007 – Sem Tempo para Morrer ainda está em cartaz nos cinemas brasileiros e pelo mundo. O vigésimo quinto episódio da franquia mais duradoura da história do cinema se tornou sucesso de crítica e público, arrecadando mundialmente mais de US$650 milhões em tempos pandêmicos. Como o filme ainda está em cartaz, é esperado que supere um pouco mais essa marca. Grande parte do sucesso está no fato de que o longa marca a despedida de Daniel Craig, após cinco filmes no papel. Craig foi o sexto intérprete do espião da Rainha, James Bond, após Sean Connery, George Lazenby, Roger Moore, Timothy Dalton e Pierce Brosnan, e muitos o consideram o melhor 007 do cinema. Seja como for, sem dúvida deixará saudade.

Enquanto a produtora EON Pictures, responsável pelos filmes do agente secreto James Bond no cinema, não arruma um substituto para a próxima aventura, iremos propor uma viagem nostálgica no tempo para olhar um fato curioso no passado da franquia.

Quando as primeiras aventuras do espião 007, baseadas nos livros do autor Ian Fleming, começaram a ser adaptadas para as telonas (com as formas de Sean Connery, é claro) a cada ano do início da década de 1960, um fenômeno começou a ser construído. À altura que 007 Contra Goldfinger estreava em 1964, uma verdadeira “Bondmania” dominava o mundo. Era uma febre comparável a dos Beatles. No ano seguinte, 1965, Bond atingia o auge do sucesso financeiro com A Chantagem Atômica – foi quando produtores e estúdios perceberam que não podiam mais perder tempo e ficar longe desta onda de espionagem que arrastava multidões aos cinemas. Com o hiato de dois anos entre os filmes de 007 – o intervalo dado após A Chantagem Atômica até Com 007 Só Se Vive Duas Vezes (1967) – era a oportunidade ideal para que outros superespiões tentassem a sorte.

É justamente nesta lacuna no ano de 1966, onde recebíamos os inúmeros filmes que podem ser chamados “clones de 007” que iremos abordar nesta matéria. Confira abaixo os mais famosos.



Matt Helm

Um dos mais famosos clones de 007 a estrear nos anos 1960 foi Matt Helm – inclusive inspirando com um de seus filmes o diretor Quentin Tarantino para Era uma Vez em Hollywood (2019). Com a explosão de James Bond em seus quatro primeiros filmes, a Columbia Pictures (responsável também pelo lançamento da primeira versão de Cassino Royale na forma de uma comédia nas telonas) comprou em 1965 os direitos da adaptação dos livros criados pelo autor Donald Hamilton sobre o personagem. Matt Helm é um agente da inteligência do governo norte-americano. Para os filmes foi contratado o cantor e ator Dean Martin, membro do “clã” de Frank Sinatra chamado Rat Pack. De fato, o personagem e seus traços de James Bond tinham tudo a ver com a persona de Martin: beberrão, mulherengo e playboy. Martin inclusive arrisca algumas notas musicais e cantorias na pele do personagem.

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Ao total foram 28 livros publicados sobre Matt Helm. No cinema, apenas quatro filmes foram produzidos. O primeiro a estrear foi O Agente Secreto Matt Helm (The Silencers, 1966). O enredo é quase uma paródia dos filmes de 007, com o protagonista já começando sua primeira aventura aposentado, precisando ser chamado de volta ao campo por uma parceira para impedir que uma organização criminosa (nos moldes da SPECTRE) chamada Big O exploda uma bomba atômica em território americano dando início à Terceira Guerra Mundial. Curiosamente, no mesmo ano de 1966 era lançada a segunda aventura do agente – intitulada Matt Helm Contra o Mundo do Crime (The Murderers’ Row). Enquanto o primeiro filme era lançado em fevereiro, o segundo estreava em dezembro de 1966. Nesta segunda aventura, Matt Helm forja sua própria morte para sair em missão. Desta vez ele precisar resgatar um inventor chamado Dr. Solaris, que criou uma arma laser poderosa o suficiente para destruir todo um continente.



Em 1967 era a vez de Emboscada para Matt Helm (The Ambushers). Nesta terceira aventura, o agente precisa encontrar um traidor dentro de sua própria organização, que está sabotando o projeto norte-americano do primeiro disco voador criado no país. E finalmente, Arma Secreta Conta Matt Helm (The Wrecking Crew), que estreava em 1969. Nesta “imitação” de Goldfinger, o agente precisa parar um vilanesco Conde que roubou uma grande quantia de ouro. Para ajudar o protagonista, a agência envia uma parceira – interpretada por Sharon Tate. Este é o filme mostrado no longa de Tarantino, na cena em que Tate, vivida por Margot Robbie, vai ao cinema assistir sua própria atuação.

