Ghostbusters – Mais Além estreou hoje nos cinemas do Brasil e pelo mundo. O filme é a continuação direta das amadas aventuras da década de 1980 e conta oficialmente como a terceira e tardia parte planejada para estrear após 1989, mas que por três décadas nunca saiu do papel. Todo o elenco original (bem, os que ainda estão vivos) retorna para uma muitos esperada (e adiada) passagem de bastão. O foco do novo filme não são os veteranos que aprendemos a amar nestes 37 anos (hoje todos na casa dos quase 70 anos de idade), mas sim na nova geração, pegando carona no estilo de filme que era muito popular nos anos 80: aventuras protagonizadas por crianças e pré-adolescentes. Stranger Things, programa extremamente popular da Netflix, se banha nessa fonte para atingir seu sucesso.

Para entrar no clima da tão aguardada nova aventura que resgata não apenas a franquia em toda a sua glória, mas também o espírito dos anos 80, resolvemos revisitar o clássico absoluto que deu origem a tudo e voltar para 1984. Portanto, pegue sua mochila de prótons, reúna a turma e se prepare para voltar a caçar fantasmas por uma viagem incrivelmente nostálgica. Confira abaixo.

É muito interessante pensar em como algumas obras atemporais influenciaram outras que se tornaram igualmente icônicas. E pensar que sua existência está inteiramente atrelada a esta anterior. Veja o caso de Indiana Jones, por exemplo, cuja existência remete diretamente ao fato do diretor Steven Spielberg querer dirigir uma aventura do espião 007 no cinema. George Lucas, seu colega, então criou algo “nos mesmos moldes” para Spielberg deixar tal desejo de lado. Com Os Caça-Fantasmas, um dos filmes mais queridos e lembrados dos anos 80 o mesmo ocorre. Foi o desejo do cineasta Ivan Reitman em adaptar ao cinema uma história de comédia, fantasia e ficção científica que o levou até esta superprodução. Acontece que Reitman, na época, estava tirando do papel sua própria versão de O Guia do Mochileiro das Galáxias em 1982, com três roteiros escritos pelo criador Douglas Adams. O curioso é que Reitman já visava Bill Murray e Dan Aykroyd para os papeis principais. O tal projeto caiu por terra e Reitman embarcou em Os Caça-Fantasmas.



A ideia, é claro, surgiu da mente do ator Dan Aykroyd, um verdadeiro aficionado por fantasmas, assombrações e o sobrenatural. A história original alucinada de Aykroyd, no entanto, era algo quase intransponível para as telas. Vejam só: inicialmente, a trama se passaria no futuro, onde os caçadores de fantasmas seriam uma instituição governamental em pleno funcionamento, como a polícia ou os bombeiros. Esses profissionais estariam espalhados em suas bases por todo o país e inclusive fora do planeta, com aventuras intergalácticas e pelo tempo (como De Volta para o Futuro). Essa “viagem alucinógena” logo tratou de ser lapidada pela Columbia Pictures (Sony), estúdio responsável por comprar o roteiro, que trouxe Ivan Reitman e Harold Ramis para centrar a história no chão e criar algo em menor escala. Segundo os mesmos, se não tivessem mexido a produção custaria algo em torno dos US$300 milhões, mesmo em 1984.

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Outra mudança foi a opção por uma história de origem, elemento trazido pelo diretor Reitman. No texto de Aykroyd, a primeira cena já mostraria o carro dos Caça-Fantasmas saindo do prédio para combater assombrações, com os heróis já estabelecidos. Reitman acreditava que uma conexão maior com o público seria criada se fosse mostrado em tela como tudo começou para estes caras. O título foi outro entrave para a produção. Além da dúvida por títulos similares, como “Ghost Smashers” (opção de Aykroyd), “Ghost Stoppers” e “Ghost Blasters”, quando finalmente decidiram por “GhostBusters”, os realizadores tomaram conhecimento da pior maneira que o nome já havia sido registrado anteriormente e ali se iniciou uma verdade batalha jurídica para assegurar a marca.

O registro de tal título pertencia a um seriado cômico de 1975, que tentava pegar carona em sucessos macabros como A Família Addams e Os Monstros, mas que durou apenas uma temporada de 15 episódios. Produzido por Lou Scheimer, o sujeito que eventualmente criaria o estúdio de animação Filmation (responsável por variados sucessos dos anos 80, como He-Man), o programa seria transformado numa série animada de mesmo nome em 1986 (no Brasil conhecida como Os Fantasmas). Essa é a razão pela qual muitas crianças da década de 80 se confundiam ao perceber dois desenhos de Ghostbusters na época. A animação baseada no filme Os Caça-Fantasmas precisou ser batizada de “The Real Ghostbusters” pelos produtores do programa. Ambas estreavam em 1986.



Esse é outro ponto curioso sobre o resultado do filme original de 1984. A produção era direcionada ao público adulto, e o elenco e os realizadores ficaram muito surpresos ao descobrirem que as crianças haviam embarcado totalmente no conceito – percebendo o longa como “cientistas combatendo inimigos sobrenaturais com armas futuristas legais”. Foi este novo público descoberto após o lançamento do original que levou ao desenho animado dois anos depois, e que fez a continuação Os Caça-Fantasmas 2 (1989) eliminar elementos adultos, como cortar o cigarro dos personagens, algo muito visível no original. Particularmente, o fator que mais chama atenção no filme para este que vos fala é a veia do empreendedorismo que aborda, quando três sujeitos perdem seus empregos e decidem investir todo o seu dinheiro em iniciar seu próprio negócio – que dá muito certo, se tornando sensação da noite para o dia.

