Quem conhece apenas a MTV de hoje, talvez jamais consiga compreender o movimento que o primeiro canal de televisão focado em música quase 24 horas por dia trouxe consigo. O estilo MTV de ser era quase uma filosofia para os jovens, ditava muita tendência e moldava a forma que os adolescentes do período falavam, se vestiam e pensavam. Fora isso, era um atestado de rebeldia, de ser descolado e foi o primeiro contato que muitos jovens da época tiveram com seus artistas da música preferidos e o mundo dos videoclipes.

Tudo começou na década de 1980 (e podia ser outra?), onde o canal ajudou a lançar artistas como Madonna, por exemplo. Com a mudança para a década de 1990, novos estilos musicais chegavam e a cena mundial mudava. Os anos 2000 trouxeram ainda mais novidades, além da fatídica e derradeira última década de funcionamento da MTV como os mais velhos a conheceram e como, no fundo, queriam que tivesse continuado. Mas bem, três décadas é bastante tempo e nada dura para sempre. Hoje, o canal tem sua base em realities shows, a maioria focados em relacionamentos amorosos (ou azaração) e a vida dos jovens – que sempre foi o foco da empresa. Acontece que com o advento da internet, e o mundo online, ninguém mais precisava recorrer a um canal de TV para ver e ouvir seus clipes preferidos. E com o surgimento dos Smartphones, os vídeos podem ser assistidos de qualquer lugar.

Voltando para a década de 1990, foi quando a MTV dava um passo ainda mais ambicioso. Além dos programas de música, os clipes e suas próprias premiações, o canal investia também em programas originais, a maioria animações, como Beavis e Butt-Head e Aeon Flux. E em meados dos anos 90, a MTV Productions estreava nas telonas dos cinemas com sua primeira produção. Para a distribuição de seus vindouros filmes, a MTV se colocou com um dos maiores estúdios de Hollywood, a Paramount. Porém, quando foi a hora de dar seu primeiro passo nos cinemas, o estúdio parceiro foi a Warner. Foi a casa dos heróis da DC que concordou em lançar a comédia musical Joe e as Baratas, em 26 de julho de 1996.

Os astros da primeira produção da MTV no cinema são baratas geradas por efeitos de computadores.

Sim, é claro que para um primeiro longa nos cinemas a MTV Films tinha que escolher um projeto que fosse subversivo, engraçado, moderno, legal, musical e… por que não, grotesco. Desta forma, sua primeira produção para a telonas usava como protagonistas… baratas. Os insetos que causam repulsa em todos os humanos e podem ser considerados mais assustadores do que grande parte dos psicopatas de filmes de terror para muitos, são o tema de Joe e as Baratas, filme que nasceu como um curta-metragem em 1992, escrito e dirigido por John Payson. Esse curta, não por menos, figurou bastante na MTV usado para preencher espaço entre seus programas durante os comerciais – já que o curta possui menos de 4 minutos de duração.



Quatro anos depois e Payson ganhava sinal verde do canal, bancado por sua produtora de cinema, para esticar sua historinha em um longa-metragem de 1 hora e 20 minutos de duração. Afinal, esta ainda é uma história sobre um sujeito vivendo num apartamento infestado de baratas e a relação do jovem com os insetos – ou seja, não tinha como alongar mais que isso. No filme, Payson cria uma história de origem para Joe, o dono do apartamento. Agora, o sujeito era um interiorano, vindo de uma cidade rural dos EUA para a grande maçã, a cidade de Nova York, em busca de seus sonhos. Assim que chega, mostrando que vida na cidade grande é dura, o sujeito é assaltado três vezes e fica sem dinheiro e sem seus bens. Mesmo assim, precisa encontrar um lugar para morar, o que se mostra impossível.

As baratas foram cridas usando a mesma técnica de efeitos aplicada em Jurassic Park.

Joe finalmente, por uma sorte do destino, termina “herdando” o apartamento de uma velha senhora imigrante, que morre bem diante dele na rua. Coincidentemente, dois criminosos estavam sendo pagos para evacuar os últimos residentes do prédio em ruínas, trabalhando a serviço de um empresário inescrupuloso do ramo imobiliário, para a construção de uma nova área da cidade. Uma trama emprestada do clássico oitentista cult produzido por Steven Spielberg, O Milagre Veio do Espaço (1987). Assim, Joe se muda para o local e não poderia estar mais feliz de ter um teto sobre sua cabeça. Ou quase, já que o local é uma pocilga que parece apenas estar esperando para desabar. Lá, ele irá tomar conhecimento e iniciar uma relação de amor e ódio com os verdadeiros inquilinos do imóvel, um grupo grande de baratas que falam, cantam e dançam.

