Deuses vorazes, sedentos por idolatria em uma América incrédula pautada por seus próprios ídolos contemporâneos. A tumultuada e digladiante jornada dessas figuras mitológicas folclóricas de American Gods encontrou em si mais batalhas do que dentro de sua própria jornada fictícia, com a série da Starz e da Amazon Prime Video enfrentando uma sucessão de perrengues que quase lhe custaram um trágico fim. Mas tão obstinado como seus próprios personagens, Neil Gaiman se agarra à sua adaptação com unhas e dentes e toma todos pelas mãos (público e equipe técnica), em uma 3ª temporada que muito mais do que corrigir os erros do passado, volta a caminhar vigorosamente com ritmo, dinamismo e foco.

American Gods passou por poucas e boas. Com uma temporada inaugural visceral e hipnotizante, a produção nos conquistou por seu timing narrativo, que resgata a aclamada obra lançada em 2001, com um frescor novo que retrata clinicamente a sociedade de vícios e idolatrias contemporâneas com a qual vivemos. Mas se perdendo drasticamente em seu segundo ano, após a troca de seus showrunners e a saída das excepcionais atrizes Kristin Chenoweth e Gillian Anderson, a produção se aterrou em uma perdida e cíclica epifania. Com sua trama paralisada e confusa, seus oito últimos episódios se afogam em uma belíssima fotografia e direção autoral, em uma trama exaustiva, repetitiva e prolixa. Nunca deuses tão cheios de “querer ser” tiveram tão pouco a oferecer ao público.

Mas mesmo após contratempos que envolveram até duras acusações de racismo, a produção que mescla drama, ficção científica e fábula não desistiu de si mesma e sabendo de seu enorme potencial, volta a projetar seu foco na obra de Gaiman, trazendo-o ao lado de Charles “Chic” Eglee (Dexter, The Walking Dead), o novo nome por trás da série. E nessa 3ª temporada, rapidamente sinalizamos uma mudança de tom. Se desmembrando de mais outros personagens também deixados para trás (New Media – Kahyun Kim; the Djinn – Mousa Kraish; Mad Sweeney – Pablo Schreiber; e Mr. Nancy – Orlando Jones), o novo ciclo volta a ficar em Shadow Moon e em Mr. Wednesday, à medida que abrange seus demais coadjuvantes, lhes garantindo o valor que lhes fora tirado no ano anterior.



Reconhecendo os erros estruturais que custaram muito dinheiro e uma péssima segunda temporada, Eglee e Gaiman assumem a responsabilidade do tenebroso passado, com o compromisso de construir um futuro melhor para a série. Conectando os novos episódios a poucos dos eventos apresentados em 2019, a dupla de showrunners se ocupa em não se vincular tanto à narrativa da 2ª temporada, sabendo que dali quase nada pode ser aproveitado. E a contar pelos quatro primeiros episódios já assistidos, é notável e seguro dizer que American Gods mudou a sua rota e passa a caminhar a passos mais firmes e consistentes, dando aos seus atores a chance de brilhar tanto como seus personagens assim o fizeram ainda em 2001, no auge do lançamento da obra original.

Mais eletrizante e objetiva, a série retorna vigorosa, com a certeza de que o hiato de mais de um ano lhe fez muito bem. Ainda custando a dar maior celeridade para a tão comentada guerra entre velhos e novos deuses, American Gods pode ser ajustada nesse aspecto, com maior destreza narrativa, mas já supera seu passado de maneira grandiosa. Com Ian McShane fazendo um espetáculo logo nos primeiros episódios, a produção mostra em seu início que ainda há muito a ser dito e compartilhado com a audiência.

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Lindamente produzida e pautada pela mesma poética fotografia que abusa do efeito slow motion, a 3ª temporada é mais sangrenta, diversificada e soube cortar as barrigas que tornaram a trama tão lenta e cansativa. Expandindo sua trama com o auxílio de pequenos novos personagens de apoio, American Gods começa a trazer mais da essência de Neil Gaiman consigo mesma, recupera a nossa fé – em seus primeiros quatro episódios – e resgata o entusiasmo por essa tão falada guerra que, embora custe a chegar, agora começa a fazer valer a pena o nosso tempo.

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