eu Começo?, dirigido pela conhecida artista paraibana Mayana Neiva, chegamos até uma jornada intimista da própria artista e seus aprendizados, tendo como referência o amor de alguns de seus parentes. Ao longo da narrativa, há excessos de sentimentalismo, algo que compromete a espontaneidade da obra. A fórmula de misturar desabafos pessoais com memórias não encontra um norte e se torna pouco envolvente, e, por vezes, redundante. Foi o filme que menos curti. Faz parte.
Em Vivo o Tempo, filme oriundo de São Carlos, no interior de São Paulo, o diretor busca um desafio: fazer o lado intimista familiar, personificado por duas simpáticas senhoras, dialogar com as transformações que insistiam em não parar ao redor de uma região. Não é fácil transformar o cotidiano que percorre o tempo em uma sólida narrativa, mas os caminhos encontrados por Antônio Fargoni são suficientes para preencher a tela com alguns experimentos interessantes. Vale a menção também a elegante trilha sonora, que inclui, inclusive, um chorinho em flauta doce de um dos maiores flautistas brasileiros, o itaocarense Patápio Silva.

Por último, fechando esse set, chegamos em Kakxop Pahok: As Crianças Cegas, um filme mineiro que conta uma lenda da tribo indígena Maxakali. No passado, após alguns homens da aldeia saírem em expedições em busca de comida e explorar a região, suas respectivas mulheres trocam de filhos entre elas mesmas para não ficarem sozinhas e sem marido. Quando os homens retornam, depois de muito tempo, um conflito visceral se estabelece. Bem didática e trazendo uma história de violência, a narrativa conta ainda com o próprio idioma da tribo indígena, dublado por integrantes da comunidade, além de ilustrações feitas por eles mesmos. Vale pelo importante registro das memórias indígenas com essa rica contribuição dos próprios indígenas à obra.
O Kinoforum 2026 vai até o dia 30 de agosto com uma bela programação, totalmente gratuita. Se você quer conhecer um pouco mais do cinema brasileiro, este evento é imperdível!


