Scarlett Johansson e representatividade: por que é tão polêmico a atriz interpretar papeis de minorias?

Scarlett Johansson e representatividade: por que é tão polêmico a atriz interpretar papeis de minorias?

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Desde que as minorias começaram a ganhar mais voz e a reinvindicar o seu espaço, a busca por representatividade virou uma das pautas mais urgentes no cinema. Finalmente, depois de anos de invisibilidade, negros, mulheres e a comunidade LGBTQ deixaram de ser coadjuvantes cheios de estereótipos e viraram os protagonistas de produções de destaque - como é o caso de Mulher Maravilha, Pantera Negra, Uma Mulher Fantástica e o mais recente Desobediência. No entanto, por mais que todo esse avanço seja motivo para comemorar, parece que ainda existe um longo caminho até que toda a mídia realmente se importe com essas questões ao invés de apenas querer lucrar com elas (e, sim, essa indireta é para você, Scarlett Johansson!).

Na última semana, a atriz entrou em mais uma polêmica que envolve o "roubo" de papeis que deveriam ser interpretados por atores que fazem parte dessas minorias. O primeiro, para quem não lembra, foi com o filme A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017), onde Scarlett deu forma à uma protagonista que deveria ter sido vivida por uma asiática. Na época, a estrela até tentou se justificar falando que a personagem tinha uma identidade neutra por ser um ciborgue e  que "jamais iria aceitar um papel que fosse ofensivo" porque entendia a importância da diversidade em Hollywood. Mas, de acordo com um grupo de mídia asiático, a Major Mira Killian era, sim, japonesa e tudo não passava de uma desculpa.

Depois desse ocorrido, era de se esperar que Johansson ficasse mais atenta com a escolha dos seus papeis para não ocupar o espaço de quem precisa ser representado, certo? Errado! O segundo episódio que fez toda essa discussão voltar à tona foi a escalação da atriz para protagonizar o filme "Rub & Tug", biografia de Dante "Tex" Gill, um homem transgênero - que, coincidentemente, é do mesmo diretor de Ghost in the Shell, Rupert Sanders. E o pior de tudo é que, dessa vez, Scarlett nem tentou se desculpar ou justificar sua presença no longa, mas resolveu jogar a culpa para outros atores cisgêneros que também interpretaram personagens trans. "Falem para eles mandarem suas mensagens para Jeffrey Tambor, Jared Leto e Felicity Huffman também falarem sobre o assunto", declararam os representantes da atriz assim que as críticas começaram a aparecer, se referindo às produções Transparent (2014 - ), Clube de Compras Dallas (2013) e Transamérica (2005), respectivamente.  Ou seja, foi quase como aquela frase clássica que usamos com os pais quando sabemos que estamos errados e não temos justificativa para nos defender: "olha ali o meu irmão também. Por que não fala com ele?". Mas a diferença é que, em assuntos importantes como este, não dá para não se posicionar e tentar sair pela tangente jogando o foco para terceiros.




Na Internet, é claro, não faltaram críticas (e memes) sobre a bola fora de Scarlett Johansson e a justificativa de seus representantes. Alguns até tentaram amenizar o fato afirmando que a presença de uma estrela renomada como ela na produção pode fazer com que mais gente se interesse pelas questões que envolvem transgêneros, ou que o importante mesmo é falar sobre o assunto, independentemente de quem vai viver o personagem. Porém, em um cenário onde a maioria dos papeis é reservado para atores cis, difícil engolir que um deles ocupe esse tipo de espaço - tanto por questões de representatividade, já que é importante que o público trans se veja nas telas, quanto pela pouca oportunidade para atores que mudaram de gênero no meio cinematográfico. Para entender essa segunda questão, é só se perguntar: é comum ver algum deles dando vida a algum cisgênero nos filmes e séries? Então...

Jamie Clayton, atriz transgênero de Sense8 (2015 - 2018)e militante da causa, usou o seu Twitter para falar sobre a questão e tocou justamente nesse ponto para explicar o porquê de ser tão problemático Scarlett Johansson ter sido escolhida para a cinebiografia de Dante: "Atores transgêneros são chamados apenas para audições de papeis trans, nem são considerados para outros tipos de papeis. ISSO É UM PROBLEMA REAL. A GENTE NEM CONSEGUE ENTRAR NA SALA. ESCALEM ATORES TRANS EM PAPEIS CIS. EU DESAFIO VOCÊS!", desabafou. E quem se atreve a dizer que ela não tem razão?

Tudo bem que as tais produções citadas pelos representantes de Johansson realmente não tiveram a mesma polêmica na época em que foram lançadas - tanto que a série Transparent já ganhou vários prêmios, Jared Leto venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2014 e Felicity Huffman foi indicada à categoria de Melhor Atriz na premiação de 2006. Mas, depois de chegar até aqui, com as discussões sobre representatividade cada vez mais em alta e filmes como o já citado Uma Mulher Fantástica - protagonizado pela atriz transgênero Daniela Vega - ganhando o Oscar, voltar a dar o espaço conquistado pelas minorias para atores brancos e cisgêneros não é nada além de retrocesso.

Sim, a arte é livre e é função de qualquer ator ou atriz interpretar os mais diferentes tipos. No entanto, considerar esse argumento para defender episódios como este é ignorar todos os anos de invisibilidade desses grupos e tudo o que se conquistou até aqui sobre representatividade. Enquanto o mundo ainda não é o lugar perfeito onde todos têm oportunidades iguais - seja em Hollywood ou no dia a dia em uma cidade qualquer -, vamos dar voz para quem ainda luta para ser ouvido e deixar que eles sejam os protagonistas de suas próprias histórias.





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