Crítica | Exit 8 – Suspense Baseado em Game Mostra Que Filme Bom só Precisa de Boa História

CríticasCrítica | Exit 8 – Suspense Baseado em Game Mostra Que Filme Bom só Precisa de Boa História

Que o cinema anda de olho nos sucessos do mundo dos games, isso não é nenhuma novidade dos dias de hoje. As salas já foram inundadas com diversos títulos, desde as primeiras versões de ‘Tomb Raider’ aos novos ‘Mario Bros’, passando por ‘Uncharted’ e a eterna franquia ‘Resident Evil’. Tem para todos os gostos. Porém, a maioria desses títulos se apoia em orçamentos robustos e muitos efeitos, visuais e especiais, para criar mundos, personagens e ações não existentes na nossa realidade – o que, nem sempre, resulta em boa qualidade da produção, afinal, efeitos são legais, mas é uma boa história que acaba conquistando o espectador/jogador. E é isso que encontramos em ‘Exit 8’, mais novo longa nessa vibe que chega a partir de hoje no circuito nacional.

Um jovem homem (Kazunari Ninomiya) está no metrô indo para o trabalho. Ele observa que todas as pessoas ao seu redor estão nos seus celulares e com fones de ouvido. No meio delas, um bebê chora no colo da mãe e um homem grita com eles, injuriado com o barulho. O rapaz recebe uma ligação de sua ex-namorada, contando-lhe que está grávida. Atordoado, ele desce na estação e começa a seguir o caminho da saída, porém, no meio do trajeto a ligação falha e ele percebe que há algo estranho: as coisas começam a se repetir e ele volta sempre pro mesmo lugar. Agora, para encontrar a verdadeira Saída 8, ele precisa percorrer o caminho em busca de anomalias que indiquem se está indo pelo lado certo ou não.

Simples, direto e, nem por isso, entediante. Baseado no jogo homônimo que viralizou mundo afora, ‘Exit 8’ (ou Saída 8) parte de um mote muito simples, que funciona tanto para o jogo on-line quanto para o filme: tanto o protagonista quanto o jogador/espectador têm que, além de seguir adiante, buscarem por elementos para além do óbvio do enquadramento. Ou seja, o espectador, na sala de cinema, ganha uma função, uma missão, e, por mais que a gente não consiga interferir diretamente nas escolhas do personagem (como ocorre no game), a gente sente como se fizesse parte daquilo, e, a partir desse sentimento, julgamos os personagens em suas capacidades de percepção ou de abstração da situação.

Adaptar a jogabilidade do game de Kotake Create pro filme foi o principal acerto do roteiro de Kentaro Hirase, mas não o único, pois também a atmosfera foi recriada. Para o cinema, o enredo ganhou uma explicação filosófica que dá um background interessante (toda a introdução do protagonista descobrir que vai ser pai), que inclusive pode levar a interpretações do looping em que ele entra depois disso, encontrando dois outros personagens – um menino e um homem mais velho – que pode levar para algo como um encontro consigo mesmo no passado e no futuro a partir da crise diante da paternidade. Mas aí vai de cada um.

O lance é que o personagem precisa atravessar um Z, três corredores que levam ao próximo nível da estação, totalizando oito ao fim. Mas, toda vez que uma anomalia ocorre e o rapaz não percebe, ele volta à estaca zero, e precisa recomeçar os níveis. E é só isso a história base de ‘Exit 8’. Mas a forma como é construída é o que engaja o espectador. E isso porque nenhum dos (poucos) personagens que aparecem têm nome.

Enigmático, fascinante e curioso, ‘Exit 8’ é um suspense psicológico que prende a atenção e utiliza da repetição como técnica para engajar a atenção. Simples e com muita criatividade para tornar novo a repetição obrigatória da trama, ‘Exit 8’ comprova que uma boa história é o que basta para um filme conquistar o espectador, principalmente quando este se sente desafiado pelo próprio filme.

Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.

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