Crítica | Acrimônia - Ela Quer Vingança - A “Maria do Bairro” norte-americana de Tyler Perry

Crítica | Acrimônia - Ela Quer Vingança - A “Maria do Bairro” norte-americana de Tyler Perry

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Diário de uma Louca

Tyler Perry é uma figura famosa nos EUA. Por aqui, muitos não o conhecem. Isso se deve porque seus filmes nunca foram lançados nos cinemas brasileiros, sempre chegando direto no mercado de home vídeo no país. Fato que acaba de sofrer uma guinada com o lançamento do thriller dramático Acrimônia, que a Paris Filmes traz para as salas nacionais no próximo dia 9 de agosto. Guinada esta talvez mais coerente que qualquer uma incluída no longa.

Para entender um pouco o filme, é preciso antes conhecer um pouco da carreira do roteirista, diretor, produtor e ator Tyler Perry. Um dos nomes mais proeminentes da atualidade quando o assunto é representatividade negra no audiovisual, Perry começou a carreira dando vida a seus textos nos palcos. Foi logo no início que viria a criar Madea, sua personagem mais famosa: uma senhora desbocada e cheia de atitude, interpretada pelo próprio.

Perry usa o humor para fazer comentários sociais, satirizar e ponderar sobre o nicho que conhece muito bem. Suas obras enfatizam questões da raça negra, sem criar ou abordar conflitos raciais. Seus filmes não propagam racismo, não existe brancos contra negros, ele trata problemas de dentro para fora. Desta forma, fica fechado neste universo – em seus filmes quase não existem personagens caucasianos. O autor é conhecido por abrir portas em suas produções para atores negros, e seus lançamentos anuais (às vezes estreando dois filmes por ano) já abrigaram gente como: Idris Elba, Whoopi Goldberg, Thandie Newton, Kerry Washington, Tessa Thompson, Viola Davis, Gabrielle Union, Anika Noni Rose, Louis Gossett Jr., Mary J. Blidge e até mesmo a irmã do rei do pop, Janet Jackson (protagonista de 3 filmes do diretor).




Além do escracho recorrente em muitos de seus filmes, Perry gosta de falar – ou tentar – sério de vez em quando. O cineasta trata igualmente de temas como relacionamento, amizade, traição e devoção à família em seus projetos. Tudo isso é pra lá de louvável e a iniciativa do realizador não deve ser descartada por completo. O grande problema é só um. O nível de seriedade e dramaticidade que o roteirista imprime em seus textos é digno do mais exagerado novelão mexicano. Em um ou outro ele se controla mais. Não é o caso com este Acrimônia.

Na trama, a indicada ao Oscar Taraji P. Henson (em sua terceira colaboração com Perry) vive uma mulher chegando a seu limite e enlouquecendo por causa de um homem. Tudo começa na faculdade, quando a protagonista Melinda (nesta fase vivida pela atriz Ajiona Alexus) conhece Robert (interpretado por Antonio Madison no início do filme). Os dois se apaixonam e ele a promete mundos e fundos. Porém, Robert não tem onde cair morto e Melinda tem condições, tendo herdado uma bolada após o falecimento da mãe.

A primeira bandeira vermelha chega quando Robert dá sinais de mau caráter, traição e interesse no dinheiro. Ao invés de se precaver, a mulher se envolve mais e decide se casar com este verdadeiro “achado”. Durante anos, o sujeito torra a grana herdada a fim de investir em sua grande invenção: uma bateria multifuncional que se auto recarrega e serve para carros e casas. Na fase adulta, Melinda já assume as formas de Henson e Robert vira Lyriq Bent. Assim, Acrimônia segue, com escorregadas cada vez mais graves do sujeito, que parece não dar uma dentro e custa caro não somente a sua companheira, como também para a família dela.

Quando a protagonista finalmente se cansa e decide dar um basta na relação, ocorre uma reviravolta inesperada no roteiro de Perry, fazendo a personagem de Henson finalmente surtar. Não dá para entender muito bem qual a mensagem que o diretor deseja passar aqui. Não sabemos ao certo se o filme é um protesto contra homens aproveitadores, ou se o discurso do cineasta se estende a mulheres que transferem sua amargura, projetando no companheiro sua insatisfação do relacionamento e a culpa pelos erros e frustrações.

No fundo nada disso parece importar muito, já que o terceiro ato é tão insano e fora de contexto, que faz a já icônica cena da novela mexicana Maria do Bairro (1995) – eternizada como o meme que roda a internet – soar como momento sóbrio e equilibrado. Acredite! O que deixa a dúvida na cabeça, se Tyler Perry propositalmente confeccionou seu próprio Paixão Obsessiva (2017) – o qual muitos acreditam ser consciente de seu nível escalafobético. É de dar boas risadas. O desfecho então, é uma mistura de Sexta-feira 13 – Parte 8 (1989) com Titanic (1997).

Seja como for, criado de forma zombeteira ou não, Acrimônia escorrega nos quesitos costumeiros de uma produção de Tyler Perry. O texto é raso, os diálogos dão vergonha alheia, as atuações não são das melhores – mesmo Henson aqui está caricata e exagerada (propositalmente ou não) – e a parte técnica deixa a desejar (digamos assim), com um péssimo efeito de Chroma Key na cena em que os pombinhos apaixonados caminham na beira de um rio, por exemplo. É horroroso.

Como mencionei no texto de Paixão Obsessiva (clique no link para ler), se você for com o espírito certo para uma sessão de Acrimônia, poderá se divertir. Apesar de questões relevantes, o tema é tratado de forma tão pobre (como de costume) pelo diretor, que inadvertidamente causa gargalhadas. O filme é a comédia involuntária mais engraçada de 2018.





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