Primeiras Impressões | ‘American Horror Story: 13’ é um grande amontoado de fanservices sem sentido

Atenção: o texto a seguir discorre sobre os três primeiros episódios da temporadas.

‘American Horror Story’ se tornou uma das produções mais populares da televisão contemporânea desde sua estreia em 2011 com uma iteração que mostrou que o gênero do terror ainda tinha coisas novas a nos contar. Criada por Ryan Murphy e Brad Falchuk, a antologia uniu horror, suspense erótico e drama psicológico em uma expressiva narrativa fantasmagórica que se transformaria em uma das séries mais aclamadas da década passada – com incontáveis prêmios coletados ao longo de suas primeiras quatro temporadas. Porém, é notável que a saga vem passando por uma triste fadiga criativa, seja com o sórdido exagero de ‘American Horror Story: Cult’, a esquecível narrativa psicossexual de ‘American Horror Story: NYC’ e a bufante nostalgia de ‘American Horror Story: Apocalypse’ – apenas a encargo de exemplificação.

Três anos depois da estreia da última iteração, ‘American Horror Story: Delicate’, que nos surpreendeu pelo trabalho não só de Emma Roberts e Kim Kardashian, mas por se afastar do visceral teor dos ciclos predecessores, Murphy e Falchuk uniram forças para uma aguardada reunião entre alguns dos personagens mais icônicos desse panteão antológico com ‘American Horror Story: 13’. Trazendo nomes como Jessica Lange, Sarah Paulson, Evan Peters e muitos outros de volta em uma homenagem às grandes temporadas da série, a narrativa tinha tudo para começar com o pé direito – mas se transformou em um amontoado de pulsões sem sentido que denota uma possível necessidade da atração de se reinventar.

Os três capítulos iniciais desta nova e arrepiante jornada dão o tom do que podemos esperar – uma conspiração sobrenatural envolvendo o número treze que acompanha o traumatizado cuidador Ben DeSoto (Joey Pollari), que sofre de triscaidecafobia e que se vê assombrado pela razão de seu medo após perder a namorada em um trágico acidente de avião e ser contratado para supervisionar Sr. Nas (Fedor Steer), um idoso em estado terminal que está sob os cuidados de Constance Langdon (Lange) e o excêntrico Dr. Phibes (John Waters). O que Ben não sabe é que segredos obscuros começam a se desenrolar não só na imponente residência do Sr. Nas, mas no frágil véu que separa o mundo terreno do mundo espiritual – com implicações agourentas e catastróficas que envolvem inclusive a poderosa bruxa Suprema Cordelia Goode (Paulson) e suas pupilas da Academia Miss Robichaux para Moças Excepcionais.

Não seria nenhuma surpresa que as decisões criativas da temporada tenham passado por mudanças drásticas desde a concepção da temporada – que, de acordo com rumores, contaria com apenas seis episódios que foram destrinchados em sete a mais para dialogar com o título da iteração. Assim, o trio inicial de capítulos desenvolve-se em corridos trinta minutos de duração (o último com apenas 22), nos arremessando a uma mixórdia sem sentido de núcleos que nunca conseguem dizer o que querem – e que ainda incluem uma breve e inexplicável aparição de Twisty, o Palhaço (John Carroll Lynch) e de Elizabeth Short, alcunhada de Dália Negra (Mena Suvari).

Murphy e Crystle Roberson Dorsey, que dividem a função diretorial, promovem uma estética bastante familiar à antologia e que nos leva de volta ao espetáculo propositalmente bizarro de ‘American Horror Story: Murder House’ e ‘American Horror Story: Asylum’, arquitetando sequências movidas a planos holandeses e ângulos obtusos que refletem (ou menos tentam refletir) a agourenta atmosfera narrativa. Em meio a escolhas contundentes e inescapáveis, Lange desponta como o maior destaque performático, fazendo um glorioso retorno à série – e a primeira aparição desde ‘Apocalypse’, com seu conhecido sotaque sulista e sua ambígua e mortal personalidade vingativa e superprotetora.

Todavia, nem mesmo a aclamada atriz tem força suficiente para ofuscar os múltiplos deslizes da temporada, que se amontoam em uma bola de neve incontrolável e duradoura – a começar por fraquíssimos diálogos que, em vez de se apoiarem nas sutilezas narrativas, mastigam simbologias cansativas e explicações desnecessariamente redundantes acerca do número treze e das teorias conspiratórias que cerceiam o arco de Ben (um protagonista que, na verdade, não tem muito a nos dizer quando colocado ao lado dos outros personagens).

A mitologia da temporada tem um pequeno resquício de originalidade em um aspecto tão pontual que, em meio ao didatismo incoerente promovido por Murphy e Falchuk, some quase sem deixar rastros – destinando-se ao imponente Apollyon, hotel em que o Sr. Nas vive. O nome do edifício funciona como transcrição grega de Abaddon, um dos reis do inferno que comanda um exército de gafanhotos e cujo chamamento significa “destruidor” – o que já pode nos revelar, ainda que em hipóteses não concretizadas, o que a figura de Nas representa.

‘American Horror Story: 13’ tem um início muito aquém do esperado e mais funciona como um grande compilado de fanservices do que uma história que vale a pena ser acompanhada – atirando para todos os lados em uma profusa seleção de núcleos narrativos e impedindo que seu elenco estelar brilhe como deveria.

Lembrando que os próximos episódios chegam ao Disney+ no dia 1º de outubro.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.