Retro Dance #25 | A jornada hedonista de Jessie Ware com a obra-prima ‘What’s Your Pleasure’

Se há alguém que definitivamente merecia mais reconhecimento que tem, esse alguém é Jessie Ware. A cantora e compositora britânica sempre fez questão de trilha o próprio caminho, arquitetando obras-primas do cenário fonográfico contemporâneo à medida que eternizou uma estética que encapsulou presente e passado em um mesmo lugar. Ora, é só nos lembrarmos do memorável compilado de originais que lançou em 2023, ‘That! Feels Good!’, um arauto dance e disco que se sagrou como uma das melhores incursões do século. Porém, cinco anos atrás, Ware nos convidava para uma suntuosa e apaixonante jornada por incontáveis gêneros musicais com sua magnum opus, ‘What’s Your Pleasure?’.

O compilado de originais, de fato, marcou uma grande mudança na identidade estética de Ware, afastando-a de investidas mais sombrias e introspectivas e impulsionando-a a buscar uma atmosfera de puro hedonismo criativo. Contando com doze faixas minuciosamente construídas por um time de habilidosas mãos, que inclui o produtor James Ford, a obra é uma celebração do prazer, do amor incondicional e da riqueza (seja ela como for), engendrando um cosmos escapista que é influenciado pelo disco, pelo dance-pop, pelo funk, pelo Hi-NRG e por escolhas cinemáticas que nos arrancam de uma dura realidade para nos mostrar que, no final das contas, precisamos nos libertar das amarras que nos mantêm presos.

É notável como a performer faz um claro movimento de introspecção e evocação para transformar declamações pessoalistas em joias universais, pautadas em um arranjo narcótico de instrumentos que nos fisga desde os primeiros segundos. Abrindo com a poderosa e inspiradora “Spotlight”, Ware dá as cartas do jogo a seu bel-prazer, navegando pelas pulsões de um eu-lírico que não deseja nada além do mais puro dos amores, seja ele como for. “Não é o bastante dizer que eu penso em você; palavras nunca conseguem fazer o que eu preciso que elas façam” são os versos que dão início a essa espetacular sinestesia musical, apoiando-se na sutileza de sintetizadores oitentistas que acompanham vocais sensuais e uma rendição que clama pela materialização de um sonho romântico e derradeiro.

A ideia por trás desse compilado, como já mencionado, é explorar as múltiplas camadas do hedonismo em uma maximização apaixonante, saudosista e envolvente. Singrando entre a sensualidade eletrônica da faixa-título, que inclusive entrou para nossa lista de Melhores Músicas Internacionais do Século, e a defesa de um reencontro consigo mesma em “Remember Where You Are”, Ware mergulha de cabeça em uma coesa narrativa que é relembrada até os dias de hoje e que lhe deu forças para seguir em frente com uma discografia que ainda tem muito para contar. Afinal, imaginar que a cantora e compositora iria se aposentar após esse álbum parece algo criminoso, levando em consideração todo o aparato artístico que sempre empregou em cada um de seus discos.

O disco, lançado em meados da pandemia de COVID-19, foi um abraço reconfortante em meio a épocas difíceis, em que a quarentena mandatória e a supressão da conexão humana servem de força-motriz para um amadurecido rearranjo de elementos muito familiares. “Adore You” e “Mirage (Don’t Stop)” mergulham em uma proposital repetição cíclica que funciona com praticidade inenarrável, denotando uma predileção da performer a críticas à indústria musical e de que forma ela passa por mortes e ressurreições. “Save a Kiss” posta-se como uma espécie de balada romântica que dialoga com “Read My Lips”, em que elementos do new wave e do deep-house se encontram em vibrantes peças sonoras.

Há uma clara jocosidade que acompanha certas tracks do álbum e que parte de uma alegre sutileza que ela emprega em suas rendições: “Ooh La La” e “Soul Control” partem de premissas um tanto quanto sexuais, por assim dizer, mas não da mesma maneira explícita que vemos em ‘That! Feels Good!’; pelo contrário, Ware não tem medo se explorar sua sexualidade e sabe que narrar sobre tais assuntos é uma forma de empoderamento que está de acordo com a estética inebriante do projeto. É a partir daí que ela assina contos que nos engolfam em uma ambientação única, fora da cronologia como a conhecemos, de maneira a afirmar que não existe nada além daquilo que mais desejamos e ansiamos – procurando pincelar esses estandartes do prazer com uma ambígua melancolia inspiradora.

O álbum nutre de similaridades com outras produções da época que escolheram revisitar o classicismo dos anos 1990 e 2000, incluindo ‘Chromatica’, de Lady Gaga, e ‘Honey’, de Robyn. Porém, enquanto as inspirações são claras, Ware não tem medo de explorá-las a um nível diferenciado que não carece de comparações, e sim de forma a revelar como tantas artistas conseguem trabalhar para um propósito em comum – cada qual com sua identidade. E, dentro desse espectro, Ware destaca-se por infundir diligências com um coming-of-age que serviria de base para os anos seguintes e que se tornaria, mesmo que indiretamente, um emblema para vários artistas – como RAYE e a lendária Kylie Minogue.

Cinco anos depois de seu lançamento oficial, ‘What’s Your Pleasure’ continua a colher frutos de impecáveis corolários, reiterando o poder criativo de uma das artistas que merecia ter mais horas no centro dos holofotes do que possui. Não é surpresa que, pouco a pouco, ouvintes redescobrem essa obra-prima musical e entendem o que significa fazer arte.

Notícias

Confira o teaser inédito de ‘Estilhaços’, nova série de SUSPENSE de Ryan Murphy

Foi divulgado um teaser inédito de 'Estilhaços' (The Shards),...

Prime Video escala DOIS novos atores ao elenco da adaptação ‘Sex Criminals’

Segundo o Deadline, o Prime Video escalou dois novos atores ao elenco de...

‘Pluribus’: Assista aos HILÁRIOS erros de gravação da 1ª temporada!

'Pluribus', a nova série do aclamado realizador Vince Gilligan ('Breaking...

Charli XCX lança “Camera”, novo single de seu próximo álbum de estúdio

A cantora, compositora e produtora Charli XCX lançou o quarto...
Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.