Lançado nos cinemas brasileiros na última quinta-feira (30), Springsteen: Salve-me do Desconhecido está sendo vendido como a cinebiografia do astro americano do rock Bruce Springsteen. Porém, quem for assistir o longa com isso em mente, provavelmente irá sair decepcionado porque o filme não aborda toda a vida do músico, mas sim o processo de criação do álbum Nebraska.
Lançado em 1982, o álbum foi um movimento ousado do cantor, que estava prestes a explodir internacionalmente, mas vivia um momento muito complexo da carreira. Ele já sentia os efeitos do sucesso, só que estava sufocado e sem entender o motivo de continuar fazendo música. Diante dessa situação, ele se isola em Nova Jérsei, acompanhado apenas de sua gaita, violão, glockenspiel e um gravador de quatro canais. Com isso, ele compõe músicas que tentam desafogar sua alma, dando origem ao seu álbum mais autoral.

O filme, então, aborda simultaneamente essa busca por sentido de Bruce, vivido brilhantemente por Jeremy Allen White, enquanto seu empresário tenta vender a ideia do álbum para as gravadoras, que esperavam, na verdade, um álbum de hits eletrizantes para consolidar o artista no ramo internacional e nas paradas das rádios americanas.
O mais interessante é que o longa é conduzido de forma bem vagarosa, explorando aspectos da vida pessoal de Bruce nesse período entre 1981 e 1982, como a tentativa de relacionamento com a jovem Faye (Odessa Young), uma mãe solteira que conhece o músico em uma escapada da fama, que acaba trazendo o rapaz para sua vida, apesar de todos da família a alertarem para o risco que seria se relacionar com um astro da música. A presença de Faye é fundamental para a trama, porque ela representa os efeitos que uma doença tão séria – e muitas vezes não tratada com a seriedade que merece – pode causar nas pessoas amadas por aqueles que são atormentados por ela.

Sim, pode ser que demore um pouco para que alguns percebam, mas o filme fala essencialmente sobre depressão e seus impactos destrutivos no ser humano, independentemente de quem seja. Ao longo da trama, vemos um jovem Bruce Springsteen vivendo o sonho de todo artista. Ele está prestes a deslanchar, mas já faz shows lotados pelo país e conta com uma base de fãs que não apenas o curte… Eles amam verdadeiramente o Bruce e o que ele tem a dizer. Só que o rapaz se vê incapaz de sentir esse amor. Na verdade, o sonho vira um tormento porque ele passa a se isolar cada vez mais.
E Bruce, nessa fase, ainda tinha a rara capacidade de dar umas escapadas desses momentos megalomaníacos da rotina de shows, fugindo para sua cidade natal, onde fazia pequenos shows para tocar o que ele quisesse, sem a responsabilidade de ter de agradar ou corresponder a expectativas alheias. Mesmo assim, o rapaz não consegue tirar da cabeça essa sensação de que nada faz sentido e de que ele está perdendo tempo. É angustiante, porque ele se vê perseguido por um inimigo invisível que ele sequer tem ideia do que seja ou de como enfrentá-lo.

Nesse contexto, o isolamento de Bruce em sua casa com os instrumentos funciona como um respiro na rotina do músico, porque ele acredita estar se reconectando com suas origens. O problema é que ele começa a afastar as pessoas que ama sem nem perceber. Sua sede por se reencontrar é tanta que ele se perde do mundo, enquanto busca algo intangível. Ao mesmo tempo, o músico cria um apego a essas obras, como se elas fossem a resposta para todos os seus problemas. E isso contrasta justamente com os momentos em que ele tenta vender o álbum para a gravadora e não vê a ideia ser bem recebida. Como assim o meu grito de socorro não é aceito? O que fazer quando você está sob o controle de alguém que não se interessa por quem você é verdadeiramente? O que isso gera? Mais frustração.
O outro contraste interessante é o do Bruce na casa com o Bruce no estúdio. Ele sai de uma suposta paz momentânea para uma rotina infernal atrás da reprodução exata dos efeitos e sentimentos que ele pôs naquela fita que viraria Nebraska. O músico desenvolve um apego sem igual por sua obra e fica frustrado a cada tentativa falha dos engenheiros de som em replicarem o material para os compactos. É como se os sentimentos de Bruce fossem tão sinceros que ninguém ao seu redor fosse capaz de compreendê-los. E essa sensação é uma das mais sufocantes dos quadros de depressão. A de não ser levado a sério, a de não ser compreendido. É enlouquecedor, é desesperador, é exaustivo. Abordar isso por meio das tentativas de replicação da música foi uma tacada de mestre do diretor Scott Cooper, porque conseguiu recriar com maestria o inferno vivido por quem sofre com a doença. Não é uma tristeza, é um vazio que parece sem fim que faz com que a pessoa sinta estar isolada.

O filme também promove pequenas viagens acerca de um trauma familiar que resulta em uma das cenas mais bonitas de reconciliação do cinema recente. Mas o ponto mais importante dessa obra é a mensagem que existe uma saída. O longa é uma grande mensagem de esperança de que você não está sozinho e que, procurando ajuda profissional, conforme o próprio Bruce Springsteen busca ao longo da trama, e tendo uma rede de apoio verdadeira, é possível se reencontrar e corrigir a química mental.
Não fosse essa rede de apoio singela, mas sincera, que o músico tem no filme, talvez as coisas tivessem sido diferentes. É uma obra necessária, belíssima e angustiante sobre um dos ícones mais influentes da música americana, cuja mensagem pode ser um sopro na vida de quem precisa procurar ajuda e talvez não tenha percebido ainda ou não saiba como.

