Em processo de regressão artística, Aronofsky aborda obsessão em passagem bíblica.

Desde seu longa de estreia, Pi (1998), considero fascinante o trabalho de Darren Aronofsky. Diria que, ao lado de nomes como Paul Thomas AndersonQuentin Tarantino e Spike Jonze, Aronofsky é, sem duvidas, um dos mais brilhantes diretores do cinema norte-americano contemporâneo, que surgiram nos últimos vinte anos. Isso porque avalio quase todas suas obras como seminais, do ponto de vista estético e narrativo, assim como aprecio seu estudo do humano, de vícios e obsessões, engendrados de forma tão intensa. E, quando recebi a notícia que este estaria envolvido numa grande produção hollywoodiana, de gênero bíblico, e que trataria de uma figura icônica, dentro do cenário religioso, como Noé, confesso que encarei o fato como uma espécie de desafio do ofício – não me pergunte por que.

Pois bem, pegando como base o conto da Arca de Noé, Aronofsky, seu já parceiro Ari Handel (argumentista do excepcional Fonte da Vida) e o artista canadense, Niko Henrichon (Os Leões de Bagdá), deram vida a graphic novelNoé: Por Causa da Maldade dos Homens, no intuito de autopromover o projeto, servindo como um storyboard de luxo, pronto para ser posto em tela. O que, obviamente, adveio – ainda que algumas ideias e escolhas tenham sido limadas pelo estúdio, como a conversão 3D, que logo adianto ser desnecessária e até danosa para com a fita, já que distorce alguns planos e fere a fotografia. Contudo, no que se refere à fábula, é curioso ver que o autor fez mesmo sua versão particular. Chegando a ser pop, por inserir enormes criaturas, vilões estereotipados, cheio de falas de efeitos, em meio a batalhas épicas, que em muitas passagens lembram os entraves da Trilogia do Anel, de Peter Jackson.

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Com um primeiro ato extremamente indigesto, em narrativa e conteúdo, por tornar tudo mais tolo do que originalmente é, e falar sobre isso de forma tão esquematizada, ficamos com impressão de estarmos diante de um épico dirigido por Ridley Scott. Coincidentemente, protagonizado por Russel Crowe, que trabalhou em outros títulos semelhantes do próprio Scott, como é o caso do pavoroso Robin Hood (2010). A inércia continua até metade do segundo ato, onde, enfim, Aronofsky resolve acordar e energizar o filme, dando maior carga dramática à trama. Logo depois, ele explora mais a fundo Noé e os demais personagens, fazendo com que tomemos certo interesse por estes – não por apego ou processo de identificação, mas pela curiosidade do que está para acontecer.

Andando mais um pouco, percebemos em Noé uma das características mais marcantes da carreira do diretor: o fato de tanto abordar a obsessão. Foi assim no que já podemos chamar de jovem clássico, Cisne Negro (2010), que mostrava a incansável busca pela perfeição, da personagem Nina Sayers, vivida brilhantemente por Natalie Portman, e, por assim, suas futuras consequências. Já aqui, vemos um sujeito que, movido pela fé, passa por cima de princípios básicos sociais, não só com estranhos, mas familiares. Onde, por exemplo, numa cena de Ila (Emma Watson) e Noé, já pelo fim do terceiro ato, ficamos, de verdade, apreensivos, pois as várias provas da lealdade foram mais que suficientes pra termos certeza de tal devaneio. O que acaba sendo o grande acerto do filme, pois Aronofsky ultrapassa a barreira de ser apenas uma história bíblica, para abordar o limite da fé do homem comum. Até que ponto você seguiria suas crenças e convicções? Será que estamos mesmo entendendo o recado? Em todo caso, fica óbvio, no fim das contas, o viés religioso que pode até soar cínico para alguns, no entanto sua real intenção deve ser mesmo te fazer pensar num lado espiritual.

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Entrando em aspectos mais técnicos, vemos um trabalho de direção pouco inspirador cinematograficamente, na maior parte do longa, o que me deixou incrédulo. A evolução de Darren Aronofsky foi visível em todos os seus filmes, desde uma pegada mais nervosa e alucinada, no início de sua carreira, até um estilo mais clássico e elegante, em seus últimos títulos. Mas aqui nos deparamos com uma ideia burocrática, que caminha em cima de elipses, com trucagens repletas de stop motion, chegando a beirar o burlesco na explicação criacionista da origem do universo. Bem como a trilha sonora de Clint Mansell (Réquiem Para um Sonho) está apenas como um apoio para grandes e tediosas cenas panorâmicas. Passando quase que despercebida. Já a fotografia do sempre excelente Matthew Libatique (Ruby Sparks: A Namorada Perfeita), auxilia bem os satisfatórios efeitos visuais e clima.

É verdade que os acertos são maiores que os erros de Noé, que sua parte final convence e ideia principal é passada como bem pretendia. Tal quanto, também, fica claro que este é o trabalho mais fraco da carreira do cineasta, soando até como uma espécie de regressão, já que vinha ele numa grande crescente. Exigir um pouco mais de alguém que se admira não é prejudicial, pelo contrário, apontar problemas e ver que os pontos positivos são simplórios em nível de comparações tão rasas, faz com que este venha se superar. E por que não voltar as suas origens com o espaço que hoje possui e realizar projetos mais ousados, do ponto de vista artístico? Capacidade, sabemos que tem, falta, então, olhar dentro de si e pesar suas escolhas.

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