Ferramenta narrativa do futuro sombrio constantemente aparece no gênero

Recentemente foi liberado o trailer de Mundo em Caos, nova ficção científica pós-apocalíptica estrelada por Daisy Ridley e Tom Holland que apresenta um futuro onde todas as mulheres desapareceram e que os homens são afetados por uma condição em que seus pensamentos são expostos. Por consequência essa nova configuração mundial levou a sociedade como se conhece ao fim e o protagonista vive sua vida de modo que jamais teve contato com uma mulher; isso até ele conhecer a personagem de Daisy Ridley e se ver em uma situação em que tem que protegê-la.

É bastante interessante constatar que o gênero da ficção científica está, na maioria das vezes, bastante intrínseco ao conceito de fim dos tempos ou de grande pessimismo. Dito isso porque em muitos exemplares do tipo é possível ver um cenário em que a humanidade ou foi devastada pelas suas conquistas tecnológicas / ou se encontra com uma divisão social tão profunda, em um cenário onde as coisas deram tão errado em tantos níveis, que o estrago se tornou irreversível / ou enfrenta uma invasão de seres alienígenas superiores.

A última abordagem, inclusive, foi predominante no gênero desde o final do século XIX quando foi publicado o clássico Guerra dos Mundos de H. G. Wells. A história em questão serve muito mais como um exercício de imaginação para uma época em que novas tecnologias, principalmente das máquinas movidas a carvão, estavam surgindo e o lugar do trabalhador braçal tradicional começava a ficar mais turvo nesse novo cenário.



Forças alienígenas ameaçam a humanidade em Guerra dos mundos

O que H. G. Wells faz então é tratar os invasores alienígenas infinitamente mais avançados do que a raça humana como uma representação da rápida modernização da época e como ela passa como um rolo compressor por cima de toda a sociedade. Alguns anos mais tarde, já no âmbito do cinema, o filme Metrópolis (1927) veio sugerir outro tipo de previsão para o futuro; uma que mesmo não envolvendo a extinção da humanidade traz consigo outro tipo de pessimismo.

Considerado o primeiro exemplar audiovisual do subgênero cyberpunk, o filme de Fritz Lang introduziu muitas das características que se consagraram décadas mais tarde e um importante questionamento: o desenvolvimento social está intimamente ligado ao desenvolvimento tecnológico de uma sociedade? A resposta do diretor é não! E isso é reforçado pelo cenário apresentado no decorrer do filme (que por sua vez é uma adaptação do romance homônimo da Thea von Harbou). 

Da mesma forma que a explosão de inovações geradas pela primeira Revolução Industrial do século XVIII, por exemplo, não diminuiu a diferença entre classes na sociedade europeia (pelo contrário, essa diferença foi aprofundada) em Metrópolis é apresentado um modelo social onde quem vive na superfície goza de todas as facilidades da modernidade enquanto que os que vivem no subterrâneo morrem constantemente para sustentar a superfície.

Futuro utópico de Metrópolis é sustentado às custas do sacrifícios dos mais pobres

Ao longo de todo o século XX, a ficção científica teve diversas fases e abordagens; sempre combinando com determinado momento que a sociedade atravessava. Um exemplo foi a Guerra Fria e como ela modificou profundamente o comportamento dos países em praticamente todos os níveis, inclusive no cultural. A ida de Yuri Gagarin para o espaço pela União Soviética e alguns anos mais tarde a chegada do homem à lua pelos Estados Unidos geraram uma mudança importante no “pessimismo” da ficção científica para com o futuro.



As histórias passaram então a mostrar o quão incríveis as novas tecnologias podiam ser, os contatos com seres extraterrestres não representavam mais um perigo iminente como fora no século anterior, e até mesmo o medo da extinção nuclear parecia estar suspenso. Star Trek, Contatos Imediatos de Terceiro Grau e Star Wars são exemplos de que, para a época, o futuro não precisava representar necessariamente o fim, mas sim uma série de aventuras infinitas.

A questão é que a partir do fim dos anos 70 e início dos 80 a perspectiva geral mudou. A desaceleração da economia mundial, aumento exponencial da violência nas grandes cidades, instabilidade social e muitos outros elementos contribuíram para a volta à galope do pessimismo. Blade Runner é sem dúvida quem melhor incorporou esse espírito, mas três anos antes Alien já resgatava a figura do alienígena cruel em um espaço tecnologicamente intimidador. Em 1987 veio Robocop muito mais focado em mostrar o quão intrometidas são as grandes corporações em assuntos públicos. Já por volta de 1984 Exterminador do Futuro ressuscitou de vez o medo da ascensão das máquinas e a extinção da raça humana por meio das armas atômicas em um único pacote.

A Los Angeles de Blade Runner simboliza um futuro pessimista aonde tudo deu errado

Por fim, a questão toda que permeia o gênero da ficção científica é que quando se trata do futuro há sempre uma linha de pessimismo, em alguns momentos suavizada e em outros intensificada. É intrínseco ao gênero desde suas raízes (Frankenstein em 1823, considerada a primeira obra da ficção científica, já tinha em muita baixa consideração a capacidade dos humanos de aceitar o que é diferente) e permanece até a atualidade. É fácil até mesmo de notar uma ironia nesse quadro: tais histórias apresentam cenários e personagens fantásticos para os padrões da normalidade conhecida, porém, essa terra de sonhos é sempre moldada por um pensamento realista do mundo. 

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