Spike Lee reimagina (ou quase isso) o adorado filme coreano de 2003

Para que existe uma refilmagem? As respostas mais dignas são provavelmente duas. A primeira é: Que assim como na música, é a chance de um novo artista colocar as mãos em um texto ou melodia de qualidade, exprimindo seu talento de adaptação. A segunda é: Apresentar para toda uma nova geração um filme antigo, obscuro ou simplesmente pouco conhecido, dando nova roupagem e o adaptando para os novos tempos.

Infelizmente a que reina no mercado atual de Hollywood, e que tem mais a ver com a segunda resposta, é uma terceira: Dinheiro. A simples e pura tentativa de emplacar com um marca pré-estabelecida. O que os executivos parecem ainda não ter percebido é que na maioria dos casos essas reimaginações não são bem sucedidas e terminam por “queimar” a obra original, ou serem ignoradas. Existe um longo debate sobre quais foram as refilmagens que realmente funcionaram e as poucas que conseguem sobressair ao original.

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É seguro afirmar também que os chamados remakes são uma das maiores fontes de “ideias” do cinema atual. Por mais estranho que possa parecer, não repudio totalmente o conceito. As refilmagens são válidas justamente quando pegam aquele tipo de obra bem obscura, como citado, e a trazem para as claras, para o conhecimento geral na forma de uma produção de qualidade. Até mesmo grandes mestres em sua arte já aderiram ao conceito em suas carreiras, vide Spielberg, Scorsese e os irmãos Coen.

Como todo bom conceito, o das refilmagens foi totalmente subvertido. O que mais temos são remakes de obras bastante conhecidas do público cinéfilo, quase sempre produções adoradas. Mexer com a paixão dos fãs é quase sempre sinônimo de problema. Essas são aparentemente as refilmagens mais odiadas, as que se atrevem a mexer em clássicos irretocáveis, vide Psicose (1998) e os recentes O Vingador do Futuro (2012) e Carrie – A Estranha (2013). É justamente o que ocorre com esta investida do cineasta Spike Lee (Faça a Coisa Certa) no cult coreano Oldboy (2003).

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Baseado em um mangá (os quadrinhos japoneses) de Nobuaki Minegishi, o filme original se tornou extremamente cultuado pelos verdadeiros fãs de cinema. Porém, a obra não é conhecida pelo grande público, em especial por sua nacionalidade. É justamente neste outro quesito que se encaixa sua reimaginação pelas mãos de Lee, apresentar para o grande público na forma de um filme hollywoodiano, uma produção asiática adorada, mas não muito conhecida.

Na trama, Josh Brolin vive o protagonista Joe Doucett, um sujeito arrogante, beberrão, péssimo marido e pai. Sua personalidade distorcida vai sendo juntanda ao longo do elaborado quebra-cabeças que é o filme e o faz o perfeito candidato para o sofrimento que irá encarar. Além de torná-lo também o perfeito indivíduo numa jornada de redenção. Após ser seduzido e drogado por uma bela mulher, ele percebe que a liberdade já não é mais uma escolha e se vê trancado no mesmo quarto por vinte anos.

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Seu tormento físico e psicológico é bem explorado pela cineasta talentoso, e nos contorcemos na cadeira ao vê-lo optando pelo álcool ao invés da alimentação em seu cativeiro. Tudo corrobora o declínio e meta de autodestruição, talvez inconsciente, do protagonista, assim como a de todo alcoólico ou viciado. Os únicos momentos políticos ou sociais abordados pelo ex-militante Spike Lee são as informações que recebemos pela TV durante o aprisionamento do herói, de 1993 até 2013 – passando pela mudança dos líderes do país e o ataque de 11 de setembro, tema ainda dolorido e recorrente no cinema do diretor.

Ah sim, temos também a figura de um homem negro que estampa um pôster e depois a alucinação do protagonista e remete ao comentário social recorrente nos filmes de Lee. O novo Oldboy não causa o mesmo impacto não por esta não ser uma ideia fresca, mas simplesmente porque certos temas e histórias não funcionam tão bem no ocidente. Embora Lee capriche no estilo e dê ênfase numa violência maior em relação ao original, a coisa parece não ter tanta relevância e algo se perde na tradução. Ao menos a polêmica não diminuiu, e os momentos perturbadores estão todos lá. Justamente talvez pelo medo de se afastar do original e não se manter fiel, não sentimos que Spike Lee faz deste Oldboy um filme seu. Opte pelo original.

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