Sem Brasil na competição, Cannes 2026 anuncia Almodóvar, Farhadi e Andy Garcia na direção


Nesta quinta-feira, 9 de abril, o aguardado anúncio da seleção oficial da 79ª edição do Festival de Cannes, realizado em Paris, confirmou uma ausência significativa: não há filmes brasileiros na seleção oficial. Ainda assim, permanece a expectativa por possíveis participações nas seções paralelas, como a Quinzena dos Realizadores e a Semana da Crítica, cujas programações serão divulgadas nos próximos dias.

Em um ano marcado por transformações na indústria global e pela ampliação geográfica da curadoria, o Brasil aparece apenas de forma indireta, em uma coprodução envolvendo a produtora Tatiana Leite, da Bubble Project. O filme Elefantes na Névoa, dirigido pelo nepalês Abinash Bikram Shah e ambientado no Nepal, integra a mostra Un Certain Regard. Trata-se de uma coprodução entre Nepal, Alemanha, Brasil, França e Noruega, portanto, um projeto multinacional que, apesar da participação brasileira, não apresenta traços culturais diretamente associados ao país.

A produtura Tatiana Leita representa o Brasil na coprodução nepalesa ‘Elefantes na Névoa’.

Enquanto a disputa principal reúne 21 títulos — sem nenhuma produção estadunidense, mas com nomes já esperados como Pedro Almodóvar e Asghar Farhadi (veja nossa lista de previsões) —, um dado preocupante volta à tona: entre os concorrentes à Palma de Ouro, apenas cinco filmes são dirigidos por mulheres, evidenciando que o festival ainda está distante de alcançar maior equidade de gênero.

Segundo Thierry Frémaux, delegado geral do festival, esse cenário reflete um momento de mudanças profundas na indústria americana, marcado por fusões e aquisições que impactaram o volume e o perfil das produções. Um dos nomes mais notáveis ausentes é Steven Spielberg, cujo novo filme, Dia D (Disclosure Day), ficou fora da seleção por decisão do estúdio, com estreia prevista para 11 de junho no Brasil.

Se, por um lado, Brasil e Estados Unidos ficaram de fora da competição, por outro, o festival amplia sua presença global com a entrada inédita de países como Nepal, República Centro-Africana e Costa Rica. Ao todo, foram cerca de 2.500 filmes inscritos, evidenciando o crescimento da produção mundial.

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Na competição oficial, além de Almodóvar e Farhadi, destacam-se Sheep in the Box, de Hirokazu Kore-eda, Fjord, de Cristian Mungiu, e Minotauro, de Andrey Zvyagintsev. Ainda assim, o desequilíbrio de gênero persiste, com apenas 23% de representação feminina entre os diretores — assinados pela alemã Valeska Grisebach, pelas francesas Charline Bourgeois-Tacquet, Jeanne Herry e Léa Mysius, e pela austríaca Marie Kreutzer.

Fora da competição, há espaço para nomes conhecidos e novas experiências, como Diamond, a aposta do cubano-americano Andy Garcia na direção, e Her Private Hell, do dinamarquês Nicolas Winding Refn, que retorna após um hiato de dez anos. Já nas seções paralelas, surgem representantes da América Latina, como El Deshielo, da chilena Manuela Martelli, e Siempre Soy Tu Animal Materno, da costa-riquenha Valentina Maurel.

O panorama geral revela um Cannes cada vez mais internacionalizado, atento a novas cinematografias, mas que ainda evidencia lacunas importantes — seja pela ausência brasileira na competição, seja pelo distanciamento momentâneo de Hollywood. Agora, resta acompanhar, entre os dias 12 e 23 de maio, como essa seleção se refletirá na recepção crítica e na disputa pela Palma de Ouro.

Veja a lista completa dos Indicados abaixo: 

Competição oficial

Filme de abertura :La Vénus Électrique, de Pierre Salvadori (fora de competição)

Amarga Navidad, de Pedro Almodóvar

Contos Paralelos, de Asghar Farhadi

La vie d’une femme (A Woman’s Life), de Charline Bourgeois-Tacquet

La Bola Negra, de Javier Calvo e Javier Ambrossi

Covarde, de Lukas Dhont

L’Aventure rêvée (Das Geträumte Abenteuer), de Valeska Grisebach

All of Sudden, de Ryusuke Hamaguchi

L’Inconnu (The Unknown), de Arthur Harari

Garance (Another Day), de Jeanne Herry

Sheep in the Box, de Hirokazu Kore-eda

Hope, de Na Hong-jin

Nagi Notes, de Koji Fukada

Gentle Monster, de Marie Kreutzer

Notre Salut, de Emmanuel Marre

Fjord, de Cristian Mungiu

Histoires De La Nuit (The Birthday Party), de Léa Mysius

Moulin, de László Nemes

Fatherland, de Paweł Pawlikowski

The Man I Love, de Ira Sachs

El Ser Querido (The Beloved), de Rodrigo Sorogoyen

Minotauro, de Andrey Zvyagintsev

Um Certo Olhar

Filme de abertura: Teenage Sex and Death at Camp Miasma, de Jane Schoenbrun

Elefantes na Névoa, de Abinash Bikram Shah (1º filme)

Iron Boy, de Louis Clichy

Ben’imana, de Marie-Clémentine Dusabejambo (1º filme)

Congo Boy, de Rafiki Fariala

Club Kid, de Jordan Firstman (1º filme)

Uļa, de Viesturs Kairišs

La Más Dulce (Strawberries), de Laïla Marrakchi

El Deshielo (The Meltdown), de Manuela Martelli

Siempre Soy Tu Animal Materno (Forever Your Maternal Animal), de Valentina Maurel

Yesterday the Eye Didn’t Sleep, de Rakan Mayasi

I’ll Be Gone in June, de Katharina Rivilis (1º filme)

Words of Love, de Rudi Rosenberg

Everytime, de Sandra Wollner

All the Lovers in the Night Sode, de Yukiko Sode

Fora de Competição

La Bataille de Gaulle : L’Âge de Fer, de Antonin Baudry

Karma, de Guillaume Canet

Diamond, de Andy Garcia

L’Abandon, de Vincent Garenq

L’Objet du Délit, de Agnès Jaoui

Her Private Hell, de Nicolas Winding Refn

Sessões da Meia-noite

Full Phil, de Quentin Dupieux

Sanguine, de Marion Le Corroller (1º filme)

Roma Elastica, de Bertrand Mandico

Jim Queen, de Marco Nguyen e Nicolas Athané (1º filme)

Gun-Che (Colony), de Yeon Sang-ho

Cannes Première

La Troisième Nuit, de Daniel Auteuil

The Match, de Juan Cabral e Santiago Franco

Kokurojo (The Samurai and the Prisoner), de Kiyoshi Kurosawa

Heimsuchung (Visitation), de Volker Schlöndorff

Propeller One-Way Night Coach, de John Travolta


Sessões Especiais

Rehearsals for a Revolution, de Pegah Ahangarani (1º filme)

Les Matins Merveilleux, de Avril Besson (1º filme)

L’Affaire Marie-Claire, de Lauriane Escaffre e Yvo Muller

Avedon, de Ron Howard

Les Survivants du Che, de Christophe Dimitri Réveille (1º filme)

John Lennon : The Last Interview, de Steven Soderbergh

Cantona, de David Tryhorn e Ben Nicholas

Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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