O gênero sci-fi vem ganhando espaço considerável no cenário do entretenimento nesta última década, desde as impecáveis produções do Apple TV, que incluem ‘Silo’, ‘Fundação’, ‘Matéria Escura’ e a vindoura adaptação de ‘Neuromancer’, além do sucesso imbatível de filmes como ‘Duna’, ‘Devoradores de Estrelas’ e ‘Alien: Romulus’. Expandindo-se para diversos tipos de narrativas, que misturam drama, comédia, ação e terror, é inegável dizer que as histórias de ficção científica continuam a encantar os cinéfilos e a crítica especializada – e, agora, está na hora de conhecermos mais uma produção que chega aos cinemas no próximo dia 13 de agosto e que recebeu o título de ‘O Fim da Rua’.
Toda a arquitetura do projeto bebe bastante da clássica franquia ‘Jurassic Park’ e nos apresenta à família Platt, formada por Denise (Anne Hathaway), Greg (Ewan McGregor) e pelos jovens Audrey (Maisy Stella) e Brian (Christian Convery). Passando por alguns problemas entre si e em relação aos vizinhos do bairro onde moram, a um tanto quanto monótona e complacente realidade desse núcleo vira de cabeça para baixo quando um evento misterioso os transporta de volta para o passado – mais precisamente, há 250 milhões de anos -, onde se deparam com imponentes criaturas pré-históricas que colocam um ponto de interrogação num futuro que… Bem, de alguma forma, já aconteceu.

Ao que tudo indica, todo o subúrbio onde moram foi, de alguma maneira, alvo de uma estranha força intangível que os trocou de lugar, como uma espécie de “buraco de minhoca” que tomou proporções gigantescas e que, agora, pode ser a única forma deles voltarem para o mundo que conhecem. Todavia, conforme enfrentam pterodáctilos, tiranossauros e velocirraptores – e desviam dos corpos de seus vizinhos que são reduzidos a tripas e a sangue pelas magnânimas criaturas -, os Platt percebem que, para saírem disso, precisarão ficar unidos e enfrentar medos inimagináveis para sobreviverem.
Se pararmos para pensar, o icônico universo assinado por Steven Spielberg, como mencionado dois parágrafos acima, é a principal fonte de inspiração, por mais que a ideia principal seja invertida. O diretor David Robert Mitchell, que causou impacto considerável com o lançamento do aclamado terror psicológico ‘Corrente do Mal’, em 2014, resolve explorar um outro cosmos cinematográfico e assina um enredo que volta a mostrar a pequenez da raça humana frente à natureza e aos “verdadeiros donos” do planeta, além de promover certos questionamentos sobre o que não se sabe sobre a vastidão inóspita do universo. Responsável também pelo roteiro, Mitchell constrói um thriller de ação com doses cômicas que permite que cada um dos personagens brilhe como deve, mas sem se render aos pedantismos do gênero e sem querer dar um passo maior do que a perna.

O cineasta não resume suas principais referências apenas a ‘Jurassic Park’, abrindo espaço para uma estilização cênica que opta por planos super close que isolam os protagonistas em seus próprios arcos e que, como podemos imaginar, serve de foreshadowing para a eventual comunhão de uma família disfuncional – cortesia da enervante fotografia de Michael Gioulakis. A princípio, essa decisão vem com certo desconforto, mas a ideia é justamente essa: causar a sensação de que algo não está certo e fomentar um crescente suspense que logo irrompe em sequências de ação que, em sua grande parte, funcionam.
Não é surpresa, pois, que títulos como ‘Cloverfield’, ‘Stranger Things’ e até mesmo ‘Contatos Imediatos de Terceiro Grau’ sejam homenageados e pincelem tanto a trama principal quanto as subtramas envolvendo a família Platt. Mais do que isso, o prestigiado compositor Michael Giacchino aposta nas fabulescas construções de John Williams em uma trilha sonora que seja nostálgica e inebriante, reiterando a atmosfera de suspense com um arranjo de cortas dissonante e explosões instrumentais que, apesar de muito familiares, funcionam dentro dos próprios limites.

O destaque também vai ao elenco: Hathaway e McGregor, dois dos atores mais versáteis do século, transformam esse thriller de sobrevivência em um singelo estudo matrimonial sobre sonhos, frustrações e amor que, imbuídos com sutilezas técnicas de Mitchell, podem não ser tão profundos quanto queríamos, mas dão ritmo e carga dramática ao filme. Funcionando tanto juntos quanto separados, ambos são acompanhados por Stella e Convery, que ampliam esse cosmos com seus respectivos arcos e convergem para um final que, mesmo previsível, não poderia ser diferente – e que mergulha na ideia de retcon da maneira mais despojada possível.
‘O Fim da Rua’ pode não ser um filme impecável e pode escorregar aqui e ali, mas o resultado é bem além do esperado, principalmente pelo talento nato que se reúne nas telonas. Mitchell mostra que tem a mão certa para explorar diversos gêneros do escopo cinematográfico e faz isso sem se valer de ambições vazias e com o objetivo de nos entreter ao longo de breves cem minutos de duração – conseguindo nos envolver do começo ao fim em uma pedida certa para um fim de semana mais parado.



