Existem três formas de começar este texto. Primeiro, podemos apontar que a série Twin Peaks é uma das melhores e mais completas definições do termo obra cult na história do audiovisual, sem exageros. O que isso engloba é o seguinte: o programa fez sucesso pelo mundo, arrancando elogios da imprensa especializada, com grande parte do público tendo consciência de sua reputação, mesmo sem terem assistido a qualquer episódio – por seu conteúdo não ser, de forma alguma, palatável a todo tipo de espectador. Justamente por isso atraiu atenção de um público mais seleto e alternativo, leia-se cinéfilos que apreciam a mistura de obras de arte abstratas com entretenimento escapista. E não se engane, Twin Peaks tem sua legião de fãs.

Em segundo lugar, devemos dizer que muito de Twin Peaks deve-se a seu criador, David Lynch, mas já voltamos a ele em breve. Em terceiro, se encontra a memória afetiva que minha geração possui do programa e nosso primeiro contato com ele: numa época que precede a entrada das TVs a cabo em nosso país, Twin Peaks era exibido pela rede Globo nos domingos à noite. Minha geração embora muito jovem para absorver cada detalhe ou significado de uma ideia tão complexa neste primeiro encontro, era surpreendida, ainda na pré-adolescência, pelo mistério de uma investigação de assassinato que chocava toda uma pequena cidade fria e pacata no coração dos EUA. Ao mesmo tempo, ficávamos perplexos e perdidos com a psicodelia de universos paralelos, onde numa sala vermelha um anão dançava de maneira bizarra – misturando humor e terror.


A experiência de revisitar Twin Peaks hoje, passados 30 anos de sua estreia, é, pessoalmente, algo muito satisfatório e enriquecedor. É um contato nostálgico com uma memória adormecida, o encontro de dois mundos: passado e presente. Duas versões de nós mesmos. Voltando para Lynch, que eu e muitos sequer sabíamos quem era em nossa apresentação à série, o diretor já mantinha um currículo elogiado, premiado e dono de grande prestígio. A esta altura, David Lynch tinha na bagagem três indicações ao Oscar, e uma filmografia de títulos como Eraserhead (1977), O Homem Elefante (1980), Duna (1984), Veludo Azul (1986) e se preparava para lançar Coração Selvagem (1990). Todos, donos de uma peculiaridade que parece misturar sonho (ou pesadelo, muitas vezes) com realidade.

No dia 7 de abril de 1990, ia ao ar pela rede norte-americana ABC o episódio piloto de Twin Peaks. E já de cara deixava a pergunta que viria a ser o mote do seriado: “Quem Matou Laura Palmer?” – esclarecendo para qualquer dúvida que esse era um mistério policial. A tal pergunta serviu bem para seu sucesso mundial, deixando o espectador instigado a acompanhar e investigar junto. É preciso levar em conta a época de seu lançamento e perceber o evento sem precedentes que foi este fenômeno – traduzindo para os dias de hoje seria algo como Lost ou Game of Thrones, ou seja, uma comoção que mobilizava plateias.

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Twin Peaks funciona em três vertentes: é, ao mesmo tempo, um thriller sério sobre o assassinato de uma jovem loira e querida na cidade; um misterioso conto sobrenatural (com outras dimensões, entidades e possessões) onde nada parece o que é; e, por fim, um “novelão” cômico e nonsense, onde David Lynch deixa fluir seu senso de humor igualmente, digamos, único. Ah sim, devemos mencionar também o cocriador do programa Mark Frost, igualmente responsável por tudo que vemos em tela.

Tudo começa com o corpo da bela Laura Palmer (Sheryl Lee) morto, enrolado em plástico (como afirma o personagem que a encontra) e deixada ao lado de um tronco à beira de um lago. Este é o pontapé inicial para a narrativa ir se desenrolando ao longo dos 8 episódios exibidos semanalmente da primeira temporada, que foi ao ar até o dia 23 de maio de 1990. Para a pequena cidade, de 51 mil habitantes, é enviado o agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan), o protagonista incorruptível e responsável pelo caso. Ele terá a ajuda da amistosa força policial de lá, composta pelo correto xerife Truman (Michael Ontkean), seu braço direito, o eficiente nativo-americano Hawk (Michael Horse) e o alívio cômico, o abobalhado Andy (Harry Goaz) – no local encontra-se também o interesse amoroso deste último, a “cabeça de vento” Lucy (Kimmy Robertson).

