Sábado, dia 22 de agosto, São Paulo. Durante minha programação no Kinoforum deste ano, uma das ações pelas quais eu estava mais ansioso era um brunch para o qual fui convidado, onde aconteceria – e eu não sabia como seria – uma dinâmica super interessante, em que cada convidado recebia a chance de aprender e conversar sobre temas importantes da cadeia audiovisual.
Com essa ação já marcada com destaque em minha agenda, acordei ansioso, tomei um rápido café da manhã e parti para a Cinemateca Brasileira, lugar desse encontro. Assim que cheguei, ao dar meu nome em uma lista, fui informado de que estaria na mesa 8 e que deveria me encaminhar até lá, onde conheceria outras pessoas selecionadas para o mesmo lugar.

Assim, ao longo de algumas horas e de muitos cafezinhos, em uma experiência realmente marcante, debati com meu novos amigos: um fotógrafo, um curador, um produtor, uma crítica de cinema e um profissional da pós-produção sobre o tema ‘inspirações e processos criativos’. Aprendi bastante com cada um desses profissionais durante essa dinâmica enriquecedora.
De lá, parti para almoçar no Shopping Center 3, na Avenida Paulista, e depois corri para o CineSesc pois teria uma sessão do Kinoforum que estava ansioso para conferir, Mostra Brasil 12 – Fantasmas In-Pertinentes com os filmes: Boiúna, de Adriana de Faria; Brasa, de Diane Maia; Mira, de Daniella Saba; Party Princess, de Daniel Barosa; e DIU, de Camila Schincaglia.

Brasa eu já tinha visto, um filmão. Com um tema central, importante e atual, colocado para debate e desenvolvido com sensibilidade ao longo de sua breve, porém bem distribuída duração, esse curta-metragem nos leva até um recorte profundo sobre uma questão alarmante que choca pelas estatísticas em nosso país: a gravidez na adolescência.
Com ótimas artistas em cena – Bárbara Colen e Mel Faria em destaque – que transmitem toda a aflição e tensão dos conflitos que se seguem, o projeto dirigido por Diane Maia, com roteiro assinado pela mesma e Ana Alkimin, teve sua primeira exibição no Festival do Rio 2025, onde integrou a potente lista da Première Brasil.
Party Princess é outro ótimo filme exibido, aborda os trancos e barrancos enfrentados por uma artista brasileira imigrante (Bia Gallo) em busca de sucesso nos Estados Unidos. Em mais um dia corrido de sua vida, ela se depara com uma situação inusitada: encontra uma garotinha, também vestida de princesa, perdida, e precisa encontrar os parentes dela ao mesmo tempo que precisa lidar com importantes compromissos.
Crítica | ‘Party Princess’ – A história de uma princesa que não é da Disney [Kinoforum 2026]
Essa co-produção Brasil, França e Estados Unidos, escrito e dirigido por Daniel Barosa, explora as oportunidades, as escolhas e os contrapontos entre sonho e desilusão, em que um acontecimento vira a chave para abrir uma porta até então inacessível, podendo se tornar um estopim para revelações. A construção desse universo esbarra no encantador, provocando uma atmosfera que explora a angústia de forma mais amena e que chega com força na saudade.

Mantendo o nível altíssimo dessa sessão, e dando um elegante e inteligente tapa na cara do machismo, que deixa suas marcas numa mesmice de acontecimentos, puxando o foco para uma personagem feminina que tem muito a dizer, o curta-metragem DIU usa do desconforto para chamar a atenção para situações que estão enraizadas em nossa sociedade.
Crítica | ‘DIU’ – Quando o desconforto vai bem além do prato principal [Kinoforum 2026]
O aclamado Boiuna, que envolve lendas e relações familiares de forma poética e com ótima condução, e Mira, sobre uma jovem que caminha por descobertas imersa em sua paixão por caminhões, completaram esse grupo de filmes.
Após esse set, um dos mais impactantes até agora, peguei rapidamente um carro de aplicativo e literalmente andei em uma linha reta, ladeira abaixo, rumo ao MIS (Museu da Imagem e do Som), pois, em poucos minutos, começaria outra sessão do Kinoforum que eu queria muito conferir: a Mostra Brasil 10 – Flor de Clitória.

Cheguei em cima da hora, ouvindo ainda as últimas palavras dos realizadores e realizadoras na porta de entrada da confortável sala. Sentei na primeira cadeira que vi e fiquei ali cerca de uma hora e quinze conferindo mais seis filmes: Migué, de Rodrigo Ribeyro; Os Nomes de Margarida, de Davi Mello e Deborah Perrotta; Quase à Meia-Voz, de Maria Tamires e Victor Emanuel Borges; Comunhão, de Pétala Lopes; Abocanhada, de Gabriella Carli e Luana Sevarolli; e Pique-Pega, de Mia Lima Rocha. Outra sessão maravilhosa.
Um dos destaques é Migué. Quem nunca pensou em não ir trabalhar, fugindo para outro lugar bem no meio do expediente? É exatamente por aí que começamos a conhecer a trama deste filme paulistano, dirigido por Rodrygo Ribeiro, que nos apresenta uma mulher que, já no percurso para ir ao trabalho – do qual não gosta -, resolve mudar de direção e ir para a praia, encontrando novas possibilidades de viver aquelas preciosas horas do seu tempo.
Crítica | ‘Migué’ – Uma crônica certeira e de fácil identificação [Kinoforum 2026]
O aproveitamento desse universo do migué, do ‘não se importar porque eu quero mais é ser feliz’, ganha um formato maduro e bem representativo, que foge de estereótipos e transforma uma situação em algo universal, conversando, pelas entrelinhas, sobre questões existencialistas e as trocas de perspectivas a partir de novas escolhas.

Comunhão também chama muito atenção. A obra, dirigida por Pétala Lopes, nos leva de forma leve e, por vezes bastante divertida, para a intimidade de um grupo de amigas lésbicas de longa data que viajam juntas por alguns dias, relembrando momentos marcantes que as fizeram chegar até ali. Com a câmera solta em vários pontos do lugar onde ficam hospedadas, histórias é o que não falta para esse grupo animado.

Já em Os Nomes de Margarida, outro destaque, e seguindo aquela linha de filmes que continuam muito além dos créditos finais, somos apresentados a diálogos profundos e muito contemplativos entre duas mulheres em um quarto de hotel. Esse filme conta com mais uma atuação marcante da fantástica atriz Saravy.

Depois desse dia fantástico, com várias obras que fizeram meu coração cinéfilo feliz, voltei ao hotel e fui descansar um pouco, pois a maratona do Kinoforum ainda continua até o dia 30 de agosto. Se você está em São Paulo, recomendo!

