Crítica | ‘Pequenas Tragédias’ – Uma ‘mágoa trip’ sobre ressignificados

Estava curioso para assistir a Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco. Um filme que foi exibido no Festival de Brasília dias atrás e ganhou uma sessão na noite da última quinta-feira (24), no Cine Belas Artes, durante a programação do CineBH. Uma obra claramente sobre ressignificados, que faz rir e emocionar, guiado por um background detalhista que transforma a mágoa em possibilidades.

Integrante da mostra vertentes, dedicada ao cinema contemporâneo, o projeto apresenta, com louvável coragem, um livro aberto de passagens marcantes da vida do próprio diretor, durante o tempo em que morava na cidade de Catalão, em Goiás. Nessa abertura da caixa-preta de memórias, pega toda a sua mágoa e sentimentos engasgados e os transforma em um filme com algumas interessantes soluções criativas – algumas delas divididas abertamente com o público – sempre à procura de respostas para perguntas não respondidas.

Dividido em alguns atos, que buscam criar um sentido para tudo o que acompanhamos, é como se Nolasco sentasse em um divã e começasse a conversar com o público, jogando pra fora o que está engasgado. Das situações no primeiro emprego, passando pelas amizades verdadeiras, chegando às ameaças e à violência que se aproximavam, apontando um cúmplice por omissão, até o último adeus a um alguém importante em sua vida, o roteiro, assinado pelo próprio diretor, coloca os pingos nos is, revelando, sempre que possível, e metendo o dedo nas feridas que não esqueceu, usando as possibilidades da linguagem cinematográfica como um escudo.

Para tal, a narrativa, que funciona em um primeiro momento muito bem, encontra um novo sentido para o tragicômico, pegando a cidade como personagem e o narrado encenado, com o objetivo de criar um constante movimento que prenda a atenção: ressignificando as dores e escancarando os prazeres. Muitas vezes debochado, tem o mérito de desbravar as ideias pensadas com a coragem que todo bom cineasta precisa ter.

Entretanto, nos últimos atos, o filme perde demais sua força, se deixando levar pelo descontrole no caminho da melancolia e, principalmente, não sabendo como lidar com a situação que ganha mais evidência: a partida de um amigo. Nesse ponto, o íntimo não consegue tradução, e as soluções criativas de outrora se diluem em uma dispersa tentativa poética de, mais uma vez, ressignificar, dessa vez, o contexto do último adeus.

Pequenas Tragédias deve chegar em breve aos cinemas. Veja e tire suas próprias conclusões, prestigie o cinema brasileiro.

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Raphael Camacho
Raphael Camachohttps://guiadocinefilo.blogspot.com.br
Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.