Crítica | Os Parças 2 – Sem graça e sem razão de existir

Eu sei, gente. Calma. Estamos aqui para refletirmos juntos sobre esta continuação que chega aos cinemas brasileiros dia 28 de novembro. Se você viu o primeiro ‘Os Parças’, pode concordar que, embora não seja um filmaço, o longa anterior meio que funciona dentro da sua proposta. Mas aí, então, veio esse ‘Os Parças 2’, e ficou a pergunta: por quê?

Claro, sabemos da enorme popularidade de Whindersson Nunes e Tirullipa, e obviamente esta é a resposta da nossa pergunta, mas a questão que levantamos aqui é justamente esta: dado o grande número de fãs que esses dois têm, por que a produção não se preocupou em fazer uma coisa mais legal, mais amarrada, com mais história, para que essa garotada fosse ao cinema com gosto, saísse da sessão satisfeita e ainda chegasse em casa e falasse com os amiguinhos para irem ver o filme também? Por quê?

Vamos à sinopse oficial: Toin (Tom Cavalcante), Ray Van (Whindersson Nunes) e Pilôra (Tirullipa), gastam à larga num hotel de luxo, por conta do dinheiro do casamento de Cintia (Paloma Bernardi). Só que Vacário (Taumaturgo Ferreira), pai de Cintia, foi preso, e fez uma delação premiada que levou seu perigoso chefe, o China, para a cadeia. O super mafioso prometeu vingança. Vacário está preso, Cintia foi mandada pra fora do país e o próximo na linha de vingança é Romeu (Bruno de Luca). Os Parças precisam de grana para que Romeu possa fugir do país e ir se encontrar com Cintia. Para isso, eles terão que fazer funcionar uma decadente colônia de férias para adolescentes: reformar as instalações, conquistar seus clientes e ainda competir com a rica colônia vizinha.

Pensem comigo: os três Parças estão torrando o dinheiro num hotel de luxo e metem o pé sem pagar a conta; Vacário vai preso e Cíntia é mandada pro exterior, e, na impossibilidade de se vingar de quem realmente ferrou com sua vida, o tal do China decide que vai se vingar é do genro do Vacário (!); não bastasse isso, os amigos buscam uma forma de arrecadar dinheiro pra mandar Romeu pro exterior, e, o melhor plano que conseguem pensar é reformar (!!) uma colônia de férias (!!!) para receber jovens da classe média e, com isso, levantar a grana. Vocês conseguem perceber que uma ideia não faz sentido com a outra?

Pois bem. Com um argumento que parece resultado de um brainstorming, ‘Os Parças 2’ dá a impressão de ser a junção de várias esquetes que não têm ligação uma com a outra, com elementos, personagens e causa-efeito jogados sem nenhuma preocupação em cerca de 1h40min de filme. Exemplo: diante do surgimento de um grupo em uma colônia de férias vizinha, as duas turmas de jovens criam inimizade gratuita, encabeçados pela personagem de Mariana Santos, uma inspetora antipática e autoritária. Lá pelas tantas, é sugerido que para resolver esse problema entre os dois núcleos (que problema, gente? Por que há um problema?), o melhor seria realizar um torneio esportivo (!!!!) e que vencesse o melhor. Eu hein. Aliás, em determinado momento a personagem de Mariana Santos fala “Eu estou com vergonha!”, e tudo que podemos pensar é “eu te entendo, amiga”.

Novamente: não é que o filme seja uma bomba terrível, mas parece não cumprir requisitos básicos de um longa-metragem, como a existência de um roteiro, uma história coerente, o desenvolvimento dos personagens, um objetivo, uma justificativa, sei lá, qualquer um desses pontos. Isoladamente, algumas esquetes funcionam, como o trecho de Pilôra explicando para Ray Van a problemática de transportar a grama, a onça, o homem e a cabra para o outro lado do rio. Porém, não há ligação entre esta cena e a anterior ou a seguinte, então, a impressão que se tem é que fizeram um compiladão para aproveitar o que havia de melhor nos atores principais e foram construindo as cenas a partir disso. Assim, o espectador conseguirá identificar o José Ribamar e o João Canabrava do Tom Cavalcante, o kung fiofó e o Roni do Whindersson Nunes e sobra espaço até mesmo para Bruno de Luca provocar um gordinho com dificuldade de fazer uma trilha.

A parceria entre Whindersson e Tirullipa tem química, e talvez fosse interessante pensar em uma próxima continuação (caso haja) só desses dois, que têm mais sintonia. Até mesmo a música tema do longa foi composta e cantada por esses dois, e é um dos pontos altos de ‘Os Parças 2’, que conta com participações especiais do jogador de futsal Falcão (em mais uma cena criada só para aproveitá-lo, e ele aparece e vai embora do nada), Simone (da dupla Simone e Simaria, não aquela famosa por cantar o tema natalino), o jogador de futebol Amaral (bem natural, pena que se aproveitam de sua estética para fazer piada) e Fabiana Karla (ainda bem que ela está só no iniciozinho do longa, e está bem no papel).

Apesar de tudo isso, sabemos que os fãs dos Youtubers vão ver o filme independentemente da crítica, então, se você está pensando em ir ver ‘Os Parças 2, aproveite a trilha sonora.

 

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.