Mostra especial do 27º FestCurtasBH homenageia diretora argentina-germânica Narcisa Hirsch, pioneira do cinema experimental latino-americano

Entre os dias 31 de outubro e 9 de novembro, Belo Horizonte recebe mais uma edição do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte (FestCurtasBH), um dos mais importantes eventos dedicados ao curta-metragem no país. Em sua 27ª edição, o festival reafirma seu compromisso de abrir espaço para produções contemporâneas e de revisitar, em perspectiva histórica, cineastas que marcaram a trajetória do cinema mundial.

Neste ano, a mostra especial ‘Os Gestos de Narcisa Hirsch‘ presta homenagem à cineasta argentina-germânica, reconhecida como um dos nomes fundamentais do cinema experimental latino-americano.

Todas as sessões têm entrada gratuita e 50% dos ingressos estarão disponíveis, de forma on-line, a partir de meio-dia do dia das sessões, no site da Eventim; o restante dos ingressos será distribuído presencialmente na bilheteria do Cine Humberto Mauro, meia hora antes de cada exibição, mediante a apresentação de documento com foto.

Com curadoria de Ana Júlia Silvino, Renan Eduardo e Rubens Fabricio Anzolin, e em parceria com o Instituto Cervantes, a mostra traz ao público brasileiro um recorte de 14 filmes de Hirsch, com duas obras na sessão de abertura do festival e as restantes organizadas em quatro sessões posteriores. A seleção atravessa diferentes momentos da carreira da cineasta, que viveu de 1928 a 2024, e evidencia a força e a diversidade da produção de Narcisa, marcada pelo experimentalismo, pelo diálogo entre as artes visuais e o cinema, pela investigação do corpo e pelo olhar atento às tensões políticas e sociais de sua época.

O “27º FestCurtasBH” é realizado pelo Ministério da Cultura, Governo de Minas Gerais, Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, Prefeitura de Belo Horizonte e Fundação Clóvis Salgado. As atividades da Fundação Clóvis Salgado têm a Cemig como mantenedora, Patrocínio Master do Instituto Cultural Vale e Grupo Fredizak, Patrocínio Prime do Instituto Unimed-BH e da ArcelorMittal, Patrocínio da Vivo, Apoio da MGS e correalização da APPA – Cultura & Patrimônio.

O Palácio das Artes integra o Circuito Liberdade, que reúne 35 equipamentos com as mais variadas formas de manifestação de arte e cultura em transversalidade com o turismo. A ação é viabilizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Vale-Cultura. Governo do Brasil, do lado do povo brasileiro.

Uma obra marcada pelo gesto experimental — Narcisa Hirsch nasceu em Berlim, na Alemanha, em 1928. Antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, ela e a mãe foram visitar a avó, na Argentina, mas a estadia tornou-se muito mais longa do que o planejado quando a guerra começou, e elas migraram oficialmente para a América Latina. Hirsch foi figura central na cena de vanguarda que se desenvolveu em Buenos Aires a partir dos anos 1960 e, ao longo de sua trajetória, explorou temas como o corpo feminino, a sexualidade, a memória e a geografia. Com trabalhos feitos principalmente em Super 8 e 16mm, sua obra reflete influências da pintura, da música e da performance, resultando em filmes que exploram diversas possibilidades da linguagem cinematográfica.

A sessão de abertura, na sexta-feira (31/10), apresenta os “Diários Patagônicos” (1970-1972), nos quais a cineasta articula imagens de paisagens desérticas com rostos, corpos e sons, criando aquilo que ela mesma chamava de “delírios fílmicos”.

O primeiro programa da mostra, às 17h da quarta-feira (5/11), reúne filmes que destacam a relação de Hirsch com figuras femininas e com a crítica à violência patriarcal, como “Canciones Napolitanas” (1971), “Mujeres” (1979) e “Seguro Que Bach Cerraba La Puerta Cuando Queria Trabajar” (1979).

Já na quinta-feira (6/11), também às 17h, a segunda sessão aposta na diversidade de durações e abordagens, incluindo obras curtas e marcantes como “Aleph” (2005), “Manzanas” (1969) e “Warnes” (1991), em diálogo com o mais longo “Rumi” (1999). Nesses filmes, Hirsch articula um olhar sobre a cidade de Buenos Aires, seus espaços e monumentos, em confronto com objetos, sons e a montagem experimental. Mais tarde, às 21h, haverá um seminário com as pesquisadoras Carla Italiano e Fernanda Pessoa, mediado pelos curadores, após a exibição dos filmes “Come out” (1974) e “Testamento y vida interior” (1976), que exploram, respectivamente, os efeitos da repetição sonora e questões relacionadas ao conceito de autoria.

Por fim, a última exibição da mostra, às 18h30 do sábado (8/11), apresenta diálogos com o conceito do “outro”, em filmes como “Retrato de una artista como ser humano” (1973), “Ama-Zona” (1983) e “Rafael, 1975” (1975), nos quais a diretora experimenta com o retrato de si, o mito grego e a dedicatória pessoal.

“É partindo desta pequena amostragem — substancial se pensarmos no contexto desses filmes diante do público brasileiro — mas ainda enxuta diante do universo homérico de produções da diretora, que buscamos erguer um breve imaginário de um dos mais instigantes talentos do cinema latino-americano e mundial”, explica o curador Rubens Fabricio Anzolin.

