Lembra dele? | Lançado há 20 anos, ‘Por Água Abaixo’ apresentou a Copa do Mundo para a molecada dos anos 2000

Em seus mais de 30 anos de existência, a DreamWorks Animation celebrou com a Aardman Animation uma das parcerias criativas de maior sucesso do cinema nos anos 2000. A produtora britânica fez seu nome com filmes e séries de stop-motion, marcadas pelo primor de seus bonecos de massa de modelar. Com o selo da DreamWorks, clássicos como A Fuga das Galinhas (2000) e Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais (2005) tomaram os cinemas do mundo e viraram sucessos instantâneos de público e crítica.

No entanto, tem um fruto desta parceria que acabou não se destacando tanto quanto os outros, apesar de ser um capítulo histórico para a Aardman: Por Água Abaixo. Lançado em 2006, o filme surfou na onda da Copa do Mundo daquele ano para atrair crianças e adultos em um trama inspirada no clássico filme de guerra britânico Uma Aventura na África (1951), trocando o contexto da Primeira Guerra Mundial pelo Mundial de 2006.

O clímax do filme acontece durante a final da Copa do Mundo, entre Inglaterra e Alemanha, na cidade dos ratos. Foto/ Reprodução.

E mesmo agora, 20 anos depois do lançamento, Por Água Abaixo segue como uma animação muito subestimada do início dos anos 2000, que estava realmente à frente de seu tempo. Isso porque o filme deixou de lado aquela pegada mais “fantasia” dos longas da Aardman e adotou uma proposta mais irônica e satírica, que havia consagrado a DreamWorks anos antes com Shrek. Ainda assim, essa aventura pelo mundo escondido nos esgotos conseguiu trazer uma breve, mas divertida reflexão sobre papel social e identidade.

A trama acompanha Roddy, um ratinho doméstico que tem uma vida de mordomias. Porém, apesar de ter uma existência sem dificuldades, ele é solitário e não sabe exatamente quem é, já que nunca teve uma vida fora da casa dos donos. Certo dia, os donos saem de férias e um rato de esgoto chega ao lugar pela privada, tomando conta da casa. De saco cheio da folga do invasor, Roddy tenta enganá-lo para mandá-lo de volta para o esgoto. Só que é o próprio protagonista que acaba indo por água abaixo.

O filme voltou à mídia recentemente porque Syd, o rato invasor, foi comparado ao influenciador esportivo Pedro Certezas nas redes sociais. Foto: Reprodução.

No esgoto, em vez de encontrar apenas um monte de dejetos, Roddy se depara com uma réplica de Londres criada por ratos, sapos e lesmas. Ele acaba cruzando caminho com a jovem Rita, que é capitã de um barco e está envolvida em um esquema para impedir as ações de Sapão, um mafioso ressentido que quer destruir a cidade dos ratos. Sem ter uma personalidade própria, já que seus dias consistem em se exercitar, ver TV e fantasiar com bonecas, Roddy assume uma identidade inspirada nos grandes heróis do cinema para ajudar a capitã, que também se compromete a ajudá-lo a voltar para casa. Para isso, a dupla tem de enfrentar sapos ninja e ratos mafiosos que trabalham para o Sapão e não têm escrúpulos.

Ao longo da trama, Roddy conhece os parentes e amigos de Rita, e descobre enfim o que é realmente fazer parte de uma família, em vez de viver aquele mundinho falso e fabricado de bicho de estimação. Eventualmente a verdade vem à tona e ele precisa revelar seu segredo para a ratinha. Só que as circunstâncias acabam sendo tão extremas que tudo dá certo. Isso porque o plano do Sapão – que era o sapo de estimação do Príncipe Charles, mas foi trocado por um camundongo – consiste em aproveitar o intervalo da final da Copa do Mundo, em que os moradores de Londres vão ao banheiro ao mesmo tempo, para explodir a barreira da cidade dos ratos e inundá-la, matando todos os seus habitantes.

‘Por Água Abaixo’ aposta em uma série de piadas satíricas em meio a uma aventura pelos esgotos. Foto: Reprodução.

