Crítica | Sem Fôlego – Filme infantil com moldura de cinema de arte adulto

Crítica | Sem Fôlego – Filme infantil com moldura de cinema de arte adulto

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Era uma Vez na América

Todo ano quando chega a época de premiação, ao lado da alegria de ver nossos filmes preferidos indicados a diversos prêmios, também chega a frustração de termos filmes elogiados e com toda pompa e renome, completamente ignorados durante toda a temporada. São os famosos injustiçados. Filmes com toda cara de prêmios, inclusive o Oscar (o maior deles), que por uma razão ou outra simplesmente passam em branco.

Este é exatamente o caso com Sem Fôlego (Wonderstruck), produção ambiciosa e pretensiosa, que marcou sua estreia no Festival de Cannes do ano passado. Trata-se do novo trabalho do americano Todd Haynes, cineasta com visão e narrativa únicos, que gosta de abordar, com muita sensibilidade, o que nos faz humanos. O cineasta possui uma filmografia invejável, na qual destacam-se Longe do Paraíso (2002), Não Estou Lá (2007) e o recente Carol (2015), todos devidamente indicados ao Oscar. Se você já assistiu ou conhece qualquer um dos filmes citados, sabe mais ou menos a sutileza usual utilizada por Haynes em seus longas.

Qual nosso propósito nesta existência? Seguir por um caminho evoluindo para o bem próprio, ou simplesmente tocar e completar outras vidas? Com esta questão universal, Haynes desenha seu novo projeto, uma história enigmática que vai se desvendando perante nossos olhos a cada cena – até sua conclusão, que promete dividir o público. Muitos se sentirão enganados quando descobrirem o verdadeiro propósito da obra, os mais atentos e que gostam verdadeiramente de apreciar uma produção cinematográfica ficarão emocionados pela jornada. Já que a vida, assim como os filmes, vale pela viagem e não pela conclusão.



Vale dizer que Sem Fôlego é baseado no livro do mesmo Brian Selznick de A Invenção de Hugo Cabret (2011), e que suas obras infantis estão com moral, tendo despertado o interesse de gente como Martin Scorsese no filme citado, e agora Todd Haynes. Como os estilos de tais diretores são bem distintos, Scorsese entregou um filme mais palatável ao grande público, enquanto Haynes brinca com ele, disfarçando a simplicidade e fragilidade da história – com roteiro escrito pelo própria Selznick – com uma roupagem de cinema de arte, apostando em uma montagem incomum e até mesmo numa fotografia em preto e branco para uma das histórias.

Na trama, acompanhamos simultaneamente duas histórias envolvendo crianças. A primeira, passada na década de 1970, traz o menino Ben (Oakes Fegley) como protagonista. A segunda, em preto e branco, se passa no fim da década de 1920, e quem se destaca é a pequena Rose (Millicent Simmonds), uma menina surda-muda. Ambos fogem de casa em suas respectivas décadas em busca de um objetivo. O filme narra a jornada de cada um deles, intercalando seus momentos, e deixando o público se questionar a cada cena sobre qual será a conexão entre estas duas tramas – que obviamente não irei revelar aqui.

Particularmente, um forte atrativo no mundo do cinema para este que vos fala, além de um bom roteiro, é uma narrativa incomum. Estamos acostumados a ver e perceber histórias contadas sempre de uma mesma forma, uma forma padronizada. Às vezes recebemos em doses homeopáticas algo fora da caixinha, como histórias contadas de trás para a frente (Amnésia, de Christopher Nolan), ou com narrativa fragmentada, onde começo, meio e fim não estão necessariamente nesta ordem (Pulp Ficiton, de Quentin Tarantino). Existem diversas formas de contar uma história e brincar conosco, o público, e Haynes faz isso muito bem em Sem Fôlego. Aqui o diretor intercala cada uma das histórias de forma muito próxima, como se realmente quisesse juntá-las o máximo possível, deixando-as grudadas. Para isso, o cineasta não deixa passar sequer três minutos em cada história (inicialmente, é claro), já nos jogando de um lado para o outro, do colorido para o preto e branco, e de volta de novo.

Além disso, temos o respaldo de figuras carimbadas em época de prêmios, vide Julianne Moore, o maior nome no elenco e usual colaboradora do diretor. A atriz vencedora do Oscar, e indicada para outros três, interpreta uma estrela da era muda do cinema, e uma outra personagem (que não irei revelar aqui). E Michelle Williams, quatro vezes indicada ao Oscar, numa participação menor, como a mãe do menino Ben. Mas o show é dos pequenos, já que como dito, em seu núcleo, este é um filme infantil. Da dupla, o destaque maior fica com Millicent, que em alguns círculos era cogitada para uma indicação ao Oscar, por seu desempenho mudo.

Sem Fôlego é puro exercício de Todd Haynes, mostrando novamente ser um exímio artista contador de histórias. É exuberância técnica sobre conteúdo. E este é justamente seu maior pecado. A falta de um núcleo verdadeiramente significativo ou emotivo, que crie qualquer conexão com o público além de simplesmente nossa curiosidade em seguir esta história para ver aonde irá dar. Definitivamente todo mistério é mais interessante sem sua resposta.