No livro Ironias da Modernidade, o teórico Arthur Nestrovski afirma que uma das características da arte no século XX é a metalinguagem: diversos filmes e livros homenageiam, fazem pastiches e paródias de outros filmes ou obras de artes como a pintura e a música.

Em O Artista, filme mudo e preto-e-branco, dirigido por Michel Hazanavicius, nós viajamos até a década de 20, adentrando no mundo do cinema mudo e os problemas advindos da tecnologia do cinema sonoro.


Talvez um dos melhores filmes de 2011, O Artista abarca as problemáticas que outros filmes clássicos já fizeram muito bem, como Cantando na Chuva e Crepúsculo dos Deuses, mas com toques especiais, sem apelar para o mais do mesmo: aqui, as performances são brilhantes, a direção de arte e fotografia impecáveis, a trilha sonora mágica e o roteiro bem elaborado.

O filme nos leva aos anos 20. George Valentin (o ótimo e sedutor Jean Dujardin) é um dos mais representativos atores do cinema mudo, estrelando diversos sucessos ao lado do seu cachorro Jack Russel. Queridinho das plateias, invejado por muitos, entra numa seara de depressão e cai no ostracismo ao não se adaptar aos ditames do cinema falado, tornando a sua vida um desastre.

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No lançamento do seu último filme, George conhece Peppy Miller, que ao sair nos jornais abraçando o ator, ganha notoriedade e é convidada a estrelar filmes sonoros, enquanto Valentin começar a decair. Peppy é uma jovem dançarina e aspirante a atriz que ganha toda a notoriedade da mídia. Ele até tenta produzir algumas coisas, insistindo no formato mudo, já desgastado e indesejado pelo público afoito por novidades. Desta forma, é ai que entra a sacada da direção e do roteiro, metaforizando com a contemporaneidade e o culto das celebridades vazias e tecnologias que sobrepõem umas as outras de maneira avassaladora. Tudo que não é novidade é descartado assim que uma novidade está preste a dar seu primeiro sinal.

Algumas cenas nos remetem diretamente ao clássico Cantando na Chuva, brilhantemente atuado por Genny Kelly e Debby Reynolds: são as coreografias e estilo. Em outros momentos, somos remetidos a Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder. A não adaptação da estrela de cinema ao mundo do cinema sonoro leva o artista a um denso estado de depressão e desespero. No bojo dos problemas, os Estados Unidos enfrentavam a celeuma do crash da bolsa de Nova York em 1929.

Jean Juardin consegue expressar cada palavra que não podemos escutar, num filme ambientado nos anos 20, mas contemporâneo em sua excelente execução, motivos que lhe concederam 10 indicações ao Oscar deste ano. O cachorrinho utilizado como amigo do personagem George era comum naquele período, basta lembrar de Charles Chaplin, que por sinal, tem um filme intitulado O Cachorro.

O ritmo de O Artista é fluente graças a edição de Anne-Sophie Bion e a beleza das cenas ficam por conta da direção de arte de Gregory S. Hooper.

Para os que adoram curiosidades, o diretor faz uma homenagem ao clássico Cidadão Kane: nas cenas de café-da-manhã de George e sua esposa, as expressões de amor, vão se transformando em indiferença ao passar do tempo. A história faz referencia a dupla John Gilbert Greta Garbo, que foram um casal na vida real. Ele era a estrela do cinema mudo, mas na transição para o cinema sonoro, Greta Garbo conseguiu maior espaço e expressão. No sonoro Rainha Christina, Garbo solicitou a presença de Gilbert. Muito similar ao enredo de O Artista.

O Artista levou para casa 5 Oscars, incluindo o de Melhor Filme. Com 100 minutos de duração, é magnético e merece ser visto por todo mundo que deseja conhecer um pouco mais da história do cinema mundial. Guillaume Schiffman assina a fotografia,Ludovic Bource assume a trilha sonora e Michel Hazanavicius é o responsável pelo roteiro e direção desta singular obra de arte.


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