Apesar de ter um elenco de dublagem afiado, o elenco original desse longa é coisa de doido. Roddy é interpretado por Hugh Jackman, o eterno Wolverine, e faz par romântico com Rita, que é vivida por Kate Winslet, a eterna Rose de Titanic. Mais do que isso, ela é capitã de um barco, então já deve dar para ter uma noção do tipo de piada que acontece na animação. O vilão, Sapão, é interpretado por Ian McKellen, que estava em alta com o Magneto e o Gandalf nos cinemas, e tinha como capangas o primo francês Le Rã (Jean Reno, o Léon de O Profissional) e Spike (Andy Serkis, o Gollum). Ou seja, era um elenco que estava muito em alta na época em que o filme saiu. É um daqueles casos de animações que valem a pena assistir tanto no original quanto dublada.

Computação jogou contra

Só que a trama sobre futebol acabou não conquistando o mercado americano, que até os dias de hoje não liga para o esporte, e as arrecadações ficaram abaixo do esperado. Infelizmente, o filme acabou tendo uma arrecadação abaixo do esperado para uma animação computadorizada, o que, de certa forma, acabou sendo positivo para os fãs da Aardman, que sempre foram fascinados pelo formato do stop-motion.

A aventura pelos esgotos de Roddy e Rita foi o primeiro filme animado por computação gráfica na história da Aardman. Foto: Reprodução.

Sim. Por mais incrível que pareça, Por Água Abaixo não é uma animação de stop-motion. Como a trama era praticamente todo ambientada nos esgotos, a equipe precisaria ter a água como um elemento presente, só que ela estragava os personagens de massa de modelar, o que deixaria a realização do filme no tradicional formato quase impossível – e muito cara. Visando viabilizar essa história, a Aardman decidiu que faria sua primeira animação com a tendência da época o 3D computadorizado. No entanto, para manter sua característica de personagens de massinha, a produtora optou por manter a estética da massa de modela, criando uma técnica que reproduz a movimentação do stop-motion.

Deu certo, porque muitos sequer sabem que esse filme é de animação 3D até hoje, mas não foi o bastante para conquistar a atenção do público na época, que acabou rendendo ao longa uma bilheteria de pouco mais de 178 milhões de dólares. Como o custo foi estimado em US$ 150 milhões, o filme mal se pagou. Para complicar ainda mais, as críticas foram mistas. Fora dos Estados Unidos, a crítica especializada elogiou mais Por Água Abaixo, ressaltando seu humor “britânico” e carisma dos personagens, enquanto a crítica americana não embarcou na onda e definiu a aventura como algo bobo e sem emoção.

Foto: Divulgação

No fim das contas, o mau desempenho do filme nas bilheterias não apenas enterrou qualquer chance de continuação da saga, como também marcou o final precoce da parceria entre a DreamWorks e a Aardman. O fracasso financeiro do filme foi usado como estopim para uma relação que já se desgastava nos bastidores. Apesar do prestígio da crítica que os filmes da produtora britânica conquistavam, o estúdio americano queria lucros astronômicos, como Shrek e Madagascar faziam nas bilheterias.

Mais do que isso, o processo de stop-motion era alvo de debate internamente na DreamWorks, que queria que a produtora adotasse o formato das animações computadorizadas, que eram mais rápidas e baratas de fazer. Por conta da questão da água, a Aardman abriu uma exceção para esse filme, só que o estúdio queria tornar isso padrão da parceria, algo inconcebível para a produtora. Como eles abririam mão de sua identidade assim? Não dava. Era impossível. Dessa forma, quando Por Água Abaixo não correspondeu, os executivos encerraram a parceria antes do previsto.

O contrato original previa cinco filmes realizados em conjunto, mas acabou sendo rescindido em 2007 com três filmes produzidos. Duas obras-primas e Por Água Abaixo, que é subestimado pra caramba por conta do público americano que não curtiu uma história que não fosse centrada em sua realidade. Fato é que essa rescisão terminou sendo boa para ambos. A DreamWorks voltou suas atenções para as animações 3D, emplacando franquias como Kung Fu Panda e Como Treinar o Seu Dragão, enquanto a Aardman recuperou sua liberdade criativa e manteve seu formato de stop-motion com massa de modelar intacto, fechando parcerias com a Sony e mais recentemente com a Netflix. Então, mesmo que por linhas tortas, o filme acabou escrevendo caminhos certos para todos os envolvidos.

Por Água Abaixo está disponível no Telecine.

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Pedro Sobreiro
Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.