Na década de 1970, Matt Helm migrava para as telinhas e se tornava detetive particular ao invés de agente secreto. Personificado agora por Anthony Franciosa num seriado homônimo, o programa durou apenas uma temporada de 14 episódios em 1975. Atualmente, um projeto de levar o personagem para as telonas numa adaptação moderna vem trocando de mãos, saindo da Dreamworks para a Paramount. O projeto tem Steven Spielberg vinculado para dirigir e Bradley Cooper vinculado para estrelar – essa versão mais séria, nos moldes de Bourne e de 007 de Daniel Craig.

Derek Flint

Ao contrário de Matt Helm, que até possuía o respaldo de ser uma adaptação para o cinema de uma famosa e volumosa série de livros, o superespião Derek Flint saía do papel e ganhava as telas num esforço mais cínico. Flint é basicamente uma paródia declarada de James Bond. A ideia nasceu na 20th Century Fox, que buscava uma versão de 007 para chamar de sua. Assim nascia o agente Flint, que ganhava as formas do ator James Coburn, ator veterano da TV e cinema. Em sua estreia nas telonas no filme Flint Contra o Gênio do Mal (Our Man Flint, 1966), o agente enfrenta eco terroristas que planejam afetar o clima do planeta a menos que suas exigências sejam cumpridas.

Logo no ano seguinte, em 1967, Derek Flint (novamente vivido por Coburn) retornava para a aventura Flint: Perigo Supremo (In Like Flint) – filme que envolvia uma trama que não desceria nada redondo nestes tempos politicamente corretos que vivemos. E talvez não tenha descido nem mesmo nos anos 1960, isso explicaria o fracasso do filme e o motivo da franquia em potencial ter parado após somente dois exemplares. Veja isso, na trama de sua segunda aventura, Flint precisa impedir um grupo de feministas, que desejam derrubar a sociedade patriarcal e iniciar uma era de matriarcado no mundo – dando seu primeiro passo com a substituição do presidente americano por um ator. Já pensou? Depois disso, Flint retornaria apenas em histórias em quadrinhos. Mesmo assim, vira e mexe aparece na cultura pop, como em homenagens nos filmes de Austin Powers.

Bulldog Drummond

Criado ainda na década de 1920 por H.C. McNeile numa série de livros, e depois continuado por Gerard Fairlie, o personagem Hugh ‘Bulldog’ Drummond é um veterano da Primeira Guerra Mundial transformado em aventureiro. Embora suas adaptações para as telas sejam bem mais antigas que as de James Bond (com a primeira datando de 1922), o fato é que após a explosão de 007 na década de 1960, Bulldog voltaria a dar as caras em novas versões neste período, cujas aventuras tinham um grande “quê” do espião da Rainha. O personagem teve nada menos que 22 filmes feitos para as telonas, desde 1922 até 1951. Mas em 1967, ganhava uma produção mais moderna e arrojada (para a época), bancada pela Universal. Nesta reimaginação, o protagonista foi vivido por Richard Johnson. No filme Bonecas que Matam (Deadlier than the Male, 1967), Drummond precisa impedir uma mente criminosa que está usando belas mulheres para cometer uma série de assassinatos.



A continuação direta chegava dois anos depois em 1969, com o filme Some Girls Do. Nesta aventura, os funcionários e a empresa responsável por desenvolver a primeira linha aérea supersônica do mundo se veem alvo de atentados, cabendo ao agente Drummond investigar e impedir mais mortes. Em sua nova versão para os cinemas, Bulldog Drummond se tornava um agente secreto britânico. No passado, o mestre Alfred Hitchcock quase foi o responsável por uma das adaptações do personagem nas telonas.

Dr. Neil Connery

E se você achou os itens acima produções desavergonhadas, espere para ver essa aqui. Bem, por onde começar? Produção italiana cara de pau, o filme Operação Irmão Caçula (1967) é tão sem vergonha que merecia alguma espécie de prêmio. Vamos lá. O mote aqui é ter o irmão mais novo de Sean Connery protagonizando. Neil Connery é a “estrela” do filme e interpreta um personagem que tem o seu nome. Mas não para por aí. A trama fala justamente do recrutamento do irmão civil do maior espião da Inglaterra – você sabe de quem estou falando. Neil é um médico cirurgião plástico que precisa usar suas habilidades (além da medicina, leitura labial e hipnose) para impedir uma organização criminosa de usar um gerador de ondas magnéticas e dominar o mundo. Você quer mais? Então tá. Como coadjuvantes, o filme usa não um, não dois, nem três, mas cinco veteranos da franquia oficial de 007 na EON Pictures. São eles: Daniela Bianchi (a Bondgirl de Moscou Contra 007), Anthony Dawson (o professor de Dr. No), Adolfo Celi (o vilão principal de A Chantagem Atômica), e Bernard Lee e Lois Maxwell, respectivamente o chefe M e a secretária Moneypenny de todos os filmes iniciais da franquia 007.

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