O mercado editorial brasileiro foi agitado nos últimos dias por conta de uma thread no Twitter envolvendo leitores de diversas partes do Brasil e um dos maiores grupos editoriais do país, o Grupo Record, que este ano completa 80 anos de existência. Na mesma semana em que a editora recebeu algumas estatuetas do mais importante prêmio literário do país – o Prêmio Jabuti–, na internet uma treta se desenrolava, e acabou ganhando repercussão internacional.

Tudo começou, na verdade, em uma outra thread na mesma rede social, em que leitores estavam (novamente) debatendo sobre a autorização e a legalidade da pirataria de livros. Então, uma das editoras do selo Galera Record – selo jovem adulto do grupo editorial, responsável pela publicação de enormes best-sellers mundiais que já até viraram ou vão virar séries e filmes, como Eoin Colfer (‘Artemis Fowl’), David Levithan (‘Dash & Lily’), Cassandra Clare (‘Cidade dos Ossos’), dentre outros – resolveu se manifestar, dizendo que não iria comentar nada e que estava apenas acompanhando tudo quietinha. Mas então, um seguidor deu uma resposta pesada, em que comparava os leitores que pirateiam livros a criminosos, como racistas e estupradores, dizendo que “todo criminoso tem uma justificativa, né. O estuprador não queria estuprar. O racista não queria matar. O ladrão não tem dinheiro para comprar. Se tem crime tem alguém passando pano”. A coisa toda poderia ter parado aí, com esse comentário sem-noção do seguidor feito no perfil pessoal da editora Rafaella Machado, da Galera Record, porém Rafaella resolveu se manifestar, e respondeu “pirataria culposa kkkk”, fazendo analogia ao julgamento do empresário André Camargo, que alegou “estupro culposo” na acusação feita pela blogueira Mariana Ferrer. O tweet foi apagado mais tarde do mesmo dia.



Foi o que bastou para que os leitores – que já andavam insatisfeitos com a qualidade dos livros produzidos pelo selo – jogassem a coisa toda no ventilador. Pior ainda: na internet.

Mas há um detalhe importante nessa história: Rafaella Machado, além de editora do selo Galera Record, é também uma das donas e herdeiras do Grupo Editorial Record.

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Os leitores, então, se uniram numa thread sem fim no Twitter e resolveram traduzir suas reclamações para o inglês e postar tudo nas redes sociais, pedindo para que as pessoas retuitassem até que a thread chegasse aos “ouvidos” de seus autores favoritos. A lista de reclamações engloba desde defeitos de fabricação (livros com páginas faltando, capítulos duplicados, páginas mal cortadas ou sobrando papel, etc); a erros de editoração e diagramação (sumiço de travessões que deixa espaço entre as palavras, etc); a erros de revisão (palavras impressas em não concordância ao VOLP – vocabulário ortográfico da língua portuguesa); e o mais grave: erros de tradução. A treta inteira pode ser lida aqui:
https://twitter.com/bryceathalr/status/1332021977599647745


Especificamente sobre os tais erros de tradução, a coisa fica um pouco mais séria, podendo ser interpretada até como racismo e homofobia. Os leitores dão exemplos comparando o mesmo livro lado a lado, em inglês e em português, em que no original em inglês do livro de fantasia ‘Cidade da Lua Crescente’, da escritora Sarah J. Maas pode ser lido “But it didn’t stop her from sneaking away for a good twenty minutes with a broad-chested Fae male who took in the dark brown skin, the exquisite face and curling black hair”, mas em português se tornou “Mas aquilo não a impediu de sair furtivamente com um musculoso macho feérico, que se encantou por sua pele cor de caramelo, o rosto primoroso, o encaracolado cabelo negro”. Embora “dark brown skin” devesse ser traduzido como “pele marrom escura”, o livro publicado optou pela alternativa “cor de caramelo”, embranquecendo, assim, o tom de pele da personagem.



Para entender melhor como funciona o processo de edição, ainda que o tradutor do livro tenha usado esse termo no seu arquivo traduzido, o texto ainda passa por pelo menos um revisor (às vezes três), cuja função é justamente observar se os termos escolhidos correspondem na língua original, se a ortografia está correta, se há erros de digitação etc. Depois da revisão, o texto final deveria passar para o editor chefe, que deveria ler o arquivo final para publicação, e, dando o seu ok (mediante a publicação), o editor se responsabiliza, dessa forma, pelo produto enviado ao mercado. O que acontece na prática, em muitas editoras, é que o tradutor tem um prazo mínimo para traduzir (sempre pra ontem, quase nunca dá para reler o que se faz), o revisor apenas passa o olho, confiando na competência do tradutor, e o editor quase nunca consegue ler o livro antes de ser publicado. E os prazos de produção vão ficando cada vez mais curtos, pois os fãs querem os lançamentos na mesma época que os livros são lançados no exterior, e, para minimizar as chances de pirataria, as editoras acabam encurtando o tempo de produção editorial – o que, por consequência, aumenta as possibilidades de erros na impressão, afinal, a pressa é a inimiga da perfeição.

Em outro caso, uma leitora aponta o fato de em outro livro – da franquia ‘Os Instrumentos Mortais’, de Cassandra Clare, que já veio ao Brasil na Bienal do Livro de São Paulo, trazida pela própria editora Record em parceria com o evento – um vampiro de nome Raphael tem sua sexualidade trocada – de assexual para hétero. No original, lê-se “I’m not gay’, said Raphael. ‘I’m not straight. I’m not interested” e no livro em português o leitor encontra “Eu não sou gay – falou Raphael. – Sou hétero. Não estou interessado”. Se a omissão do vocábulo “não” na tradução final foi um erro ou escolha, não se sabe, mas a não inclusão dessa palavra no livro transformou todo o sentido do texto para os fãs.

A lista de queixa dos leitores, feita toda em inglês, ganhou tanta força que já na quinta-feira alguns autores começaram a se manifestar nas redes sociais, como Angie Thomas (‘O Ódio Que Você Semeia’) e Colleen Hoover (‘É Assim Que Acaba’), e, embora fosse feriado de Ação de Graças nos Estados Unidos, disseram estar desapontadas com a qualidade dos livros oferecidos pela editora e que iam entrar em contato com seus agentes para tomar as decisões cabíveis, agradecendo aos leitores por alertá-las sobre o ocorrido.



Ao longo dos dois dias seguintes, a thread só ganhou mais força no meio editorial, ao ponto de nesse sábado a própria Galera Record se manifestar no Twitter, dizendo-se aberta às alegações dos leitores e pedindo desculpas pela postura da editora em seu perfil pessoal. Além disso, a editora anunciou que enviou a tradução de ‘Cidade da Lua Crescente’ para uma leitura sensível por uma especialista (leitura sensível é quando o texto é submetido a alguém que tem experiência de vida ou social em um determinado tema, para saber se os termos, opiniões ou episódios narrados em um texto condizem com a realidade ou se ofendem a um determinado grupo social) e que a partir de agora não só irá submeter todas as suas traduções a leituras sensíveis de especialistas, como também irá rever traduções de edições antigas. A declaração inteira pode ser lida aqui: https://twitter.com/galerarecord/status/1332716181237665792?s=19

Embora esse feedback da editora Galera Record ter sido autoconsciente e maduro – afinal, estamos todos em processo de aprendizagem e mudança, e o papel de uma editora é, acima de tudo, formar leitores – não se sabe ainda o tamanho do impacto que essa tread terá não só na publicação desses best-sellers no Brasil, mas no meio editorial como um todo, uma vez que o selo é responsável pela publicação da maioria dos livros de literatura jovem e jovem-adulta do país.



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