A lista dos personagens é simplesmente muito extensa para ser adereçada individualmente, mas todos tem sua importância e significado para a construção desta trama, e vão desde os pais da jovem assassinada, passando pelos colegas de escola (uma gama de estudantes de um típico drama adolescente) e, de forma geral, os moradores da cidadezinha, com suas questões de folhetim ou personas salteadas pelo surrealismo (temos uma mulher que fala com um pedaço de tronco, o qual ela carrega como um bebê, por exemplo). Todos estes elementos contribuíram para aguçar a curiosidade dos espectadores. Tida como imagem da perfeição e cidadã modelo, vamos descobrindo também sobre o passado não tão exemplar de Laura Palmer, assim como os esqueletos no armário de cada um dos personagens que a cercavam.

A intenção de Lynch, no entanto, sempre foi brincar com a expectativa do público, jamais resolvendo o mistério e revelando o assassino. O cineasta crê na jornada, na experiência muito mais do que em respostas fáceis. Twin Peaks na realidade não era sobre um mistério de assassinato, mas sim sobre algo muito maior: sobre os habitantes da cidade e sobre as esquisitices da mente de seus criadores impressas em celuloide.


Com o sucesso do programa, a rede ABC correu para encomendar a segunda temporada para os gênios criadores. Assim, em setembro de 1990, apenas quatro meses do final da primeira temporada, ouviríamos novamente a onírica e melancólica “Falling”, de Julee Cruise, a música tema do programa que voltava ao ar para mais um round. Esta, no entanto, seria uma luta mais ingrata. O canal deu carta branca aos criadores, mas exigiu somente uma coisa em troca: que revelassem ao público o assassino de Laura Palmer – mesmo que não quisessem focar nisso. Assim, a contragosto, uma explicação pra lá de doida (no estilo de Lynch) colocava um fim na maior pergunta do início dos anos 1990.

O problema é que esta revelação era feita logo nos primeiros episódios da continuação, no sétimo para ser mais preciso, e a temporada continuaria por mais quinze episódios. Com isso, os executivos tiveram seu desejo atendido, e Lynch pôde mostrar que Twin Peaks era mais que este mistério. Porém, a esta altura o público gradativamente perdia o interesse, uma vez revelado o que todos se questionavam. De fato, é sentido um grande desnível no segundo ano, que com 22 episódios ao todo (ao contrário dos 8 iniciais) se mostra um desafio mesmo ao maior entusiasta. Fora isso, neste ponto o interesse do próprio Lynch também havia caído, e ele se afastava do programa para se concentrar no lançamento do citado Coração Selvagem. Tudo isso resultou no cancelamento de Twin Peaks após duas temporadas. Bem, e quanto tempo mais a série aguentaria? Porém, Lynch finalizou em grande estilo, deixando um apoteótico gancho no ar sem resolução em seu finale, sendo o suficiente para angariar cada vez mais seguidores desta mitologia. Em junho de 1991, Twin Peaks encerrava sua história e nos abandonaria para sempre.


Ou quase. Em 16 de maio de 1992, estreava no Festival de Cannes o primeiro derivado da cultuada série: Twin Peaks – Fire Walk With Me. O programa ganhava sobrevida através de um longa-metragem, que chegou aos cinemas norte-americanos em agosto do mesmo ano, e no Brasil no dia 14 de maio de 1993. Era a chance dos fãs finalmente receberem respostas quanto ao enigmático final. Bem, seria, caso o criador não fosse David Lynch. O diretor optou por uma pré-sequência ao invés, justamente por isso o filme o subtítulo Os Últimos Dias de Laura Palmer por aqui. O longa apresentava mais sobre o passado da personagem motivadora de tudo, sua relação com os pais e com todos na cidade. Alguns atores não toparam retornar para a nova empreitada, como Lara Flynn Boyle, que deveria fazer uma cena de nudez no filme, tendo sua personagem Donna agora nas formas de Moira Kelly.

