The Boys | O Sucesso do Fracasso Humano

The Boys | O Sucesso do Fracasso Humano


Já faz mais de um mês que The Boys estreou na Amazon Prime há quase dois meses e o “baque” da série ainda segue me impactando de maneira incrível. Apesar de ser uma série sobre o universo dos super-heróis, não esperem atos de heroísmo ou toda aquela perfeição frequentemente abordada nos cinemas. Nem mesmo atitudes de heróis falhos, como o Homem Aranha e o Homem Formiga, muito pelo contrário! Se os mitos das telonas são impulsionados pela culpa e pela responsabilidade, os poderosos de collant da Amazon são movidos pelo que há de pior no mundo.

A proposta da série, desde sua origem nos quadrinhos, é parodiar os heróis de Marvel e DC como legítimos babacas. Eles são tratados como super-astros, completamente isentos de responsabilidade e senso de humanidade, já que são convencidos de serem “presentes de Deus”. É uma pegada realista do que seriam pessoas poderosas vivendo em um mundo humano e como sua existência afetaria o capitalismo, o corporativismo e a vida das pessoas comuns. E é justamente aí que o seriado consegue seu maior mérito: não se prender unicamente aos heróis.

A trama acompanha o jovem Hughie Campbell (Jack Quaid), que tem sua namorada atropelada pelo Trem Bala (Jessie T. Usher) – o Flash desse universo – e, em busca de vingança, acaba encontrando Billy Bruto (Karl Urban), um cara misterioso e com um passado obscuro envolvendo os “Super”. Hughie e Bruto formam a dupla protagonista da série e são trabalhados de forma a explorar o pior do lado humano. [SPOILERS ADIANTE] Sedento por vingança, Bruto auxilia no processo de transformação de Hughie. De um menino desleixado e passivo, ele vai adquirindo confiança conforme vai se envolvendo nos assassinatos dos Sete.

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É interessante acompanhar o desenrolar dessa trama e a mudança na vida de Hughie, porque ele começa impulsionado em vingar a morte de sua namorada, mas na metade do terceiro episódio já quase não se fala mais nela. Ele passa de um nada na vida para um matador de deuses. É a representação da fuga do cotidiano motivada pela sensação de poder e até mesmo pela inveja. Conforme ele vai matando ou auxiliando no assassinato dos supers, mais confiante ele fica, chegando ao ponto de se envolver romanticamente com a Luz-Estrela (Erin Moriarty). Ele passa de um fã para a maior ameaça dos heróis em questão de dias. Apesar de ser retratado como o herói da série, ele mostra a fragilidade da mente humana ante a injustiça e a violência do mundo, e como é fácil de corrompê-la. Quer dizer, ele é meio que forçado a auxiliar no primeiro assassinato, mas todos os outros ele já faz consciente do que está fazendo. Fatores como inveja, ciúmes e o sentimento de impunidade são responsáveis por diversos crimes diariamente em nosso mundo.

Já Billy, como vamos descobrindo com o passar da trama, é movido pelo ódio ao Capitão Pátria (Antony Starr). Convicto de que a junção do Superman com o Capitão América estuprou e sequestrou sua esposa, Bruto dedica sua vida a acabar com os heróis. Ele não aceita que os Super sejam tratados como superiores aos humanos. Não por ser um idealista altruísta, mas por raiva, insegurança, uma inveja doentia e a Síndrome de Deus que ele tanto critica nos Sete. Billy não respeita leis, regras ou convenções sociais, mesmo sendo uma pessoa comum. A única diferença é que ele conhece o lado podre das celebridades de seu mundo e não é levado a sério por isso. Em sua jornada de vingança, ele simula as condições que o levaram a essa psicopatia para corromper o jovem e inseguro Hughie. E como ele é apenas um jovem comum, sem muitas convicções e ambições na vida, acaba cedendo a Bruto.

Esses dois são pessoas comuns que passaram por situações desumanas e decidiram agir de forma egoísta para conseguir sua vingança. O roteiro acaba levando a descoberta de vários podres dos heróis, como o uso de drogas, arrogância, genocídio e a fabricação de heróis manipulados pela Vought, mas a motivação deles é a vingança mesmo. A última cena da primeira temporada é espetacular porque dá a entender que todas as atrocidades cometidas por Billy, que ele mesmo justificava como vinganças pelo estupro da esposa, foram em vão e, no final das contas, ele só foi corno mesmo. Quer dizer, podemos ser surpreendidos na segunda temporada, né? Só que a cara dele ao entender que desperdiçou sua vida atrás de uma vingança vazia é justamente o ponto que me prendeu na série e deu aquela sensação de “soco no estômago”.

A sociedade em que vivemos está cheia de ódio e preconceito “justificados” por interpretações erradas leis, doutrinas religiosas, crenças… Mas no final, isso tudo é uma desculpa esfarrapada para ter seu ódio amparado por alguma coisa. As redes sociais ampliaram muito essa sensação de comunidade ideológica, nas quais suas ideias, sejam elas boas ou ruins, passam a ganhar força por encontrar apoiadores com mais facilidade. Hughie já tinha esse ódio dentro de si, a chegada de Billy apenas legitima que ele o libere. E convenhamos, cada dia mais é justo dizer que nossa sociedade falhou como ser humano. É por conta dessa falha, desse ódio, que temos pobreza, assaltos, assédios, estupros, assassinatos e racismo como situações tão presentes no dia a dia. Por isso, mais do que imaginar um mundo com super-heróis babacas, o maior mérito de The Boys é mostrar o resultado do sucesso do fracasso humano como sociedade.

The Boys está disponível no Amazon Prime.