A história de uma mãe solteira quase sempre é uma jornada que enfrenta muitos desafios, não importa de onde ela seja. Às vezes há uma rede de apoio ao redor, às vezes ela possui um emprego ou algo que lhe dê base financeira. Mas, em cima dos percalços da vida, há também as particularidades culturais de cada país, de cada região, e isso pode, muitas vezes, tornar a criação dos filhos uma empreitada ainda mais desafiadora, e isso fica bastante evidente no longa iraniano ‘Mãe e Filho’, indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes e que chega ao circuito exibidor nacional a partir de hoje.

Apesar de tudo, Mahnaz (Parinaz Izadyar) está feliz hoje. Ela trabalha como enfermeira em um importante hospital, o que a permite cuidar da educação e da criação de seus dois filhos, Aliyar (Sinan Mohebi) e Neda (Arshida Dorostkar), e tem um relacionamento estável com Hamid (Payman Maadi), que é motorista de ambulância no mesmo hospital que Mahnaz. Mesmo sendo viúva, ela está decidida a dar um novo passo em sua vida e aceitar o pedido de casamento de Hamid, porém, para tal, ela precisa que seus filhos fiquem com seu ex-sogro (Hassan Pourshirazi), pois a cerimônia de pedido dura dois dias. Mesmo se desdobrando em mil para dar conta de tudo, é nesse período do pedido que uma grande tragédia acontece, e mudará a vida de Mahnaz para sempre.
Acima de tudo, ‘Mãe e Filho’ é um filme extremamente dramático. Em suas duas horas e onze minutos de duração, não é exagero dizer que quase todos os cento e trinta e um minutos são de situações tensas, aflitivas e que carregam no drama quase ao nível do insuportável. E se isso é difícil de ver, imagina de viver.
Escrito e dirigido por Saeed Roustayi (diretor iraniano que já fora condenado à prisão por exibir seu filme no Festival de Cannes sem autorização do governo iraniano, e que fora acusado, pelo filme ‘Os Irmãos de Leila’, de fazer propaganda antigoverno), cujo histórico é tanto de crítica social e ao governo iraniano quanto também é de retratar o lugar da mulher na sociedade islâmica, em especial no Irã. Mesmo sem sabermos de nada disso sobre o realizador, fica evidente que essas são as vertentes que conduzem o longa.

Para a espectadora, é difícil ver cenas como as que passa Mahnaz, em pleno 2026. Como mãe solteira, ainda que viúva, essa personagem atravessa todos os círculos do inferno para criar os filhos, mas suas principais dificuldades são o próprio sistema em que está inserida, que é gerador das mais altas barreiras no cotidiano de uma mulher contemporânea no Irã. Assim, mesmo tendo alguma rede de apoio, um emprego e capacidade financeira, tudo para Mahnaz é muito mais complicado pelo simples fator de ela ser uma mulher, e sem marido.
Agora, é um filme longo, cujo início demora a fazer o espectador entrar na história por se demorar bastante na contextualização do cotidiano da protagonista. Quando a tal tragédia acontece, a gente fica até pensando que, bom, é para aí que o filme se encaminha, porém, há tanto mais coisa depois desse evento que acaba tirando um pouco a força do impacto do evento para diluir-se em situações posteriores que vão impactando a vida da protagonista, que, por sua vez, precisa encontrar forças para as novas batalhas que surgem no seu destino. No final das contas, o filme não é sobre uma mãe, não é sobre um filho, e não é nem sobre a tragédia: é sobre ser mãe no Irã contemporâneo.
Impactante, ‘Mãe e Filho’ é difícil de se assistir, pois mostra que as realidades enfrentadas por mulheres solteiras com filhos não são tão distantes, no Brasil e no Irã, apesar da distância geográfica entre esses países.



