Como em uma espécie de filme de terror da vida real, a puberdade é – obviamente – o hiato mais longo e doloroso da vida de alguém. Sob as pressões equivocadas de outros adolescentes, crescemos diante dos desconfortáveis olhares juvenis, das suposições de como deveríamos nos comportar entre amigos e dos hormônios…ah, os terríveis hormônios. Vozes mudam, os corpos se delineiam e de repente é como se um casulo se rompesse, nos projetando para fora do aconchego da inocência. Isso até os anos 90 e início dos anos 2000.

Diante de lentes que cabem na palma das mãos e uma imensidão de verdades, mentiras e hipóteses geradas na internet, crescer se tornou no mínimo…quase insustentável. E sobreviver a essa fase com uma certa sanidade é tão complexo como compreender Bhaskara, sabendo que pouco ou quase nunca ela será usada na sua vida. E Euphoria chega dilacerada e agressiva, expondo sem pudor como o simples crescer se tornou algo muito mais complexo e traumático. Preenchendo um vazio deixado por Skins, a série original da HBO traz de maneira crua e nua um relato doloroso sobre o quão vulnerável os millennials estão, diante desse universo impalpável e inesgotável que a internet trouxe para a adolescência.

Kids já apresentava isso muito bem. Em meio aos ano 90, um grupo de adolescentes se descobre da forma mais abusiva e doentia possível, contaminando suas almas, corpos e problematizando o resto de suas vidas. E assim já era difícil, em um tempo de calças saruel inspiradas em MC Hammer, calças cargo da TLC e Salt-N-Pepa e do bum da street music e do ghetto style – em uma época sem a explosão da telefonia móvel. Duas décadas depois, os nudes “são uma forma de demonstração de amor”, vide uma reflexão de Rue – personagem vivida por Zendaya, e tudo é registrado em imagens, que viajam em uma velocidade astronômica, corrompendo a inocência de adolescentes, em meio ao julgamento cruel e instantâneo de suas escolhas ruins.

E Euphoria parece caminhar justamente em direção à essência dessa nova geração, que transita entre a confusão hormonal, natural da idade, e uma série de complexos sociais impostos, desde o seio familiar ao âmbito escolar. Salientando que estamos diante de uma fase ainda mais frágil e doentia, a produção original da HBO trata sobre o fácil acesso à drogas e álcool, com pré-adolescentes se tornando pequenos traficantes para sustentar sua família, passando pela quase gourmetização desses vícios, diante de jovens arrogantes de classe média que – supostamente – deveriam ser menos suscetíveis a esse tipo de comportamento. Mas imersos em realidades familiares pouco saudáveis e ausentes, o grupo de protagonistas liderado por Zendaya se expõe à uma vida sexual ativa precoce, queima etapas importantes da adolescência e começa a cavar um futuro sombrio e obscuro.

Para garantir toda a autenticidade dessa narrativa, Sam Levinson adapta a produção israelense homônima (de Ron Leshem, Daphna Levin e Tmira Yarden) com qualidade fílmica de primeira. Abordando uma fotografia que explora as sombras e a luz baixa, ele de cara transmite o submundo millennial sob luzes vermelhas e arroxeadas das baladas, em maquiagens extravagantes que vulgarizam a beleza (ainda) inocente das meninas, capturando direcionadamente as sensações e percepções de Rue. E sob sua narração, nos imergimos na série de maneira intimista, como um público onisciente que percorre os pensamentos da protagonista, sente suas emoções e sabe exatamente o que ela está prestes a dizer. Ousada, a escolha desse tipo de narrador é desconfortável, por nos trazer perto demais daquilo que nossos olhos gostariam de desviar.

10 filmes de terror no Amazon Prime Video para fugir dos problemas…

Aproveite para assistir:

10 Séries de Comédia para Maratonar nas Próximas Semanas

Profunda e violenta, Euphoria é polêmica – como esperado. Sem colocar uma colher de açúcar no universo juvenil atual, ela até poderia beirar o grotesco, por trazer cenas de sexo gráficas e por mostrar de maneira didática os reflexos das drogas. Mas, de fato, ela é necessária. Sua perspectiva é o que pode nos fazer levar mais a sério alguns comportamentos chamados de teen drama. Trazendo elementos de Réquiem Para um Sonho e Trainspotting para uma geração jovem demais para saber que obras são essas, Euphoria é puramente reflexiva, assustadora e vai deixar a audiência mais atenta para esse grito de socorro ensurdecedor que os millennials não se cansam de externar, mas que ainda parece ser ignorado pelos adultos.

15 Séries da Netflix Para Maratonar

15 Séries da Globoplay Para Você Maratonar

15 Séries da Amazon Prime Para Maratonar neste mês

10 reality shows insanos pra você que amou The Circle e Casamento às Cegas

Não deixe de assistir:

SE INSCREVA NO NOSSO CANAL DO YOUTUBE