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É inegável que o grande chamariz de Joe e as Baratas são os efeitos visuais gerados por computadores (o CGI) que criam e dão vida aos insetos artistas. Esse é todo o mote do longa e a história não funcionaria se as criaturinhas não fossem criadas de forma crível. Nesta época, os efeitos visuais davam grandes passos em seus primórdios, e o avanço havia se iniciado com superproduções fantásticas vide O Exterminador do Futuro 2 (1991) e Jurassic Park (1993). E daí vieram filmes como O Máskara (1994), por exemplo. Ao chegar em 1996, já tínhamos filmes como Twister, com um pesado uso de efeitos deste porte, e também Independence Day. Os efeitos de Joe e as Baratas foram criados pela Blue Sky Studios, supervisionados por Chris Wedge, e utilizavam o mesmo motor gráfico de efeitos que os criados nos citados O Exterminador do Futuro 2 e Jurassic Park, para sentirmos o nível do empenho. Apesar disso, o filme não contou com um grande orçamento, sendo gastos US$13 milhões na produção, um valor baixo para os padrões de Hollywood – dos quais grande parte deve ter ido para os efeitos, já que o longa não conta com nomes de peso impulsionando.

Jovens promissores dos anos 90, Jerry O’Connell e Megan Ward são os protagonistas humanos de ‘Joe e as Baratas’.

Ainda assim, eram necessários rostos que o público jovem conhecesse de outras produções, mesmo que estes rostos não fossem de atores do time A. Desta forma, os intérpretes do curta não retornavam para seus papeis. Mark Rosenthal, o Joe do curta, dava lugar a Jerry O’Connell, astro mirim de Conta Comigo (1986), que havia crescido, virado galã e protagonizava o seriado de sucesso cult Sliders na época, tendo estrado no ano anterior a este longa. O’Connell viria a ter um papel de destaque no terror Pânico 2, lançado no ano seguinte. Quem também mudava de rosto era a companheira do sujeito, no curta vivida por Arija Bareikis. Na versão para o cinema, ela ganha nome, Lily, e as formas de Megan Ward. A atriz atualmente pode até se encontrar no ostracismo, mas nos anos 1990 emplacava em produções jovens como O Homem da Califórnia (1992), com Brendan Fraser, PCU – Uma Universidade Muito Animal (1994), e inclusive estrelou a série de fantasia e ficção científica Dark Skies.



Algumas das ideias e cenas são recriadas do curta para o longa, como quando Joe leva Lily para um encontro romântico em sua casa, temendo pelo pior, mesmo após ter feito um acordo com as baratas. Os insetos, por outro lado, ajudam da sua maneira para que tudo saia da melhor forma possível. Porém o desfecho é desastroso, com uma verdadeira “chuva de cucarachas” na moça.

Para muitos, um momento pior do que encarar Jason ou Freddy: a chuva de baratas que marca curta e longa.

Sendo essa uma parceria com a Warner, outra produtora muitas vezes associada ao grande estúdio nas décadas de 1980 e 1990 ajudava financeiramente: a Geffen Pictures, parte de cinema da produtora musical Geffen, fundada por David Geffen. Afinal, com a música em comum, estava tudo em casa. Produzindo o longa, também estava o ator Griffin Dunne, dos clássicos 80’s Um Lobisomem Americano em Londres (1981) e Depois de Horas (1985), de Martin Scorsese. Ainda no clima MTV, artistas da música como Moby e Pepa, da dupla Salt n Pepa, faziam participações. E dentre os dubladores das baratas coadjuvantes, atores como Dave Chappelle, Tim Blake Nelson e BD Wong.

A MTV Films não começaria sua trajetória nas telonas com o pé direito. O filme de linguagem completamente videoclíptica, planejado para falar exclusivamente com os fãs do canal televisivo, se tornou um fracasso de crítica e público. De seu orçamento de US$13 milhões, o longa recuperou apenas US$4.6 milhões em sua estadia nas telonas. Depois deste primeiro fracasso, John Payson se afastou do ramo do entretenimento e nunca mais fez nada de muito significativo. Já a MTV Films se recuperaria do baque logo em seu lançamento seguinte, que chegaria no fim do mesmo ano, com o primeiro e único filme para o cinema da dupla da casa Beavis e Butt-Head Detonam a América. Três anos depois, o estúdio lançaria uma pérola cult com Eleição (1999), protagonizado por Reese Witherspoon e Matthew Broderick.

Os que cresceram no fim dos anos 1990 e início de 2000 devem lembrar das exibições deste filme nas noites do SBT. Em 2021, Joe e as Baratas completou 25 anos de seu lançamento nos cinemas. Uma vida. Tendo ressurgido como item cult ainda na época das videolocadoras. Fracasso ou sucesso cult, Joe e as Baratas carregará sempre o fato de ter sido o primeiro filme lançado pela MTV e tem seu nome escrito na história para toda uma geração.

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