Taylor Swift não se tornou um zeitgeist geracional por qualquer razão: a adorada e aclamada cantora e compositora transformou-se em um dos símbolos mais duradouros da cultura pop ao trilhar um caminho de extremo sucesso crítico e comercial que a eternizou como um dos maiores nomes do século, seja eternizando suas inspiradas composições com clássicos instantâneos como ‘Folklore’ e ‘Evermore’, seja com sua constante capacidade de encontrar prestígio em uma variedade considerável de gêneros musicais – desde o country, passando pelo pop e culminando no folk. Angariando uma legião interminável de fãs que cresce dia após dia, Swift também se tornou alvo de constante escrutínio público – algo que, sem sombra de dúvida, influenciou seu sexto álbum de estúdio: ‘Reputation’.
Este que vos escreve se recorda quando ouviu o álbum pela primeira vez – e não posso ser hipócrita a ponto de negar que minha perspectiva sobre a artista influenciou negativamente na minha recepção das músicas. É claro que, como um todo, a produção tem seus altos e baixos e soa um tanto quanto “sem inspiração” quando comparado com as outras incursões de Taylor, como ‘1989’ e ‘Red’, que precederam esse experimentalismo exagerado que ela trouxe como forma de se reinventar. Todavia, quase dez anos mais tarde, não posso deixar de comentar que ‘Reputation’ é um sólido corpo artístico que conseguiu sobreviver ao teste temporal e que deve ser revisitado com outros olhos.
O disco foi concebido durante o breve hiato em que Swift mergulhou em 2016 e 2017, principalmente depois de ganhar manchetes ao redor do mundo após sua segunda vitória na categoria de Álbum do Ano no Grammy Awards, irrompendo como “objeto de estudo” de dezenas de tabloides que insistiam em colocá-la sob o duro e injusto microscópio midiático. Não é surpresa que o projeto tenha uma carga autobiográfica marcada pela acidez e pela ironia, adotando a persona que muitos lhe atribuíram através de um empoderamento que a permitiu reclamar o que lhe pertencia por direito – a própria imagem.
Aliando-se a nomes como Max Martin, Shellback e Jack Antonoff, o álbum se estende por quinze faixas que se desenrolam em uma narrativa linear – e que tiveram início com o lead single “Look What You Made Me Do”. Logo de cara, Swift já demonstrou uma nova identidade visual e sonora que se apoiou no electro-pop e no synth-pop, construindo uma de suas faixas-assinatura que não apenas abre espaço para uma entrega mais madura e sensual, mas que eterniza uma das frases mais icônicas de seu vasto arsenal (“I’m sorry, the old Taylor can’t come to the phone right now. Why? Oh– ‘Cause she’s dead”). Alcançando o primeiro lugar das paradas mundiais, incluindo a Hot 100 da Billboard, a canção veio acompanhada de um impecável videoclipe que seria apenas o primeiro passo de uma era que eventualmente se sagraria uma de suas mais subestimadas.
Ao longo dessa vibrante jornada musical, Taylor mostra sua disposição a experimentar e a esquadrinhar um território que ainda não havia explorado – e isso é transcrito na mistura entre electro, synth, trap, R&B, pop e hip-hop promovida numa gama considerável de singles e faixas promocionais. Temos a parceria com Ed Sheeran e Future na amálgama entre boom bap e pop-rap de “End Game”, os pulsantes sintetizadores da despojada “…Ready For It?”, a etérea produção de “Delicate” e a dêitica rendição com traços gospel de “Don’t Blame Me” – uma das melhores entradas do álbum.
O disco não é livre de erros – e, na verdade, eles se estendem desde inflexões líricas que fogem da conhecida criatividade de Swift até uma produção que, eventualmente, mergulha em repetições cansativas que poderiam ter sido melhor trabalhadas. Como exemplos, temos a presença de “Gorgeous” e “King of My Heart” como tracks que não fazem jus ao que a artista já havia entregado em um passado não muito distante, apoiando-se em aspectos convencionais demais para serem levados a sério. Em contrapartida, incursões como “I Did Something Bad” e “Getaway Car” servem como investidas quase complementares uma da outra, encontrando um ponto em comum que usa fórmulas a seu favor, remodelando-as a fim de encontrar uma expressividade emocionalmente catártica que funciona do começo ao fim.
Quase uma década depois de ter sido lançado, ‘Reputation’ envelheceu melhor do que poderíamos imaginar. Ao se afastar da época em que Taylor Swift sofria com um implacável e já mencionado escrutínio público, é possível apreciar o sexto álbum de estúdio de um dos maiores nomes da indústria fonográfica de todos os tempos como uma declaração testamentária que não só a permitiu encontrar arte em meio à tragédia, mas que influenciaria cada um dos passos de sua carreira.


