2020 foi um ano recheado de conturbações e impedimentos – mas não para a música.

Já fazia quase uma década desde os artistas independentes e até mesmo mainstream não se aventuravam com tanta paixão em obras dignas de entrarem para a história, misturando o passado, o presente e até mesmo o futuro em narrativas competentes, escapistas e, principalmente com o intuito de nos deixarem um pouco mais confortáveis em um período marcado por descontentamentos.

Desde o eufórico Chromatica, retorno de Lady Gaga às suas raízes do final dos anos 2000, até as latinidades sensuais de Isabela Merced com o EP the better half of me, passando pelo rock alternativo do exuberante Fetch the Bolt Cutters, de Fiona Apple, separamos uma breve lista com os vinte melhores álbuns do ano.

Confira abaixo as nossas escolhas e conte para nós qual o seu favorito:



20. THE BETTER HALF OF ME, Isabela Merced

“O maior sucesso que a cantora e compositora encontra aqui é a capacidade de manter-se rejuvenescida em meio a tantos lançamentos e nomes que surgem esporadicamente no mundo afora – deixando claro quais são os gêneros pelos que tem mais gosto de explorar. Em cada peça fonográfica, o ritmo e a melodia combinam-se em uma ambiência lida o suficiente para criar afinidade com seus interlocutores, mesclando humor e tragédia com toques do legado da geração millenial (como a forte presença dos anos 1980). No final das contas, the better half of me entrega muito mais do que esperávamos, merecendo muito mais carinho e reconhecimento do que provavelmente terá.” – Thiago Nolla

19. SONG FOR OUR DAUGHTER, Laura Marling

O sétimo álbum de estúdio de Laura Marling é o seu melhor até hoje. Comparando com suas obras anteriores, Song for Our Daughter é uma narrativa místico-ficcional que traz arranjos instrumentais mais esparsos e mais fincados no minimalismo sonoro para criar uma atmosfera íntima. Os vocais impecáveis de Marling são acompanhados do violão e de uma ecoante percussão ao fundo, apoiada pela melodia apaixonante do piano e por uma produção competente de Rob Moose.



18. SILVER LANDINGS, Mandy Moore

“‘Silver Landings mantém-se coeso o suficiente ao longo de suas breves dez faixas; pautado em estilos que agora vêm dando espaço para o pop e o disco-dance­ das décadas anteriores, a artista foi ousada em se deixar levar por aquilo que mais lhe chamou a atenção. O resultado, apesar de alguns breves deslizes que se concentram na esquecível “Save a Little for Yourself”, é aplaudível ao ponto de considerarmos este um dos grandes comebacks do ano” – TN.

17. AFTER HOURS, The Weeknd

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“Foi pensando numa continuidade de sua dramática arte que The Weeknds criou intenções interessantes e promissoras para After Hours, seu quarto álbum de estúdio que, seguindo o passo de tantas outras figuras de alto calibre na esfera contemporânea, resolveu se respaldar nas décadas passadas incrementar icônicas sonoridades com algumas transgressões e fusões outrora inimagináveis. E, ainda que tenha permanecido de certa maneira em sua zona de conforto, é visível o modo como sempre busca por algo diferente para entregar a seus “seguidores” – alcançando proeza invejável em grande parte.” – TN

16. HOW I’M FEELING NOW, Charli XCX

“Mais uma vez, a cantora toma as rédeas de sua carreira e faz o que bem entender com as músicas que lhe inspiraram, trabalhando numa forte parceria ao lado de produtores como Dijon DuenasA.G. Cook e BJ Burton (colaboradores de longa data que parecem sempre encontrar uma brecha para superarem a si próprios). De um lado, sua presença ganha força descomunal a cada ano sem esbarrar nas ruínas de uma monotonia fatigante; de outro, soa fora dos padrões e pode ser recebido com repulsa ou ignorância por aqueles mais acostumados com o “pop chiclete” que vem regendo 2020 desde os primeiros dias do ano.” – TN

15. AVES DE RAPINA (OST), Vários Artistas



“A proeminência de Doja Cat abre a produção com a incrível “Boss Bitch” que, mesmo seguindo uma construção já ouvida antes (ainda mais quando pensamos na transição dos anos 2000 para os 2010), transborda com um delicioso rap guiado por sintetizadores do electro e do dance-pop, entregando uma rendição frenética e inebriante ao extremo – sabendo o momento certo de recuar para um instrumental mais densa e de utilizar os familiares moduladores de voz. Pouco depois, é a vez de Charlotte Lawrence brilhar com as samples emprestadas de Nina Simone em “Joke’s On You”, ganhando um espaço mais que merecido e pavimentando uma trajetória rumo a uma discografia de bastante sucesso.” – TN

14. LETTER TO YOU, Bruce Springsteen

Letter to You é uma das conquistas mais peculiares e incríveis da carreira de Bruce Springsteen. O ícone do rock voltou seis anos depois de seu último lançamento de originais e trabalhou arduamente após um longo bloqueio criativo. Felizmente, ele se reuniu com o produtor Ron Aniello. Os versos discutem temas como arrependimento, envelhecimento e a inevitabilidade da morte – este último vindo como reflexo da morte de seu ex-colega de banda George Theiss.

