Um Golpe Perfeito

Um Golpe Perfeito

Nota:


COMO POSSUIR LISSU, SEM LISSU?

Um Golpe Perfeito” é mais uma refilmagem assinada pelos cultuados irmãos Coen, depois de “Bravura Indômita”. Dessa vez, no entanto, os Coen escrevem apenas o roteiro da obra, que é baseada na produção de 1966, “Como Possuir Lissu”, estrelada por Michael Caine e Shirley McLaine, e dirigida por Ronald Neame (de “O Destino do Poseidon”). No filme, Caine interpretava um ladrão profissional, que decide dar um golpe num milionário, e roubar a obra de arte conhecida como Lissu, o busto de sua falecida esposa.

Para isso o golpista alista a ajuda de uma comparsa, papel de MacLaine, e a caracteriza exatamente como a estátua. A refilmagem toma diversas liberdades quanto a trama, pegando apenas a ideia central, e modificando quase tudo, em particular situações e personagens. O novo filme quase recebeu o título do original, “Como Possuir Lissu”, mas a distribuidora brasileira se deu ao trabalho de assistir, ou ao menos pesquisar sobre a produção antiga para perceber que a obra de arte Lissu não estava mais no enredo do novo.

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A trama gira em torno do mesmo protagonista, Harry, agora interpretado pelo vencedor do Oscar, Colin Firth (“O Discurso do Rei”). Harry passa de ladrão profissional a um descontente funcionário de uma grande empresa, cujo cargo é o de avaliador de obras de arte. O bilionário Shahbandar também é mantido (com um nome desses é difícil eliminar tal personagem). Agora nas formas de Alan Rickman, ele passa de sheik do oriente médio, para um ricaço londrino, patrão cruel do protagonista.

O avaliador decide dar um golpe em seu empregador, com a ajuda de um novo personagem, o Major Wingate (vivido por Tom Courtenay, do ótimo “O Quarteto”) – que rende alguns dos momentos divertidos ao ter sua patente confundida com a genitália masculina. Os dois recém-formados golpistas, decidem alistar uma jovem vaqueira em seu esquema. Simplesmente por uma conspiração do destino, já que a personagem é descendente direta de um soldado que poderia ter adquirido uma famosa obra de arte durante a Guerra.

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PJ Puznowski, interpretada por Cameron Diaz, é a personagem feminina totalmente modificada da versão original. Nome, personalidade, motivações, e caracterização, nada foi mantido da Nicole de MacLaine. Outro que entra em cena na nova versão é o avaliador alemão rival, interpretado por Stanley Tucci (“Jack – O Caçador de Gigantes”).

Dirigida por Michael Hoffman, de filmes de certo prestígio como “O Clube do Imperador” e “A Última Estação”, essa obra tinha tudo para chamar a atenção: bons atores, bons roteiristas e um bom diretor, mas de alguma forma terminou por passar completamente despercebida por onde foi exibida. O motivo talvez seja o subgênero no qual se encaixa, o das comédias de “slapstick” ou “pastelão”, cada vez mais provado sem lugar junto ao público atual, como o recente “Assalto em Dose Dupla” também mostrou.

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Tais filmes continuam sendo lançados nos cinemas brasileiros, já que nosso público talvez seja um dos que mais favorece obras de comédia de forma geral. Mas nem aqui esses projetos parecem chamar grande atenção. “Um Golpe Perfeito” é grande homenagem ao cinema da década de 1960, e ao tipo de filme que o falecido Blake Edwards construiu uma carreira em cima, como “A Pantera Cor de Rosa” e “Um Convidado Bem Trapalhão”. Esse tipo de filme geralmente é formado de situações absurdas e surreais, que são todo o mote para o humor.

Desencontros, desentendimentos, confusões, trocas de nomes, assim como um humor mais físico, são elementos clássicos de tais comédias. Obviamente, aqui os talentosos Coen subvertem isso (dentro do possível) com seu roteiro. Em um momento específico que faz parte da estrutura inicial, vemos o plano do golpista sair perfeitamente bem enquanto o mesmo nos narra a situação, somente para percebermos que nada daquilo estava de fato ocorrendo, e que a realidade (que chega logo em seguida) é completamente diferente da expectativa. Um bom truque narrativo.

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Um Golpe Perfeito” tem grande apelo aos nostálgicos, mas talvez somente para eles. É o tipo de filme fora de seu tempo, deslocado dentro da comédia atual muito ácida e recheada de referências pop por minuto, talvez para o seu próprio bem. Colin Firth repete a rotina do homem retraído e perdedor (que faz bem), Cameron Diaz capricha no sotaque texano para viver a vaqueira espevitada (exibindo a boa forma de rata de academia), mas é Alan Rickman quem chama a atenção com um personagem mais tridimensional do que esperaríamos, no qual não estamos tão acostumados a vê-lo.



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