O mundo está em constante mudança e em variadas áreas de nossa sociedade humana terminamos por seguir as tendências. No cinema, o mesmo acontece e cada época possui seu próprio retrato nas telonas. Os gêneros também vão se moldando e se adequando de acordo com o que o público espera deles. Assim, após o surgimento dos filmes de entretenimento grandiosos que ficaram conhecidos como blockbusters (em 1975), essa tendência só fez aumentar cada vez mais os tornando verdadeiros colossos incontroláveis. Junte a isso o surgimento das plataformas de streaming que oferecem um valor acessível para que você fique no conforto de sua casa e os filmes para os cinemas precisaram “lutar” oferecendo entretenimento gigantesco que não cabe na telinha.

Hoje, é inquestionável que os filmes de super-heróis ditam as regras no cinema mainstream, afinal é impossível competir com a imaginação de um lugar onde não existem regras, onde vale tudo e a realidade não importa muito. Se formos comparar com o passado, digamos nas décadas de 80 e 90, eram os filmes de ação que ditavam as regras. Hoje, até franquias que deveriam ser de aventura e ação terminam por mostrar-se na realidade “filmes de super-heróis disfarçados”, cada vez mais exagerados e surreais, vide a franquia Velozes & Furiosos.

Voltando 30 anos no passado, para 1991, a fonte de ideias para superproduções era um pouco diferente. Neste ano específico vimos, por exemplo, repaginadas em clássicos como Robin Hood (O Príncipe dos Ladrões) e Peter Pan (Hook – A Volta do Capitão Gancho), continuações que subvertiam seus gêneros para o bem (O Exterminador do Futuro 2) ou para o mal (Highlander II), e inclusive um thriller policial repleto de esportes radicais (como surfe e paraquedismo) preparado para capturar a atenção dos jovens (Caçadores de Emoção). Mas talvez uma das mais curiosas investidas tenha sido a ideia de certa forma inusitada de colocar bombeiros combatendo incêndios no centro de um blockbuster. Esse projeto chama-se Cortina de Fogo.

Uma equipe de bombeiros de Chicago são os protagonistas heroicos do blockbuster ‘Cortina de Fogo’.

Não que tais profissionais não sejam heroicos o suficiente por si só, com sua linha de trabalho onde arriscam a vida diariamente. Mas com Cortina de Fogo, os bombeiros teriam sua popularidade renovada e exportada mundialmente como protagonistas de uma superprodução cinematográfica de Hollywood. A fábrica de sonhos teve êxito em sua homenagem à profissão dos combatentes do fogo, já que a fama do filme aumentou substancialmente o número de pessoas interessadas em se tornarem bombeiros. Fora isso, diversos figurantes e coadjuvantes do longa eram bombeiros de verdade na vida real.



A ideia para o roteiro, é claro, partiu de um bombeiro. Gregory Widen trabalhou na área por três anos e viu um amigo ser morto pela chamada “cortina de fogo” (Backdraft), termo que determina um local fechado onde o fogo e o calor se acumulam somente esperando o contado com o mínimo oxigênio para fazê-lo explodir numa bola fervorosa. Esse é também o título que Widen deu ao roteiro. Antes de vender seu texto para a Universal Pictures, o roteirista havia emplacado a história do sucesso cult Highlander – O Guerreiro Imortal (1986).

No cerne da trama de ‘Cortina de Fogo’ está o relacionamento familiar dos irmãos Stephen e Brian McCaffrey.

A trama criada por Widen possui diversas vertentes com alguns núcleos de personagens. Justamente por isso, possui um dos melhores elencos de uma grande produção na década de 90. A principal das histórias e que é o coração do filme fala sobre uma relação familiar de gerações de bombeiros. Tudo começa Dennis McCaffrey, bombeiro herói de Chicago que morre na linha de ação e deixa dois filhos pequenos. Um pulo temporal depois e percebemos que Stephen ‘Bull’ McCaffrey (Kurt Russell) seguiu de perto a linha de trabalho do pai, se tornando o líder de sua divisão. Ele é um sujeito destemido, um verdadeiro “touro” (daí o apelido), mas cujo temperamento duro e difícil o afasta cada vez mais da mulher (Rebecca De Mornay), de quem está separado, do pequeno filho e do irmão mais novo Brian McCaffrey (William Baldwin).

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Não por menos, Brian, o verdadeiro protagonista do filme, deseja superar o trauma da morte do pai e se tornar um bombeiro ele mesmo. O filme narra sua trajetória como “calouro” e seu treinamento na corporação. Quando a relação com o irmão mais velho acumula muita pólvora, termina por explodir, lançando Brian para outra área dentro da profissão: a investigação na perícia dos bombeiros. No local, ele adquire um novo mentor, papel do Oscarizado Robert De Niro (sim, eu disse que era um dos melhores elencos da década), dando maior credibilidade a qualquer filme. O personagem do ator, Donald Rimgale, é um bombeiro de verdade e na trama é inclusive usado seu nome verdadeiro. O que faz de Cortina de Fogo, em partes, uma biografia também.

