Sem dúvida o Encouraçado Potemkin ainda é a obra base do cinema russo

A virada do século XIX para o XX não foi fácil para a Rússia. Enquanto a política do país seguia o modelo monárquico, este já entrando em declínio na virada do século, liderado pelo czar; sua economia encontrava-se atrasada em relação ao resto da Europa. O império russo ainda era muito tímido em termos de industrialização e sua economia dependia em muito da mão de obra agrária espalhada pelo vasto território.

O campo, aliás, era o epicentro do descontentamento com o estado devido às altas taxas cobradas pela coroa. Não eram incomuns os episódios de revolta nessas áreas. Já nas cidades onde se localizavam os poucos centros industriais, a situação dos operários era de salários extremamente baixos e cargas de trabalho bastante elevadas. Fora isso havia também a ausência de uma legislação trabalhista, a criminalização de sindicatos e a expansão rápida e desorganizada das cidades devido ao grande êxodo rural que ocorria.



No artigo Transformation of Russia in the Nineteenth Century publicado pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos é apontado o quão problemática era a industrialização no país. “O crescimento industrial no país era significativo, apesar de instável, e em termos absolutos não era extensivo…. o orçamento do estado tinha mais que dobrado, porém, expedições de débitos haviam quadruplicado, constituindo 28% das despesa oficiais em 1891″.

A lenta industrialização nacional auxiliou nas convulsões sociais

Foi nesse cenário de grande instabilidade econômico-social que em 1905 ocorreu um motim no encouraçado batizado de Potemkin; o mais moderno que o império tinha até então. O texto The Mutiny on the Potemkin de Richard Cavendish aponta que “não era um navio feliz e parte da tripulação possuía inclinações revolucionárias, em particular um jovem não comissionado chamado Matyushenko, que assumiu um papel de liderança no que se seguiu”.

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O estopim do motim se deu pela condição dos alimentos oferecidos à tripulação. Dizia-se que a carne estava infestada de vermes e as sopas possuíam minhocas; esse quadro elevou a indisposição da tripulação mais ainda, o que não foi bem aceito pelo comandante da embarcação. Sua resposta foi executar um dos tripulantes queixosos, que segundo Cavendish foi um homem chamado Valenchuk, o que resultou no começo do caos interno.

Após o capitão e todo o corpo de comando ser executado, o comitê interno foi estabelecido para liderar o Potemkin. O acontecimento incentivou então a população de Odessa, onde o navio estava ancorado, a se rebelar contra as instituições de estado. Tamanha foi a crise que o czar Nicolau II autorizou o uso de força extrema para conter os levantes, o que resultou em 2.000 mortos e 3.000 feridos. A tripulação do Potemkin conseguiu abandonar o porto com o navio, mais tarde sendo rendida por forças russas.

O encouraçado Potemkin foi o mais moderno da frota russa à época

Anos depois, em 1925, com o país já convertido ao sistema de governo comunista, o cineasta Sergei Eisenstein realizou as filmagens de Encouraçado Potemkin. O diretor era um adepto fervoroso do novo regime e, mais importante, entendia o potencial inato do cinema como um meio de consolidar a nova ideologia na mente e coração da população (a União Soviética era relativamente nova até então, com a existência formalizada em 1922).



Em um trecho do livro Tudo sobre cinema o editor geral Philip Kemp aponta justamente o alvo panfletário pelo qual a película foi filmada. “ …essa reconstituição histórica de Sergei Eisenstein é o mais famoso de todos os filmes mudos soviéticos e também um exemplo magistral de cinema panfletário. Em sintonia como o objetivo do filme de demonstrar o poder do povo sobre a autoridade divina de um monarca, a caracterização dos personagens é menos importante do que as ações das massas”.

A obra foi responsável por apresentar inovações técnicas para a época, principalmente em termos visuais. Narrativamente falando o filme foi dividido em cinco capítulos, sendo o quarto o mais famoso, conhecido como “Escadaria de Odessa”. Eisenstein adapta para a tela a repressão das forças de segurança e inova visualmente ao fazê-lo; primeiramente pela quantidade de histórias ocorrendo ao mesmo tempo. Tem-se ocorrendo em simultâneo a ação dos soldados imperiais, a reação de terror da população e a tensão de um carrinho de bebê que escapa aos cuidados da mãe e direciona-se em meio ao pandemônio.

A clássica cena do massacre da escadaria em Odessa

Em How This Soviet Propaganda Changed Cinema Forever de Varun Chaubey é explicado como a decisão de ritmo da cena, adotada pelo diretor, fez toda a diferença na sensação final. “A montagem rítmica é usada consistentemente durante o filme para manter um fluxo natural entre as tomadas. Oposta a métrica, onde a lente das tomadas é fixa, o ritmo de edição é baseado no ritmo e tempo da cena em si. Portanto em “Escadaria de Odessa”, o momento que precede o massacre soa muito relaxante, para então se tornar mais tensa após o aparecimento dos cossacos”.

Apesar de tecnicamente reconhecido, O Encouraçado Potemkin foi considerado por muito tempo um filme ideologicamente perigoso, sentimento esse ampliado durante o período da Guerra Fria. Seu nível de violência o fez ser editado em diversos países, tendo toda uma sequência de trechos que foram retirados. Sua exibição na Alemanha nazista era proibida e quando finalmente obteve a permissão de ser exibido na Grã-Bretanha, por volta do ano de 1957, o filme recebeu a classificação indicativa mais alta; acima de 18 anos.

No entanto a importância da obra é inegável bem como sua posição chave na filmografia de Eisenstein. Hollywood em muito aprendeu com as técnicas do diretor russo usadas no filme, principalmente no que toca contar fatos históricos de uma maneira adaptada para a ficção, potencializando acontecimentos e estabelecendo arquétipos para as pessoas envolvidas. Após noventa e cinco anos a película sofreu um amadurecimento: deixou de ser uma obra com propósitos unicamente propagandísticos e se tornou um “professor” para todas as obras cinematográficas que viriam depois.



 

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