Dois adolescentes retraídos e que não possuem muita sorte com as mulheres resolvem criar a mulher perfeita (ao menos aos seus olhos) no computador (dando uma de Frankenstein) para lhes servir – como praticamente uma escrava sexual. Mas o que poderia ser uma obra machista e misógina, termina subvertendo a história graças ao diretor e roteirista John Hughes (o Midas do gênero na década), já que a mulher criada tem personalidade própria e forte, e termina fazendo da dupla seus subalternos nessa história de amadurecimento. ‘Mulher Nota Mil’ (Weird Science) completa 40 anos de estreia em 2025 – e abaixo daremos uma olhada nesse verdadeiro clássico.
Em agosto de 1985, um dos filmes mais icônicos (e polêmicos) da comédia adolescente americana estreava nos cinemas: ‘Mulher Nota Mil’ (Weird Science). Comandado por John Hughes, o mesmo diretor de clássicos como ‘Clube dos Cinco’ e ‘Curtindo a Vida Adoidado’, o filme colocava dois adolescentes desajustados no centro de uma fantasia nerd: criar a “mulher perfeita” usando um computador. Quatro décadas depois, o longa ainda gera debates sobre seu conteúdo, sua mensagem e sua viabilidade no mundo atual.

Gary Wallace (Anthony Michael Hall) e Wyatt Donnelly (Ilan Mitchell-Smith) são dois adolescentes impopulares e excluídos na escola. Sem namoradas, sem autoestima e atormentados por valentões, eles têm uma ideia inusitada inspirada em ‘Frankenstein’: usar um computador para criar a mulher ideal. Depois de uma sequência digna de ficção científica oitentista, nasce Lisa, interpretada pela então modelo Kelly LeBrock – uma das mulheres mais lindas a terem passado por Hollywood.
Lisa não é apenas bonita — ela é confiante, inteligente, sexy, assertiva e, o mais importante, dotada de poderes mágicos que transformam a vida dos rapazes. De aulas de autoconfiança a festas insanas e confrontos com motoqueiros mutantes (incluindo uma participação de Michael Berryman, de ‘Quadrilha de Sádicos’), o filme segue um ritmo alucinado de descobertas, humor pastelão e fantasia adolescente. Ah sim, e quem poderia esquecer a trilha sonora da música homônima criada pela banda Oingo Boingo, que toca até hoje. Fora isso, o filme ainda marca um dos primeiros filmes de gente como Robert Downey Jr. e o saudoso Bill Paxton.

Ao final, Gary e Wyatt descobrem que o que realmente importava não era a mulher ideal, mas a segurança para serem eles mesmos — uma moral à la John Hughes, que tenta dar um toque humano a uma premissa tão absurda quanto controversa.
John Hughes estava no auge da criatividade nos anos 80. Em um intervalo de poucos anos, escreveu e/ou dirigiu ‘Gatinhas e Gatões’ (1984), ‘Clube dos Cinco’ (1985), ‘Mulher Nota Mil’ (1985) e ‘Curtindo a Vida Adoidado’ (1986). Cada filme lidava com a juventude americana sob um ponto de vista sensível, cômico ou absurdamente irreal — e Hughes transitava com facilidade por todos esses tons.

A inspiração para ‘Mulher Nota Mil’ veio de um conto de quadrinhos publicado pela EC Comics nos anos 1950, também intitulado Weird Science, onde um cientista cria a mulher ideal. Hughes reimaginou a premissa com um toque adolescente, referenciando tanto o cinema de horror clássico, quanto os anseios dos nerds dos anos 80, mergulhados em tecnologia e ficção científica.
Na época do lançamento, a crítica foi dividida. Muitos consideraram o filme divertido e inventivo, enquanto outros o viram como uma regressão às comédias sexuais simplistas, recheadas de estereótipos e superficialidade. O crítico Roger Ebert elogiou o filme por seu humor absurdo, mas ponderou que ele “não tinha a profundidade emocional de outras obras de Hughes“. Já Pauline Kael, da The New Yorker, foi menos generosa, chamando o filme de “machista travestido de comédia adolescente”.