Qualquer filme melhora com Robert De Niro. Aqui ele vive um personagem real.

Rimgale investiga incêndios criminosos provocados utilizando as chamadas cortinas de fogo. As explosões andam matando gente importante, e os investigadores começam a juntar as peças de quem pode estar por trás dos atos e sua motivação. Aqui temos o artifício conhecido como whodunit também, onde uma história encaminha um possível culpado de crimes como sendo um dos inúmeros personagens apresentados para que no final seja revelado quem era. Apesar disso, o verdadeiro vilão desta obra de ação é nenhum outro senão o fogo em si. E quantos outros filmes você pode dizer que isto ocorre? A forma como o fogo é construído e narrado por cada um dos personagens, uns com admiração, alguns com respeito e outros com pavor dele, é uma clara preparação para o desafio dos heróis. A forma como ele espreita, como a fumaça sai e depois é sugada para debaixo das portas em incêndios, é como se um antagonista estivesse se preparando para o seu ataque como o grande inimigo a fazer sua introdução.



Completando o elenco principal, o veterano Donald Sutherland vive o psicopata piromaníaco Ronald Bartel, a indicada ao Oscar Jennifer Jason Leigh interpreta a assistente de um político em ascensão e interesse romântico do protagonista Brian, o saudoso J.T. Walsh no papel de tal político dono de ideais e atitudes para lá de escusas, e Scott Glenn (que no mesmo ano participaria do fenômeno no Oscar O Silêncio dos Inocentes) no papel de John Adcox, o melhor amigo de ‘Bull’ na corporação.

“A mão… que queima no fogo”. Rebecca De Mornay e Kurt Russell vivem ex marido e mulher.

O papel do protagonista Brian, no entanto, quase ficou com um jovem ator então desconhecido, que teria no filme sua primeira grande chance. Brad Pitt perdeu o personagem para William Baldwin. Num golpe do destino, Baldwin precisou cancelar sua participação em Thelma & Louise, lançado no mesmo ano, ponta esta que viria a cair no colo de Pitt, servindo como sua revelação no cinema. Além de Pitt, Keanu Reeves e Robert Downey Jr. fizeram testes para viver o protagonista Brian.

No comando da produção, o ator transformado em diretor Ron Howard vinha dos sucessos que marcaram a década de 80 nos gêneros da fantasia, ficção científica e comédia vide Splash – Uma Sereia em Minha Vida (1984), Cocoon (1985) e Willow – Na Terra da Magia (1988). Especialista então em filmes para toda a família, com o lançamento de O Tiro que Não Saiu Pela Culatra (1989) no ano anterior, Howard começava a dar seus passos rumo a filmes mais sérios e Cortina de Fogo ajudou como um dos primeiros degraus nessa escalada – um filme de censura alta e com temas mais adultos. O diretor entregaria em pouco tempo obras elogiadíssimas e Oscarizadas como Apollo 13 (1995) e Uma Mente Brilhante (2001).

Cara a cara com o perigo. Brian (William Baldwin) enfrenta o psicopata Ronald (Donald Sutherland).

Cortina de Fogo se beneficiou e muito do fato de que na época os efeitos visuais de computador (conhecidos como CGI) estavam apenas engatinhando e encontravam em O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final (lançado no mesmo ano) um de seus grandes precursores – com Jurassic Park (1993) o evoluindo a um novo patamar logo depois. Desta forma, toda a parte técnica envolvendo a criação das cenas com fogo precisaram ser feitas de forma real, nua e crua. O que torna a ação mais crível e tensa. De fato, alguns câmeras foram preparados com os trajes de proteção para atravessar o fogo, incluindo o espectador na ação em meio a prédios em chamas. O resultado foi tão positivo que levou a Universal Studios a criar uma atração em seu parque temático baseada no filme, algo inédito para um longa de censura alta.

Inferno intenso. Uma das muitas cenas de ação escaldantes de ‘Cortina de Fogo’.

Com um orçamento de US$40 milhões, Cortina de Fogo se mostrou um dos maiores sucessos do cinema de sua respectiva época de lançamento, arrecadando mais de US$150 milhões em bilheterias mundiais. Cortina de Fogo completa 30 anos de seu lançamento em 2021, tendo estreado no dia 24 de maio de 1991 nos EUA, chegando ao Brasil no dia 9 de agosto do mesmo ano. O blockbuster está disponível atualmente no acervo da Netflix e é uma ótima pedida para os fãs comemorarem seu aniversário ou os espectadores mais novos que curtem ação raiz conhecerem assistindo pela primeira vez. Fica o aviso: a temperatura irá subir.

PS. Em 2019, uma continuação tardia foi lançada direto em vídeo. Intitulada Cortina de Fogo 2 (Backdraft 2), o longa traz de volta ao elenco as presenças de William Baldwin como Brian McCaffrey, Donald Sutherland como Ronald Bartel, roteiro novamente de Gregory Widen e produção dos mesmos Raffaella De Laurentiis, Brian Grazer e Ron Howard do original.

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