Ana Siqueira, Coordenadora de Programação e Curadoria do FestCurtasBH, ressalta que a mostra dá continuidade ao caminho trilhado pelo festival.

“A mostra se inscreve no percurso que temos construído nos últimos anos com presença expressiva de cineastas experimentais latino-americanas, como a mexicana Azucena Losana, em 2024, e as mais de 20 artistas exibidas na mostra programada pelas curadoras peruanas Mónica Delgado e Ivonne Sheen, em 2023. O trabalho da própria Narcisa Hirsch marcou presença no 19º FestCurtasBH, em 2017, com a exibição do filme ‘Ama-Zona’ a partir da curadoria do poeta e professor cubano Jorge Yglesias”, relembra.

Para a edição de 2025, Ana relata que a equipe do festival já tinha a obra de Narcisa Hirsch em vista quando descobriu o trabalho que a Revista Descompasso — veículo independente de escrita crítica sobre cinema, música e outras manifestações artísticas — estava realizando em torno de um dossiê sobre a cineasta argentina. Isso levou ao convite para que o trio de editores da publicação assumissem a curadoria da mostra.

A curadora Ana Júlia Silvino explica que a ideia do dossiê surgiu a partir do filme “Come out”, que será debatido no seminário.

“Eu havia começado a escrever um texto sobre esse filme durante uma oficina ministrada por Lucía Salas, crítica de cinema argentina. Quis então retomar esse texto e propus publicá-lo na revista. Renan e Rubens, também encantados pelos filmes da Narcisa, sugeriram que ampliássemos a proposta: em vez de um texto isolado, criaríamos um dossiê coletivo, convidando outros colaboradores a escrever sobre diferentes aspectos da obra dela. A ideia cresceu naturalmente, e o resultado foi um conjunto vivo de leituras e interpretações”, conta.

Naquele momento, a própria Narcisa ainda estava viva, e revisitar sua obra dessa maneira parecia um gesto especialmente bonito, na visão dos curadores.

“Pouco depois, quando começamos a estudar a colaboração com o FestCurtasBH, recebemos a notícia de sua morte. O dossiê, que já era uma celebração, ganhou então outra dimensão, tornou-se também uma homenagem a sua vida. A parceria com o festival foi, para nós, a realização de um sonho: conseguimos unir os textos a uma mostra dedicada a ela, também com projeções de cópias cedidas pela Filmoteca Narcisa Hirsch [associação gerida pela família da cineasta e dedicada à preservação e promoção do legado artístico dela]. Estamos muito ansiosos para ver tudo isso tomar forma”, adianta Ana Júlia.

Além das exibições, o catálogo do 27º FestCurtasBH irá trazer um conjunto de textos inéditos dedicados à obra de Narcisa Hirsch, assinados por editores e colaboradores da Revista Descompasso. Somam-se, ainda, textos do curador e historiador de cinema Federico Windhausen, do crítico e realizador Pablo Marín e da cineasta Fernanda Pessoa. São, ao todo, 13 artigos que contribuem para a fortuna crítica em torno do trabalho da cineasta.

CINE HUMBERTO MAURO – Um dos mais tradicionais cinemas de Belo Horizonte, foi inaugurado em 1978. Seu nome homenageia um dos pioneiros do cinema brasileiro, o mineiro Humberto Mauro (1897-1983), grande realizador cinematográfico. Com 129 lugares, possui equipamentos de som Dolby Digital e para exibição de filmes em 3D e 4K. Nestes mais de 45 anos de existência, a Fundação Clóvis Salgado tem investido na consolidação do espaço como um local de formação de novos públicos a partir de programação diversificada, bem como através da criação de mecanismos de estímulo à produção audiovisual, com a realização do tradicional FestCurtasBH – Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, e o Prêmio Estímulo ao Curta-Metragem de Baixo Orçamento. O Cine Humberto Mauro também é um importante difusor do conhecimento ao promover cursos, seminários, debates e palestras. Sessões permanentes e comentadas também têm espaço cativo a partir das mostras História Permanente do Cinema, Cinema e Psicanálise, Curta no Almoço, entre outros. Todas as atividades do Cine Humberto Mauro são gratuitas.

FUNDAÇÃO CLÓVIS SALGADO – Com a missão de fomentar a criação, formação, produção e difusão da arte e da cultura no estado, a Fundação Clóvis Salgado (FCS) é vinculada à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult). Artes visuais, cinema, dança, música erudita e popular, ópera e teatro constituem alguns dos campos onde se desenvolvem as inúmeras atividades oferecidas aos visitantes do Palácio das Artes, CâmeraSete – Casa da Fotografia de Minas Gerais – e Serraria Souza Pinto, espaços geridos pela FCS. A Instituição é responsável também pela gestão dos corpos artísticos – Cia de Dança Palácio das Artes, Coral Lírico de Minas Gerais e Orquestra Sinfônica de Minas Gerais –, do Cine Humberto Mauro, das Galerias de Arte e do Centro de Formação Artística e Tecnológica (Cefart). A Fundação Clóvis Salgado é responsável, ainda, pela gestão do Circuito Liberdade, do qual fazem parte o Palácio das Artes e a CâmeraSete. Em 2021, quando celebrou 50 anos, a FCS ampliou sua atuação em plataformas virtuais, disponibilizando sua programação para público amplo e variado. O conjunto dessas atividades fortalece seu caráter público, sendo um espaço de todos e para todas as pessoas.

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Renato Marafon
Criador do CinePOP em 1999 e apaixonado por cinema.

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