Retro Dance #15 | Camila Cabello e sua envolvente estreia solo com o álbum ‘Camila’

O mundo da música é marcado por mudanças, talvez mais claramente que as outras vertentes artísticas como o cinema, a literatura, a televisão, entre outros. É claro que, dependendo da época sobre a qual falamos, precisamos analisar o contexto histórico e socioeconômico que permitiu que tais transições – bruscas ou não – encontrassem espaço para se concretizarem, mas dentro do escopo musical, isso acontece com mais frequência do que realmente deveria. E em 2017, todo o cenário ao qual estávamos acostumados, principalmente aos fãs do mais puro pop contemporâneo, sofreu um baque inesperado com a dissolução do grupo conhecido como Fifth Harmony após a saída não-premeditada de uma de suas lead singersCamila Cabello.

Entre picuinhas e discussões, Cabello resolveu investir em sua carreira solo e desde então vem fazendo mais sucesso que a girlband que deixara para trás, procurando uma identidade própria que conversasse com suas raízes e até mesmo com as mensagens que gostaria de deixar para a crescente gama de fãs que acompanham seu trabalho desde o princípio. E então a concretização de seus sonhos finalmente tomou forma com o lançamento de seu primeiro álbum de estúdio, intitulado Camila – e que não poderia ter um melhor título, visto que essencialmente expressa os desejos românticos mais sexys e envolventes da cantora.

De forma geral, sua re-estreia no cenário artístico já sofria há um tempo uma generalização positiva. A concretização dessas previsões, entretanto, vai além do que se esperava, principalmente se levarmos em conta que os singles promocionais do disco poderia representar a nata das composições – e felizmente fomos apresentados a uma situação muito bem equilibrada entre altos e baixos. Os vocais de Cabello, como sempre, permanecem em uma falha proposital que transita entre o suave contralto mas encontra-se de forma aplaudível no soprano – e também é digno nota dizer que sua tecedura é capaz de tramitar as mais belas baladas de amor em contraposição à ardência de faixar mais dançantes e sensuais.

É até uma surpresa agradável dizer que Camilase inicia com Never Be The Same”. A influência do techno pop, que tornou-se extremamente difundido com a chegada da era digital, se mostra de forma clara principalmente no prelúdio e nas transições; porém, é realmente e versatilidade da voz da artista que rouba o foco, começando em um tom mais grave, encontrando-se de forma momentânea nos falsetes e retornando para um ótimo refrão. Apesar da predominância do sistema modal e de uma familiar e gradativa premissa, essa previsibilidade não consegue ofuscar a envolvência da cantora. E isso não se mantém apenas neste single, alastrando-se também para músicas como Into It” e In the Dark”: ainda que não tenham uma evidência tão clara sim, a amálgama entre um tom mais brando e os falsetes se repete de forma satisfatória, mesmo traçando paralelos com cantoras conterrâneas como Ariana Grande e Selena Gomez.

Apesar disso, o álbum perde um pouco de seu brilho com a emergência de All These Years”. A princípio, a faixa quase épica, que narra a história do retorno de um amor perdido e de que como os sentimentos do eu lírico não mudaram mesmo após vários e vários anos, é deliciosa de ser ouvida. Sua atmosfera inebriante restringe-se aos poucos avanços do arranjo musical, permanecendo fincado ao bucólico violão elétrico com algumas investidas techno. Entretanto, se pegarmos a essência da música, essa história romântica e até mesmo emocionante é varrida para debaixo do tapete: afinal o escopo produzido é muito semelhante a uma faixa tão amena quanto, intitulada Love Yourself”, de Justin Bieber. A progressão musical segue o mesmo padrão, incluindo as viradas, os crescendos e o desfecho; se não fosse pela dissonância entre Cabello e Bieber – e por alguns maneirismos caprichosos ao final do último ato -, poderíamos estar lidando até mesmo com um caso de cópia ou mimésis estranhamente bem-intencionada.

Camila volta a atingir seu ápice quando investe fortemente em baladas mais lentas e permeadas pelo piano clássico. Essa fusão à prima vista desordenada de inúmeros instrumentos – de cauda, de corda e até mesmo de percussão – é na verdade a estética identitária do disco, o qual preza pelo melhor do melhor e pela criação de algo que atinja um grande número de pessoas, seja aqueles que se afeiçoem mais a hinos de sofrimento e desapego, do amor incondicional e atemporal ou da sensualidade exacerbada. Something’s Gotta Give” é um desses espasmos inusitados que explora a capacidade emocional da artista e cria algo tocante, utilizando-se de elementos mais modernos para contar uma narrativa sobre reciprocidade. Essa ambiência logo encontra mais uma vez uma apatia conformista proposital e incrivelmente bem colocada com Real Friends”, que conversa de certa forma com a música anterior ainda que de forma mais sutil e irônica – e mais pautada no clássico violão.

O ápice do álbum é, sem dúvida alguma, a originalidade com a qual Cabello trata suas raízes. Sabe-se que a cantoria tem descendência cubana e, levando em conta a relevante liberdade que lhe foi concedida para a produção de seu primeiro disco solo, o fato de ter abraçado sua própria história como arco geral é uma jogada muito interessante e que funciona em sua maior parte. Inside Out” e sua encantadora premeditação parece uma joia bruta quando comparada, por exemplo, com She Loves Control”, um conto de empoderamento marcado por uma estética ao mesmo tempo nostálgica e modernizada para um ritmo que ainda encanta qualquer um que o ouça.

“Havana”, o principal single do álbum que inclusive tornou-se um sucesso inesperado entre o público e a crítica, é a declaração de amor de Cabello às suas matrizes latinas. A música mais uma vez é configurada com uma roupagem pop dançante e que avança timidamente para vertentes eletrônicas, mas que logo é refreada pela presença das inúmeras características cubanas: nessa arquitetura musical muito bem delineada, temos as extensas variações e heranças da Europa e da América Latina mesclados em uma abordagem eletroacústica entre jazz, rock, mambo, salsa e merengue. Essa diversidade não apenas é muito bem-vinda como também fornece uma prematura identidade para a cantora, que pode explorar seu infinito potencial de vários modos.

Uma estreia memorável e inédita é talvez a principal característica a ser concedida para Camila. Permitindo que uma jovem e incrível voz como a dessa artista consiga se aventurar por caminhos nunca imaginados, é mais que óbvio que sua saída do grupo que a tornou famosa, mas a endossava em uma reciclagem musical, não poderia ter vindo em hora melhor.

Notícias

‘The Best of Us’: Drama sobre os SOCORRISTAS do atentado às Torres Gêmeas escala TRÊS novos membros ao elenco

Segundo o Deadline, Neal Huff ('Fallout'), Gaby Hoffmann ('Transparent') e Sky Yang ('Rebel...

Crise em ‘Barbie 2’! Sequência pode ser ENGAVETADA após impasse salarial

'Barbie 2', sequência do fenômeno bilionário estrelado por Margot...
Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.