Outro filme que teve forte influência na criação de Os Caça-Fantasmas foi Os Irmãos Cara de Pau (1980), sucesso da Universal Pictures. Explico. Com o sucesso de tal filme, os protagonistas Dan Aykroyd e John Belushi (que já haviam trabalhado juntos na comédia de Spielberg, 1941 – Uma Guerra Muito Louca, em 1979) se tornaram amigos e seguiram para estrelar Estranhos Vizinhos em 1981. Desta forma, quando Aykroyd pensou no roteiro de Os Caça-Fantasmas, não teve dúvidas ao criar o personagem do cara de pau Peter Venkman para o amigo. Enquanto escrevia o roteiro, no entanto, o pior aconteceu e Belushi viria a falecer vítima de overdose de drogas em 1982 – antes do filme sair do papel. No entanto, podemos considerar que Belushi ainda está no filme, já que o ator glutão e aloprado foi a inspiração para um dos maiores símbolos da franquia, o fantasma esverdeado “Slimer” (Geleia no Brasil). Nos bastidores, Aykroyd só se referia à criatura como “o fantasma de John Belushi” (em especial em seu personagem de Clube dos Cafajestes, 1978).

Assim começou uma busca para o papel protagonista de Venkman, lacuna deixada aberta após a morte de Belushi. Diversos atores foram cogitados e oferecidos o papel. Tom Hanks e Robin Williams foram cogitados, e Steve Guttenberg recusou o papel para ir estrelar Loucademia de Polícia, lançado no mesmo ano (com o ator retornando para três das continuações). Outros que recusaram foram Chevy Chase (Férias Frustradas), argumentando que o roteiro filmado não foi o original, que ele recusou, por ser bem mais sombrio e assustador; e Michael Keaton (que um tempo depois estrelaria como Beetlejuice e Batman). Assim, o papel caiu no colo de Bill Murray. Porém, o comediante só aceitou com um acordo vinculado de que a Columbia teria que produzir o remake de O Fio da Navalha para ele estrelar (um projeto pessoal do ator). Ironicamente, lançados no mesmo ano podemos perguntar “quem é O Fio da Navalha na fila do pão” perto de Os Caça-Fantasmas, já que um se tornaria um sucesso imortal e outro seria varrido sem cerimônia para debaixo do tapete.

Com protagonista, diretor e co-protagonista (Aykroyd foi o único do elenco que sempre esteve a bordo) escolhidos, os outros membros do elenco começavam a tomar forma. Para o papel do cerebral Egon Spengler, Jeff Goldblum, Christopher Lloyd, John Lithgow e Christopher Walken foram cogitados, mas o papel terminaria nas mãos de um dos roteiristas do filme, o também diretor Harold Ramis. Finalizando o quarteto principal, o único Caça-Fantasmas negro da equipe, Winston Zedmore, havia sido criado tendo a sensação Eddie Murphy em mente – com quem Aykroyd havia trabalhado na comédia famosa do ano anterior Trocando as Bolas (1983). Murphy, por fim, terminou pulando fora do projeto para ir estrelar sozinho Um Tira da Pesada, lançado no mesmo ano e que o transformou num astro. Quando o astro saiu, Ernie Hudson foi contratado, porém, o papel foi substancialmente reduzido no filme, com o personagem se juntando à equipe após 40 minutos de exibição. Desde então, Hudson sempre manteve uma relação de amor e ódio com o personagem, sabendo o que deveria ter sido, e por vezes se define no papel como um “substituto de último minuto para Eddie Muprhy”.



Fechando o elenco principal, uma então jovem e desconhecida Julia Roberts fez teste para Dana, personagem que eventualmente terminou nas mãos de Sigourney Weaver; e o vizinho inconveniente Louis Tully teria as formas do bonachão John Candy – que queria cria-lo com um sotaque alemão. Como sabemos bem, o personagem ficaria eternizado nas formas do baixinho Rick Moranis.

Os Caça-Fantasmas foi lançado no dia 8 de junho de 1984 nos EUA, chegando ao Brasil no dia 20 de dezembro do mesmo ano. Naquele fim de semana, o filme enfrentaria a concorrência dos então reis do ranking Jornada nas Estrelas 3 – À Procura de Spock e Indiana Jones e o Templo da Perdição, e outra estreia de peso com Gremlins. Mas não teve para ninguém naquela semana. Os Caça-Fantasmas foi o líder absoluto das bilheterias e permaneceria em primeiro lugar durante todo os meses de Junho e Julho, sem dar chance para outros ícones queridos da época como Karatê Kid, Conan – O Destruidor, O Último Guerreiro das Estrelas e A História Sem Fim.

Os Caça-Fantasmas se tornaria a comédia mais rentável do cinema até a estreia de Esqueceram de Mim em 1990, o trigésimo segundo filme de maior bilheteria de todos os tempos (reajustando os valores da inflação) e a maior bilheteria da Columbia Pictures de todos os tempos – novamente reajustando os valores da época.

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