A indústria do entretenimento audiovisual tem um apreço significativo pelas obras de suspense e de terror – especialmente quando atreladas às dramédias teen das últimas décadas. Temos, por exemplo, a franquia ‘Pânico’, que continua se reinventando para a nova geração e que se tornou um clássico noventista com legado infindável; já nos anos 2010, tivemos um boom nas produções do gênero em questão, variando entre acertos, como ‘Histórias Assustadoras para Contar no Escuro’ e o ambicioso ‘Amizade Desfeita’, e erros, como o esquecível e problemático ‘7 Desejos’. É claro que tais incursões também marcaram presença no cenário televisivo e, em 2021, chegou a vez da Amazon Prime Video apostar fichas em um interessante projeto.

O Internato: Las Cumbres insurge em meio a duas grandes linhas da atualidade: a primeira delas são os constantes remakes promovidos pelos estúdios mainstream, como a Disney, de clássicos que merecem uma nova roupagem. Aqui, temos uma releitura da série homônima lançada em 2007 e que durou nada menos que três anos e sete temporadas, chegando ao fim em outubro de 2010 (e estrelada por Ana de Armas, de ‘Entre Facas e Segredos’ e ‘007 – Sem Tempo para Morrer’), que se mantém fiel à premissa original e centra suas múltiplas narrativas em um colégio interno que divide suas instalações com um antigo monastério medieval. Mais do que isso, ela se insere em um período dominado pelo melodrama adolescente das conhecidas ‘Élite’ e ‘Outer Banks’ – o que poderia levá-la a se respaldar em fórmulas bastante convencionais.



De que forma ‘Las Cumbres’, portanto, se afasta daquilo que conhecemos? Para ser bem honesto, não em muito. A estrutura narrativa segue os passos de sua predecessora e de tantas outras similares, estendendo-se ao longo de breves oito episódios que pecam tanto em ritmo quanto em originalidade. Valendo-se muito da química estonteante de seu elenco, a investida em questão é uma amálgama novelesca que diz pouco, deixando um desequilibrado roteiro guiar as altercações desnecessárias entre seus protagonistas e coadjuvantes em prol de vazia metáforas que engatam tarde demais. É claro que nem tudo se perde em meio a dissonantes cinquenta minutos por capítulo: a estética visual é de tirar o fôlego e consegue mesclar passado e presente ao arquitetar uma prisão sem grades que maltrata alunos, tratando-os como animais selvagens.

O arco principal é centrado em um pequeno grupo de jovens delinquentes que foram mandados para longe como forma de punição e de isolamento da sociedade – sem qualquer prospecto de melhora ou de reinserção. Mas não pense que tais críticas são promissoras; na verdade, elas são varridas para debaixo do tapete em prol de um desenrolar caduco de eventos incompreensíveis, ao menos até a metade da temporada. O público é apresentado à rebelde Amaia (Asia Ortega em uma atuação aplaudível), que, ao lado de Paul (Albert Salazar), Adele (Daniela Rubio Moreno) e Manuel (Carlos Alcaíde de Mula), planejam uma fuga de seus algozes e um recomeço bem longe dali.

É claro que as coisas não funcionam e, após enfrentarem forças demoníacas que se escondem na floresta, Manuel é raptado por uma figura encapuzada e medonha – que nunca mais dá as caras, ao menos nas quatro primeiras iterações. E a trama também se perde, deixada em segundo plano como se realmente não fosse importante conhecer mais sobre a mitologia que se esconde nas paredes da escola. Durante um tempo considerável (e mais longo do que deveria), somos trancafiados junto aos outros alunos em uma reverberação circinal de frustrações, mentiras e vinganças sem sentido que não acrescentam em nada para trama – exceto pelo conflito geracional e autoritário entre a arbitrariedade inflexível dos professores e a recusa inconsequente dos estudantes. Nesse quesito, cabe a Natalia Dicenta roubar nossa atenção como a cruel Mara, diretora do internato e uma das antagonistas mais potentes da televisão contemporânea que é ofuscada pelos múltiplos equívocos.

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Esquecendo-se de construir uma relação de causa e consequência, a série de Laura Belloso e Asier Andueza se lembra de apimentar as batidas tramas com certo misticismo ao matar uma garotinha da forma mais brutal possível: enforcada e com os dois olhos arrancados. Parte de um antigo ritual que deixa de ser explorado em prol do cansativo e tóxico relacionamento entre os adolescentes, as sequências consecutivas ao assassinato são mínimas e servem apenas de base para outros acontecimentos – como uma festa regada a álcool nas masmorras do colégio e uma espécie de fetichização sombria de torturas psicológicas e análises cruas sobre submissão involuntária e censura. São poucas as coisas que se salvam do clichê completo, seja numa inteligente alusão artística ou em uma proposital repetição alegórica – e talvez as coisas melhorem; porém, até então, nada parece contar algo novo ou fora da zona de conforto.

O Internato: Las Cumbres se apoia demais em seu elenco para ser levada a sério. Demorando para realmente abrir espaço para o que quer contar, o vagaroso ritmo e a falta de dinamismo são as âncoras que afundam a produção e a impedem de explorar um potencial que todos sabemos que existe – mas que não consegue se livrar de suas próprias algemas.



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