Christina Aguilera é um dos nomes mais conhecidos da indústria fonográfica – e uma cantora com voz notável que imediatamente é reconhecível por guturais rendições e músicas icônicas que até hoje permeiam nossa existência. Como se não bastasse, Aguilera é uma das artistas mais prolíficas da última geração, tendo vendendo mais de 75 milhões de álbuns e singles ao redor do mundo.

Entretanto, muitos consideram que a musicista carrega consigo uma mancha na carreira. Com exceção dos fãs, Bionic permaneceu na obscuridade por muito tempo – e, em seu aniversário de dez anos, é mais que necessário trazermos essa brilhante obra de volta aos holofotes, tentando ao máximo fazer jus ao que a cantora e compositora queria nos mostrar com uma virada tremenda em sua identidade sonora.

Depois de receber aclame por Back to Basics, facilmente sua melhor produção (tanto pelo teor clássico quanto pelas exultantes letras), Christina percebeu que reinventar-se seria a melhor maneira de continuar trilhando um caminho de sucesso – algo que não é incomum dentro da esfera do entretenimento. Ao longo do século XXI (e até mesmo antes disso), o cenário musical sempre foi permeado por mudanças drásticas que conseguiram ou ao menos tentaram resgatar elementos esquecidos pelo panorama mainstream. Assim como Aguilera, Madonna já havia feito isso com Confessions on a DancefloorKylie Minogue havia resgatado as batidas dance com FeverLady Gaga, três anos mais tarde, seria responsável por colocar o synth-pop de volta na indústria com o subestimado ARTPOP; e, em 2020, inúmeros nomes estenderiam suas ramificações para a glória atualizada dos anos 1970 e 1980 (vide Dua LipaDoja CatThe Weeknd).

Bionic insurgiu como pioneiro em diversos aspectos – ainda mais trazendo para discussão temas críticos como sexualidade, sensualidade e pós-feminismo. Ao longo de letras cruas demais para serem absorvidas de uma vez, “Woohoo”, por exemplo, é um pecaminoso e delicioso hino dançante que quebra tabus com uma obsessiva e narcótica letra (ainda que infundida numa batida reciclada demais). “Vanity”, de longe uma das melhores entradas do álbum, é um orgulhoso solilóquio guinado por batidas instigantes de electro-pop“Sex for Breakfast” é uma inteligente e envolvente balada que se mascara com a presença inesperada de sintetizadores e não pensa duas vezes antes de deixar estampado o que quer passar.

No final das contas, o blasfemo e controverso liricismo pode até ter sido comparado com CDs que vieram anteriormente, mas é inegável dizer que Aguilera traz um toque único para absolutamente tudo o que deseja colocar e voga. E esse é o motivo principal pelo fracasso comercial e crítico de Bionic. Afinal, para as mentes mais obtusas, é impensável uma mulher se “expor” dessa maneira – quando é isso que permite que elas se abram e se expressem da maneira mais pura possível. Mais do que isso, é com análises viscerais que as divas que tanto amamos mostram que podem fazer o que bem quiserem e terem sucesso tão igual (e muitas vezes maior) que os endeusados e pretensiosos homens que não têm mais nada a nos contar.

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Num contexto geral, a produção do álbum soa um tanto abarrotado. A decisão de Christina e de seu time criativo em dividir a obra em dois momentos distintos – unidos talvez pela temática – é impalpável demais. A primeira metade deixa ser guiada pelo upbeat future-popsynth-pop é genial dentro do que se propõe, dando espaço para que faixas como a comedida “Glam” e a impactante “Elastic Love” ganhem vida; já a segunda parte rende-se ao lento preciosismo muito melhor explorado em obras anteriores. De fato, a presença de instrumentos orquestrais é fragmentário demais, como fica provado em “I Am”“You Lost Me” – ainda que o poder performativo da lead singer seja irretocavelmente comovente. Logo depois, voltamos com um estrondo oscilante para o estilo das tracks iniciais.

Apesar dos claros deslizes, o ponto de maior foco é o audacioso e sinestésico projeto do qual Aguilera se dispõe. Seguindo os passos de suas conterrâneas, porém com maior “resplandecência”, por assim dizer, ela fez algo que estaria fora de seu radar, talvez numa busca por reencontrar-se ou descobrir um novo lado. Enquanto vários entendem Bionic como uma espécie de “surto” fonográfico, sente-se uma vigorosa paixão de Christina em fazer aquilo que mais ama e sem se preocupar com a resposta que receberá. Diferente das mercadológicas “Genie In a Bottle”“Ain’t No Other Man”, sua sexta iteração é voltada para si mesma, em uma fascinante e pungente declaração intimista e explosiva, cujo único pecado é esquecer-se da famigerada edição (em outras palavras, um número reduzido de faixas talvez tivesse melhor recepção).

Anos depois de cair num trágico esquecimento, o CD foi resgatado por inúmeros artigos e críticos. Em 2018, o conhecido site britânico Pitchfork, em sua análise acerca de Liberation, disse que Bionic estava muito à frente de seu tempo e, caso lançado nos dias de hoje, seria um ecoante e bem-falado álbum. Ora, até mesmo Aguilera reconheceu o que havia feito, ainda que tenha demorado um tempo. Em uma declaração de autorreconhecimento, suas asserções sobre o que produziu podem até ter soado como egolatria desmedida, mas, como ela mesma diz em “Vanity”, “eu não sou convencida; eu apenas me amo”.

Mais do que nunca, o CD abre espaço para algumas das mais chocantes rendições da artista. Logo de cara, a faixa epônima e “Not Myself Tonight” (uma de suas canções mais diabolicamente atrevidas) dão o tom do que podemos esperar; pouco depois, temos o pico da sensualidade com a incrível “Desnudate” e o anthem feminista “Prima Donna” (ambos equivocadamente desperdiçados como singles). E, pulando para o final, temos o conclusivo “I Am (Stripped)”, uma elegante ballad em que a cantora se mostra vulnerável e humana – e devo dizer que, em qualquer outro lugar, essa arquitetura quase minimalista teria funcionado com o potencial do qual se vale.

Mesmo dez anos desde seu lançamento, Bionic continua brilhante de seu modo. Renegando as fórmulas, desconstruindo o que pensávamos que sabíamos sobre Christina Aguilera – e aproveitando o momento para deixar exposto um lado acidamente cândido e versátil. E, dessa forma, seu espectro libertador é mais que necessário para os dias de hoje e para relembrar uma pequena joia que não teve a atenção merecida.

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