Os Últimos Dias de Laura Palmer ainda provocava mais o espectador, abrindo a trama com novos personagens em uma outra investigação de assassinato, ocorrida um tempo antes do que vimos na série. Nada do que todos esperavam. Neste contexto tínhamos apresentados os personagens de Chris Isaak, Harry Dean Stanton, Kieffer Sutherland e até mesmo do lendário David Bowie, todos inéditos no seriado. Era o encontro dos fãs com seus personagens queridos, mas nos termos de David Lynch.


O que David Lynch faz, além de, não apenas quebrar, mas despedaçar expectativas, são obras que o satisfazem pessoalmente. Não é que ele não ligue para a audiência, mas a restringe. Assim como com todos os cineastas e suas obras, podemos gostar, entender, querer entender ou não. Depende de cada um. O importante é que o cineasta aprendeu a criar o que quer sem amarras, rendições ou comprometimentos. E esse é o sinal de um verdadeiro artista. Porém, quando temos envolvidos muitos milhões de dólares, como nas indústrias do cinema e TV, resultados são esperados, e a arte muitas vezes conflita com os negócios.

Seriam longos 25 anos órfãos de Twin Peaks até um dos eventos mais celebrados dos últimos anos. Numa época de revivals, David Lynch e Twin Peaks fizeram as pazes, e em seus termos, através do canal Showtime, o programa retornava ao ar em 2017. Com Lynch e Mark Frost à frente, o retorno de uma penca de rostos conhecidos, todos agora na meia idade, vide Mädchen Amick, Sherylin Fenn, James Marshall e Dana Ashbrook (além de MacLachlan e Lee), alguns falecidos e outros tendo nos deixado durante a confecção da nova temporada (como Miguel Ferrer e Catherine E. Coulson), além de novidades muito bem-vindas como Naomi Watts e Laura Dern abrilhantando o elenco, Twin Peaks: O Retorno, como ficou conhecido no Brasil, contou com 18 episódios.


Novamente, quem estava esperando respostas e coesão entrou bem. Sim, é verdade que algumas linhas narrativas foram continuadas, saindo do marco zero – mas no geral obtivemos muito mais perguntas do que respostas. Foi aqui que Lynch pôde verdadeiramente pirar no tópico Twin Peaks e definitivamente de todas as versões do programa, esta é a que tem mais a sua cara. O diretor não filmava nada além de curtas fazia mais de dez anos, e comandou todos os episódios do Retorno na direção e roteiro (em parceria com Frost). Como resultado, apesar de deixar o público a ver navios, os fãs esmiuçando por teorias, O Retorno foi eleito a melhor produção audiovisual da década pela prestigiada publicação elitista Cahiers du Cinéma, veículo francês tido como a nata da crítica e bíblia dos cinéfilos. Fora isso, está entre os 200 melhores programas de TV de todos os tempos na opinião do grande público no IMDB, e foi indicado ao Globo de Ouro de Ator para MacLachlan.

Já a série original segue agradando mais, talvez por nostalgia, talvez por acessibilidade, e se encontra entre os 55 melhores programas de TV de todos os tempos para o grande público. Fora isso, ganhou o Globo de Ouro de melhor série, ator para MacLachlan, atriz para Piper Laurie (que viveu a vilanesca Catherine Martell) e deu uma indicação para Sherylin Fenn (a querida Audrey). Se algum dia no futuro veremos novamente Twin Peaks talvez não importe muito. Nem ao menos o resultado agridoce (e muitos dirão amargo) desta nova incursão – mesmo tendo nos apresentado ícones como Dougie e os mafiosos irmãos Mitchum. O que é de Twin Peaks e ninguém jamais irá tirar é seu legado: um marco divisor de águas para a televisão mundial.

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