13. PICK ME UP OFF THE FLOOR, Norah Jones

“A lendária e distinta Norah Jones ganhou fama nos anos 2000, quando lançou seu primeiro álbum de estúdio intitulado Come Away with Me (cuja música-título até mesmo foi regravada em uma nostálgica rendição por Emma Bunton). Depois de vender quase 30 milhões de cópias e tornar-se um dos maiores nomes do jazz-folk do século XXI, Jones teve sua carreira catapultada para uma prolífica discografia, que lhe rendeu nada menos que nove prêmios do Grammy. Agora, duas décadas depois de seu début, ela retorna à glória com sua melhor obra em dez anos, o nostálgico e que tangencia o cinematográfico ‘Pick Me Off the Floor’, que, ao longo de suas onze estupendas faixas, entra facilmente para a lista das grandes produções de 2020 que abrem com o pé direito um novo ciclo.” – TN


12. PUNISHER, Phoebe Bridgers

Phoebe Bridgers conquistou o espaço merecido em 2020 com o lançamento não apenas de seu segundo álbum de estúdio, mas de um EP poucos meses depois. Entretanto, a produção que entrou para nossa lista é Punisher – uma continuação impecável do emo-folk já explorado em sua estreia com ‘Stranger in the Alps’. Aqui, o indie rock também ganha espaço ao longo de onze faixas escrita com candura excepcional e uma multidimensionalidade psicodélica que transforma uma simples jornada em uma aventura sinestésica.

11. SÓ, Adriana Calcanhotto

“Calcanhotto já não precisa provar nada para ninguém. Suas irretocáveis rendições vocais são conhecidas seja no escopo adulto, seja no infantil (como não recordar da série de álbuns infantis que assinou sob a alcunha de Adriana Partimpim?). Aqui, a meio-soprano lírico volta sua personalidade para elegíacos versos que puxam elementos do MPB e da bossa-nova, é claro, mas mergulhando-os no cenário contemporâneo do samba e do funk moderno, criando uma amálgama única que funciona do começo ao fim. Retomando a colaboração com o icônico Arthur Nogueira e com a presença de Dennis DJ para a oitava faixa, fica claro que a performer nunca deixa de lado simbologias ambíguas, fazendo questão de imprimir uma construção que tangencia um parnasianismo desconstruído e buscando uma releitura de tudo que já nos foi apresentado.” – TN

10. UNGODLY HOUR, Chloe x Halle

“Dois anos após o lançamento de seu primeiro álbum de estúdio, Chloe x Halle retornam para os holofotes com a estreia de ‘Ungodly Hours’. O novo CD é uma competente produção que explora, talvez mais que a investida anterior (‘The Kids Are Alright’), as habilidades e as incursões vocais de ambas as artistas, bem como letras recheadas com uma envolvência sensual e imediatamente relacionável com qualquer ouvinte que venha procurando boas músicas. Além disso, as irmãs se unem com a icônica produtora e compositora Nija Charles – que é conhecida por trabalhar com alguns dos maiores nomes da indústria fonográfica, incluindo SZACardi B e Lady Gaga. O resultado é uma homenagem clássica e ao mesmo tempo contemporânea a um gênero que já vinha se saturando no cenário mainstream, com uma revisitação poderosa ao fin de siècle.” – TN

9. FUTURE NOSTALGIA, Dua Lipa

Dua Lipa prova que veio para ficar – e que está pronta para fazer parte das A-Lists da esfera musical. Ao longo de onze canções unidas em um mesmo pano de fundo e convergindo para uma homenagem aplaudível àquilo que a inspira desde sempre, a cantora representa uma urgência coletiva, um pastiche cultural que é canalizado sem qualquer presunção (e era de se esperar que alguém recuperasse a união de vários segmentos, visto que há tempos não víamos isso com tanta expressividade no panorama geral). “Cool”, por exemplo, exala as repetições clássicas de bandas como Pearl Jam e mostra como alinhar os acordes retumbantes da bateria eletrônica e os bruscos cortes antes de voltar ao seu escopo onírico; “Physical” faz uma impactante e sexy declaração de amor a Olivia Newton-John e nos convida para dançar como se não houvesse amanhã; e “Break My Heart”, último single divulgado, deixaria Diana Ross muito orgulhosa.” – TN

8. SET MY HEART ON FIRE IMMEDIATELY, Perfume Genius

O álbum conceitual Set My Heart on Fire Immediately é a produção mais ousada do ano – e um bastante prático quando se trata da exuberante carreira de Perfume Genius. Sua quinta incursão fonográfica não abre portas para um ou outro gênero musical, mas sim para dezenas de esferas que variam do art rock até o art pop, passando até mesmo pelo R&B e pelo pop acústico nesse meio tempo. Ao longo de 13 faixas, ele critica a si mesmo e ao feitio da arte, rebelando-se contra aquilo que o colocou no topo do mundo.

