Primeiras Impressões | ‘Rick e Morty’ mescla ação e melancolia nos primeiros episódios da 9ª temporada

Ao longo de oito temporadas bastante elogiadas pela crítica e pelo público, ‘Rick e Morty’ permanece como uma das animações adultas mais populares da atualidade, apostando firme em questões filosóficas e antropológicas para firmar um universo niilista, vibrante e totalmente sardônico que conta com complexos personagens e uma estrutura semi-antológica que nos fisgou logo de cara. Mesmo com a saída do cocriador Justin Roiland do time criativo após alegações de assédio sexual, a qualidade da série sempre se manteve estável – vide a legião de fãs que continua angariando ao redor do planeta.

Agora, pouco mais de um ano desde a estreia da última temporada, somos convidados a retornar a esse cosmos sci-fi com o lançamento da nona iteração no catálogo da HBO Max – com os dois primeiros capítulos já disponíveis e o restante a ser liberado em caráter semanal. E, como era de se esperar depois dos impactantes eventos da leva anterior de episódios, o showrunner Scott Marder retoma as rédeas do projeto com narrativas totalmente despojadas e propositalmente exageradas, delineando cada trama apresentada com uma dose de humor ácido e de melancolia que nos relembra de gostarmos tanto dessa atração.

Intitulada “There’s Something About Morty”, a reestreia da série traz um dos personagens mais marcantes e complexos de volta: Morty do Mal (dublado por Harry Belden, assim como o personagem principal). Após ajudar Rick (Ian Cardoni) a derrotar seu nêmesis na temporada anterior, Morty do Mal continuou a entrar em contato com o brilhante e irônico cientista para lhe pedir ajuda em variadas missões – ameaçando-o com o Dispositivo Ômega, cujos projetos roubou da mente de Rick Prime, e afirmando que, em um estalar de dedos, ele poderia apagar de todas as realidades sua família. Morty, então, ao descobrir a parceria inesperada entre seu avô e sua versão maligna, decide acompanhá-los em uma aventura contra O Coletivo (Tilda Swinton), percebendo que as intenções do Morty do Mal são piores do que imaginava.

O capítulo em si, assinado por Albro Lundy e dirigido por Douglas Einar Olsen, é um grande pot-pourri do que ‘Rick e Morty’ já nos apresentou desde sua estreia – e tem início de maneira incisiva e frenética, mantendo esse ritmo por toda a história. Em meio a incríveis sequências de luta que se estendem para a batalha entre Rick e Morty do Mal (após o cientista trair a confiança do antagonista e levar sua família para uma realidade bunker) e a uma completa insanidade de cores, cortes e sons, é notável como Lundy e Olsen se mantêm firmes à estética clássica da série sem se valer de repetições ou de convencionalismos.

O segundo episódio, “Ricks Days, Seven Nights”, consegue ser ainda melhor que a estreia e vem acompanhado de uma letárgica dose de drama existencialista que apenas uma série como esta poderia nos entregar. Aqui, Rick é o centro da nossa história, mas de uma forma diferente: a trama se inicia com o cientista chegando a uma arena de boliche, reencontrando-se com amigos que nunca vimos e que o chamam pelo alter-ego de Ted. Não demora muito até descobrirmos que aquela é uma versão de Rick “para as férias”, em que ninguém o conhece de verdade e onde ele pode assumir uma roupagem mais simples, despreocupada e até mesmo altruísta (algo em que ele vem trabalhando nas últimas temporadas e que, aqui, representa um tristonho epítome do que ele poderia ou deveria ser).

Brian Kaufman, veterano diretor da animação, retorna para mais um espetacular capítulo que não apenas nos surpreende no depressivo e agourento tom através do certeiro roteiro de Jess Lacher, mas encontra uma solene preocupação estética que pega elementos de suspenses western e melodramas interioranos para construir um dos melhores arcos de Rick – recheado de reviravoltas potentes e de uma constatação cabisbaixa de que a realidade é dura, mas é inescapável. Remando contra as conhecidas resoluções anticlimáticas e cômicas da série, a segunda iteração chega ao fim de maneira abrupta e carregada de um amadurecimento que nos deixa consternados e imaginando o que nos aguarda nas próximas semanas.

A 9ª temporada de ‘Rick e Morty’ já se apresenta como uma das melhores da série e reitera o poder descomunal que uma das produções mais complexas e adoradas da atualidade tem de nos admirar. Entregando-nos dois episódios totalmente diferentes entre si, é notável como a essência da animação não foi perdida, e sim remodelada em um tour-de-force contínuo e muito envolvente.

Lembrando que o próximo episodio vai ao ar no dia 7 de junho.

author avatar
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

Notícias

Do Pior ao Melhor: 30 filmes vistos no Festival de Cannes 2026

A 79ª edição do Festival de Cannes coroou Fjord,...

Anna Kendrick irá dirigir a adaptação do best-seller ‘Os Sete Maridos de Evelyn Hugo’

Segundo o Deadline, Anna Kendrick ('A Escolha Perfeita') foi contratada para...
Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.