WAJDA PRODUZ UM BOM RETRATO DO LÍDER SINDICAL

 

Antes de falarmos do filme polonês Walesa (Wałęsa), falemos da figura histórica Lech Wałęsa (ou Walesa, aportuguesado). Wałęsa era um eletricista nos portos da cidade de Gdansk, em meados da década de 1960. Integrante da União Soviética, a Polônia vivia uma ditadura de partido único – mas que adotava uma retórica de democracia direta – que produziu uma grave crise econômica, com inflação e desabastecimento. Inicialmente liderando uma greve no estaleiro de Gdansk, Wałęsa tornou-se uma das figuras mais importantes na transição para a democracia. Foi um dos fundadores do sindicato (e futuro partido político) Solidariedade, na década de 1980. Ele tinha tamanha liderança e carisma, que foi eleito presidente da Polônia nas primeiras eleições livres.

No poder, Wałęsa tornou-se uma figura controversa. Tomou medidas liberais, como privatizações e abertura da Polônia para o mercado externo, mas não conseguiu se reeleger e, nas eleições de 2000, sequer ultrapassou 1% dos votos. Grande líder para alguns, agente do capitalismo para outros, sindicalista incompetente, apenas uma figura carismática, um líder nato. Enfim, uma breve busca no Google para o leitor perceber as contradições dessa figura histórica.


 

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O filme do grande Andrzej Wajda – Oscar honorário em 2000 por sua contribuição ao cinema e diretor de obras como Kanal e Katyn – não abrange toda a complexidade de seu protagonista, mas dá uma medida das suas contradições, além de sintetizar o clima político do período, indo dos primeiros confrontos à eleição de Wałęsa.

Cinebiografias que optam por explorar um grande período da vida – quando não toda vida – de uma pessoa, acabam sendo superficiais, servindo de um resumo visual de uma biografia. Ficam de lado os dramas humanos e as contradições do biografado. Wajda não se sai impecável, mas consegue um resultado muito bom. O filme começa fins dos anos 1980, pouco antes das primeiras eleições diretas. Acompanhamos a chegada de uma repórter italiana que fará uma entrevista com Wałęsa. O roteiro se aproveita de uma entrevista real concedida por ele à repórter Oriana Fallaci. Com este detalhe de roteiro, Wajda consegue justificar, dramaticamente, o formato episódico do filme.

A maior qualidade da película está na reconstituição dos fatos históricos. O design de produção consegue recriar o ambiente da época. A montagem integra imagens da época com outras filmadas para o longo, cuja fotografia preto-e-branco ou granulado simula imagens de arquivo; este efeito, por vezes, resulta um tanto cafona. A trilha sonora, com forte pegada no rock, pontua muito bem as cenas, embora as letras possam soar redundantes para alguns.

Se Wajda é bem sucedido ao reconstituir o período – tanto visualmente quanto no clima de opressão da época – as contradições de Wałęsa e sua vida pessoal são pontos fracos.


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A relação de Wałęsa (interpretado por Robert Wieckiewicz) com a esposa Danuta (Agnieszka Grochowska) é a que recebe o melhor tratamento, muito por conta da ótima atuação de Agnieszka Grochowska. É convincente a imagem da mulher que, mesmo consciente da importância política do marido, apenas deseja levar uma vida tranquila. Ficamos cúmplices na dor de Danuta. Em nenhum instante vemos egoísmo. É apenas uma pessoa que, vítima do fardo histórico, gostaria de levar uma vida normal. Elemento importante nesta construção é o amor dela por Wałęsa, tão bem trabalhado pela atriz. É a personagem de mais fácil identificação.

A maior fraqueza do filme é a construção das contradições de seu protagonista. Mesmo para um mestre como Wadja, é complicado conciliar um grande período de tempo com aprofundamento psicológico, especialmente num filme de duas horas. Muitas das contradições de Wałęsa não são captadas. Nos trechos nos quais o vemos na ação, Robert Wieckiewicz constrói uma figura quase unidimensional, revelando o lado mais carismático de Wałęsa. Apenas durante a entrevista, o lado egocêntrico da personagem aparece.

Wałęsa era um falastrão, gostava de uma bravata, bom de copo, com um ego muito grande. Essas contradições são traduzidas pela postura que Robert Wieckiewicz imprime à personagem durante a entrevista. Tanto pela entonação de sua voz, quanto por seu gestual, o ator transmite ao público uma imagem não muito simpática de Wałęsa, contrastando com a figura agradável do restante da narrativa.


Walesa já estreou em algumas cidades. É um filme fadado ao circuito alternativo dos grandes centros ou aos cineclubes, não por ter uma linguagem rebuscada, mas por ser de um país “exótico”. No fundo, trata-se de um filme até bastante convencional, porém, eficiente em sua carpintaria. Se viesse de uma região menos “exótica”, talvez tivesse um público maior.

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