7. WHAT’S YOUR PLEASURE?, Jessie Ware

Jessie Ware fez um estrondoso e aplaudível retorno para o mundo da música com o lançamento de ‘What’s Your Pleasure’, seu quarto álbum de estúdio. Sua arquitetura requintada e a ressonância que criou com o hi-NRG e com o post-disco transformaram o que poderia ser uma produção qualquer em um escapismo de alta qualidade, pincelado com as conhecidas incursões semi-melancólicas e uma narcótica jornada arranjada com perfeição ao longo de doze faixas.

6. SAWAYAMA, Rina Sawayama

SAWAYAMA segue o caminho de revitalização da música mainstream e indie e equipara-se a tantos ótimos álbuns lançados em 2020. Rina, por sua vez, mostra-se como um nome que tem muito a oferecer nos próximos anos, talvez representando um futuro brilhante para a esfera fonográfica: suas habilidades criativas são invejáveis e aplaudíveis em todos os sentidos – conseguindo enterrar os poucos deslizes do álbum em performances implacáveis.” – TN

5. CHROMATICA, Lady Gaga

“O pecado de Lady Gaga é nos deixar querendo por mais – e talvez esse pecado seja expurgado em um piscar de olhos, seja quando nos deliciamos com a envolvência gritante de “Enigma”, com a viciante balada desconstruída “Sine From Above”, proferida ao lado de Sir Elton John (e a melhor colaboração do álbum, indiscutivelmente), ou com a elegíaca house pop que ganha forma com “1000 Doves”. E, em um complementar ápice, “Babylon” é uma conclusão sem quaisquer defeitos que nutre de similaridades progressivas com as icônicas produções dos anos 1990, apesar de pincelá-las com um dêitico coro gospel que não poderia ter vindo em melhor hora.” – TN

4. FOLKLORE, Taylor Swift

“Swift foge do escapismo e, ao mesmo tempo, retorna a ele: as impalpáveis texturas que delineia se distanciam de um teatralismo exacerbado, acompanhando de perto uma “humanização” que, mais que nunca, faz-se necessária. “Cardigan”, o carro-chefe do álbum, é uma crítica quase sociológica e hierárquica, guiada pelas notas lo-fi do piano que, numa rápida busca pela discografia da artista, quase nunca foi usado. De fato, Taylor sempre teve em mente construções mercadológicas, essencialmente voltadas para a compra em massa. Folklore renega tudo o que ela já foi e o que é, mas não a deixa de lado por completo, escolhendo mostrar um lado visto com brevidade em incursões menos conhecidas.” – TN

3. GOOD NEWS, Megan Thee Stallion

“Girls in the Hood”“Don’t Stop”“Body” são apenas algumas das incríveis faixas que Megan Thee Stallion constrói para sua estreia fonográfica, Good News. A rapper fez um barulho gigantesco logo em sua primeira incursão, reunindo toda a confiança e toda a sensualidade que a colocaram no centro dos holofotes e no topo das paradas. Stallion encontra todos os elementos certos e um terreno mais que fértil para fazer o que bem entende – e para celebrar o empoderamento feminino do modo mais explosivo possível.

2. ROUGH AND ROWDY WAYS, Bob Dylan

Rough and Rowdy Ways é uma narrativa que transcende o que se entende e o que se entendeu por música nas últimas décadas. Assim como Apple e seu mais recente lançamento (que alçou voo para o patamar de melhor álbum do ano), Dylan não se restringe apenas a um método de contar o que deseja e o que precisa; pelo contrário, ele tem uma necessidade intrínseca e inalienável de juntar investidas artísticas diversas e bastante abrangentes em um único lugar, fugindo do canto e optando diversas vezes por apresentações faladas – como “Crossing the Rubicon”, que premedita a epítome formada por “Key West” e por “Murder Most Foul”.” – TN

1. FETCH THE BOLT CUTTERS, Fiona Apple

“A verdade é que Fetch The Bolt Cutters vai muito além de uma simples resenha ou de algo que ouvimos apenas para passar o tempo: o novo álbum de Fiona Apple atravessa quaisquer preceitos engessados que já carregávamos da indústria musical, destroçando-os em mil pedacinhos e reorganizando-os em um romance, um thriller, um drama, cujas páginas são pequenas e suntuosas caixinhas de surpresas. Mais do que isso, este é um dos poucos casos que entrega muito mais do que promete: iniciando com um irreverente estrondo e terminando com um estrondo ainda mais espetacular.” – TN

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