Primeiras Impressões | Estrelada por Matthew Rhys, ‘O Segredo de Widow’s Bay’ já é uma das melhores séries do ano

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O texto a seguir discorre sobre os dois primeiros episódios da série.

Existe um tropo muito interessante em histórias de suspense e terror que envolve a escolha de uma pequena cidade insular ou interiorana que serve como pano de fundo para a trama e que lhe confere um caráter fabulesco e quase onírico – para o bem ou para o mal. E esse tropo não é restrito a produções literárias, mas aparece com constância inegável no circuito audiovisual: temos, por exemplo, a turbulenta Derry em ‘IT: A Coisa’, que serve como palco para o reino de terror de Pennywise; a isolada comunidade de Crockett Island na aclamada antologia ‘Missa da Meia-Noite’, de Mike Flanagan; e a agourenta cidade que empresta seu nome ao título da série ‘Castle Rock’, apenas para citar alguns exemplos.

Agora, chegou a hora de viajarmos para o litoral da Nova Inglaterra em mais um microcosmos ao mesmo fascinante e aterrorizante com ‘O Segredo de Widow’s Bay’. O novo terror cômico com toques de suspense do Apple TV é apenas mais uma sólida adição a um dos melhores catálogos de streaming dos dias de hoje e nos leva a uma pequena cidade insular cujo prefeito, Tom Loftis (Matthew Rhys), se recusa a acreditar nas incontáveis superstições que os moradores possuem – e que afirmam que o lugar é, por alguma razão, amaldiçoado.

Man seated at a wooden desk in an office, holding a brown folder close to his chest and looking at the camera.

Desde que assumiu o cargo, Tom sempre teve a ideia de investir no turismo de Widow’s Bay para colocar a isolada comunidade de volta ao mapa e, para tanto, convida um repórter do New York Times para escrever um artigo sobre os principais pontos do lugar. O problema é que, à medida que tenta “vender seu peixe” para o jornalista, Tom se vê no centro de acontecimentos misteriosos que vão desde um inesperado terremoto que corta a luz de boa parte das casas até uma misteriosa neblina que se apossa da ilha e que pode estar entrelaçado com o desaparecimento de um homem, aumentando as suspeitas de que, de fato, algo não está certo.

Porém, determinado a alavancar a economia de Widow’s Bay, Tom insiste que não há nada com o que se preocupar. Ora, nem mesmo os constantes e irruptivos avisos de Wick (Stephen Root), um dos maiores crédulos da maldição que paira sobre a comunidade, parece abalar a confiança de fachada que Tom exibe aos moradores – mas, no fundo, ele sabe que nem tudo é o que parece ser e que, talvez, Wyck tenha razão sobre o nebuloso futuro da cidade.

Responsável por criar a atração, Katie Dippold faz um ótimo trabalho não só em apresentar os principais núcleos da narrativa ao público e ao garantir que a figura de Tom seja complexa o suficiente para nos manter vidrados do começo ao fim, como em não demorar muito para começar a esquadrinhar a intrincada e singular mitologia da série. Afinal, como descobrimos, Widow’s Bay é palco de uma bizarra sequência de tragédias que datam de séculos atrás, desde atos de canibalismo até caça às bruxas e um serial killer – e, pouco a pouco, a ilha foi acordando para uma espécie de vingança colossal.

Acompanhada do diretor Hiro Murai e da roteirista Kelly Galuska, Dippold toma cuidado extra em acrescentar, pouco a pouco e de maneira surpreendentemente despojada, doses de uma ácida comédia que discorre sobre temas como a inalienável relação entre o indivíduo e o sistema do misticismo e das crenças como explicação para o inexplicável – em que o sentido se encontra no sobrenatural. Todavia, a showrunner brinca com esses conceitos ao exagerar de forma proposital no tratamento audiovisual, promovendo uma abordagem que envolve o público de imediato pelo próprio sarcasmo que usa.

Pouco a pouco, Tom mergulha em uma espiral de loucura que o consome à medida que mais segredos sobre a cidade vêm à tona – e que, de fato, algumas superstições podem ser verdadeiras. E isso não seria possível sem a presença magnética de Rhys em mais um ótimo papel de sua carreira, encarnando outro complexo personagem que é adornado com doses cômicas e dramáticas na medida certa. O astro é acompanhado de talentosos nomes que incluem Kevin Carroll como Bechir, o xerife local; Kate O’Flynn como Patricia, assistente pessoal de Tom; e Kingston Rumi Southwick como Evan, filho de Tom e com quem possui uma relação bastante atribulada.

Murai traz uma bagagem sólida de produções similares, mas tempera com uma estilização quase maximizada que, dentro desse frondoso escopo, funciona como deveria e nos deixa intrigados com o intrincado lore que se desenrola episódio a episódio. Contando com os incisivos diálogos que deixam a trama ainda mais suculenta e complexa, ‘Widow’s Bay’ já desponta como uma das melhores séries do ano e nos deixa ansiosos para saber o que vai acontecer.

Lembrando que o próximo episódio vai ao ar amanhã, 6 de maio.

Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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