Seria o metrô um purgatório moderno? Em Exit 8, sim. Um terror claustrofóbico, um glitch na realidade que nos joga em algo arbitrário, onde os personagens precisam encontrar uma saída concreta para um problema abstrato. Em seu segundo longa, apresentado na sessão de meia-noite em Cannes 2025, o cineasta japonês Genki Kawamura constrói uma experiência singular e metafórica.
Baseado em um jogo japonês, o filme acompanha um homem que, após receber uma notícia impactante, se vê preso em um metrô do qual simplesmente não consegue sair. A sensação é imediatamente familiar, especialmente para quem já enfrentou o labirinto de saídas de grandes estações, como a Châtelet–Les Halles, em Paris, com suas 19 saídas. São corredores intermináveis, múltiplas direções, uma lógica que parece existir, mas que nunca se revela por completo. Aqui, porém, essa confusão vira regra: escapar depende de observar cada detalhe e identificar pequenas anomalias.

O filme abraça totalmente sua origem nos videogames, e isso é justamente o que o torna tão interessante, mesmo para quem não conhece o jogo original. Cada percurso bem-sucedido funciona como uma fase vencida, enquanto cada erro reinicia o ciclo, criando uma estrutura que remete tanto à repetição angustiante de O Feitiço do Tempo (1993) quanto à arquitetura opressiva e impossível do hotel em O Iluminado (1980). Há também algo de M. C. Escher nos corredores, uma geometria impossível, que se dobra sobre si mesma, como uma fita de Möbius onde início e fim se confundem.
O que começa como um jogo de percepção, aos poucos se transforma em um mistério psicológico mais profundo. Quando os personagens secundários passam a ocupar espaço, figuras que parecem tão perdidas quanto o protagonista, a pergunta muda: não é mais apenas “como sair?”, mas “por que eles estão aqui?”. Cada detalhe fora do lugar deixa de ser apenas um desafio lógico e passa a sugerir algo íntimo, quase como se aquele espaço estivesse refletindo conflitos internos, traumas e culpas.

Nesse sentido, Exit 8 toca em uma ansiedade muito concreta: a repetição da vida cotidiana, a sensação de estar preso em um sistema que promete regras claras, mas nunca entrega uma saída real. Há ecos da ideia de “não-lugares” da modernidade, espaços de passagem onde ninguém realmente pertence, e onde todos se tornam anônimos. Devido à repetição dos cenários, a narrativa poderia ser cansativa, mas a divisão de capítulos sobre diferentes perspectivas e resoluções bem definidas nos mantém atentos à trama de poucos elementos, mas muitas camadas.
Comparações com Vivarium (2019), de Lorcan Finnegan, são possíveis — especialmente na forma como ambos exploram o aprisionamento em ambientes artificiais e ciclos sem fim. Exit 8, no entanto, é mais direto na sua execução, e talvez até mais perturbador justamente por isso. Não há exagero visual ou surrealismo explícito: o horror vem da repetição, da observação e da percepção de que algo está errado, mesmo quando tudo parece igual.
O mais interessante é como o filme exige atenção absoluta. Em um tempo em que estamos constantemente distraídos, ele nos força a olhar, memorizar e duvidar. Se você piscar, perde uma pista e talvez nunca mais entenda o que está acontecendo. Intrigante e inteligente, Exit 8 não é apenas uma história inquietante, mas também um jogo psicológico que testa tanto seus personagens quanto quem está assistindo. Mais do que um filme de gênero, o longa funciona como um dispositivo: não apenas nos prende, mas nos obriga a encontrar (ou inventar) uma saída para os nossos próprios dilemas.
Lançado em 18 de maio de 2025, no 78° Festival de Cannes, Exit 8 chega aos cinemas brasileiros nesta quinta, dia 30 de abril de 2026, como distribuição da Paris Filmes.