Do ponto de vista comercial, o filme foi moderadamente bem-sucedido: arrecadou cerca de US$ 38 milhões nas bilheterias dos EUA, com um orçamento estimado em US$ 7,5 milhões. Embora não tenha alcançado o mesmo status de bilheteria que outros títulos de Hughes, como ‘Clube dos Cinco’ ou ‘Curtindo a Vida Adoidado’, tornou-se um cult com o passar dos anos.
O sucesso tardio levou até à criação de uma série de TV homônima nos anos 90, que durou cinco temporadas, ampliando o universo da personagem Lisa para uma nova geração.

Nos anos 80, ‘Mulher Nota Mil’ funcionava como uma espécie de desejo coletivo dos adolescentes que se sentiam invisíveis. Era a fantasia da “reparação social” via tecnologia e beleza, um filme que dizia: “Se você não pode conquistar a garota dos seus sonhos, talvez um computador possa resolver isso por você”.
Contudo, o que parecia irreverente e fantasioso há 40 anos hoje é visto com outros olhos. A ideia de “criar” uma mulher perfeita, à imagem dos desejos masculinos, sem autonomia ou consentimento, levanta sérias discussões sobre objetificação, misoginia e padrões de gênero.

Lisa, apesar de forte e dominante, continua sendo uma criação artificial cujo propósito inicial é servir aos desejos dos protagonistas. Mesmo que o roteiro a apresente como uma espécie de mentora — quase uma fada madrinha sexy — a base da narrativa é construída sobre um ideal masculino de mulher, o que a torna um alvo fácil para análises feministas e críticas sociais.
No entanto, há quem veja valor no que o filme tentou ser: uma sátira absurda do imaginário masculino juvenil. Lisa, afinal, subverte a expectativa ao não ser apenas um objeto passivo. Ela confronta, ensina, desafia. É mais poderosa que os próprios garotos que a criaram. É essa ambiguidade que ainda alimenta o debate sobre o filme até hoje.

Para a pergunta:‘Mulher Nota Mil’seria feito hoje? A resposta curta é: não da mesma forma. Num mundo onde discussões sobre consentimento, representação de gênero, inclusão e equidade são centrais, um roteiro como o de ‘Mulher Nota Mil’ enfrentaria sérias resistências. Em um ambiente cultural pós-Me Too, criar uma mulher perfeita com base nos desejos de dois adolescentes brancos e heterossexuais poderia ser visto como insensível, ultrapassado ou até ofensivo.
Por outro lado, há espaço para uma releitura crítica ou um remake subversivo. Imagine um roteiro onde a criação de Lisa serve para desconstruir os próprios clichês e machismos internalizados dos protagonistas. Ou mesmo uma versão invertida, onde adolescentes criam um “homem ideal”, apenas para descobrir que a perfeição não existe — e que o verdadeiro desafio é aceitar as imperfeições próprias e alheias.

Hollywood já flertou com essa ideia. Em 2013, surgiram rumores de um remake com produção da Universal e roteiro de Michael Bacall (‘Anjos da Lei’), mas o projeto foi engavetado — provavelmente pela complexidade de adaptar uma premissa tão datada ao mundo contemporâneo sem tropeçar em polêmicas.
‘Mulher Nota Mil’ é, ao mesmo tempo, um produto de sua época e uma cápsula das fantasias e inseguranças adolescentes dos anos 80. É uma mistura de comédia pastelão, ficção científica de garagem e conto de amadurecimento — com tudo o que isso tem de bom e de problemático.

Quarenta anos depois, ele segue relevante como objeto de estudo cultural: tanto pelo que revela sobre o imaginário masculino nerd da época, quanto pelas limitações sociais de seu roteiro. Lisa permanece como uma figura icônica da cultura pop, talvez mais interessante hoje por tudo que ela representa — e tudo que ela poderia ter sido.
Se ‘Mulher Nota Mil’ fosse criado hoje, com consciência crítica, talvez a pergunta dos novos tempos não fosse “como criar a mulher perfeita”, mas sim “por que ainda queremos moldar o outro às nossas expectativas?”


